13.1.07

Gabriel

Eu estava sentado no ônibus, pensando sabe-se lá no quê, quando me jogaram algo no colo. Distraído que estava, nem reparei quando entrou o menino gordinho que distribuiu a todos os passageiros um pirulito e um bilhete.
     Talvez não faça tanta diferença dizer que especialmente naquele dia eu não estava para papo, quanto menos para bilhete. E, não vou mentir, li mais por mania de ler que por interesse, mesmo porque eu só tinha dez reais para passar o resto da semana - pagamento não dura muito tempo na minha mão.
     "Meu nome é Gabriel e tenho sete anos. Fora do horário escolar, eu ajudo minha mãe porque estamos passando necessidade por falta de trabalho. Você pode comprar este doce que eu lhe entreguei pela quantia que seu coração mandar. Porque só é vencedor aquele que vence sem derrubar ninguém."
     Admito que a primeira coisa que me passou pela cabeça foi "como pode alguém pobre assim escrever tão bem?": preconceito idiota meu. Era um pedaço de papel escrito à mão, com letra bonita de mulher, e cortado com capricho. Montado numa folha e reproduzido numa máquina de segunda. Mas o que me derrubou, o que me jogou na lona foi a última frase.
     "Só é vencedor aquele que vence sem derrubar ninguém". Pensei em quantas vezes aquele menino ali não teria sido derrubado. Quantos vencedores já não se fizeram às custas dele?
     No fundo do ônibus algumas moedas tilintaram. O menino vinha pegando de volta os bilhetes e vendeu um pirulito a alguns poucos centavos. Daria para dois ou três pães no fim do dia. Quantos desses meninos eu já não derrubei para tentar ser vencedor?
     Vencedor naquele dia, naquele ônibus era ele, e só ele, o menino que vendia pirulitos, fora do horário escolar, para ajudar uma mãe desempregada a quanto o coração das pessoas mandasse. Só que os corações mandam muito pouco. Quantos meninos eu já derrubei, quantos?
     Tive vergonha de poder esticar somente a nota de dez reais, a que tinha na carteira. Uma oferta pelo pirulito que ele aceitou sem pestanejar, e com um sorriso que me fez perder qualquer resto de mau humor. Acho que teria dado a ele de bom grado todo o meu pagamento do mês, se já não o tivesse gasto em besteiras vinte dias antes.
     Porque naquele dia, mais que o gosto do doce na boca, aquele menino, aquele anjo Gabriel gordinho de sete anos, me deixou uma lição que eu queria nunca esquecer: "só é vencedor aquele que vence sem derrubar ninguém."
     Ou talvez eu que estava muito sentimental.

6 comentários:

Ak disse...

Extremamente difícil é encarar a realidade de quem nem conhecemos, quase impossível é entender essa realidade e contribuir para dias melhores.

Parabéns pela sua atitude, se 3% das pessoas retirassen alguns centavos do bolso nossas crianças seriam menos maltratadas, menos violentadas, mais alimentadas, mais felizes, com mais força... O importante é seguir o coração, independente de dias sentimentais ou não. Mais uma vez parabéns.

Inhame Filosofante disse...

triste e dura realidade....

Sempre que me vejo em situações assim eu penso: como me esconder dos olhos desse menino(a)??? Não dá


Parabéns... acepipes com tempero social....

Raphael disse...

Bela atitude meu amigo.

Acho que todos nós precisaríamos acrodar todos os dias mais sentimentais que o normal. Enxergar o próximo e amá-lo sem sequer conhecê-lo é uma dádiva divina.

Tomei aquela frase pra mim também...

Rafael disse...

Mais que um texto, isso é um testemunho para ser contado. Essa frase vai andar comigo para sempre. E que Deus abençoe o nosso anjo Gabriel!


Esta convidado para escrever um texto para o Blog da banda!

Silvia disse...

Nossa, como vc escreve bem!!! Deveria aproveitar que trabalha em uma editora e escrever um livro. Vc conta a história com uma riqueza de detalhes que o leitor consegue imaginar a cena.

Parabéns!!!

Qdo eu crescer, quero ser como vc!!! RSss.. =o) Beijim...

Silvia disse...

Nossa, Bruno! Que coisa mais linda essa história...emocionante! Parabéns pelas palavras!!!

Beijus...