Uma noite dessas
colocou um capuz
e saiu com uns papéis
debaixo do braço
E aí
junto com esses cartazes
de amarração para o amor
com pagamento após o resultado
pregou um outro que diz
"mas que tipo de amor
pode começar amarrado?"
acepipes escritos
o chá é servido pontualmente a qualquer hora
26.3.13
20.12.12
Palavras cruzadas
Duas cabeças brancas debruçadas sobre duas xícaras vazias, uma caneta e uma revista: quem entra apressado no shopping certamente não percebe uma cena tão delicada. Tampouco eles, sentados a uma mesa do café, parecem perceber tanta pressa ao redor. De tempos em tempos, rompem o silêncio concentrado com alguma frase curta, tomam a caneta, escrevem. Fazem palavras cruzadas.
Já há mais de cinquenta anos os dois formam uma boa dupla: ela entende de artes e português e ele, de geografia e ciências. Juntos, já enfrentaram muitas perguntas, preencheram espaços, descobriram respostas, conviveram com dúvidas. Grande afeição por outra pessoa, com quatro letras.
O atendente, pouco atencioso, traz as coalhadas ainda dentro dos potes descartáveis fechados, o mel em embalagenzinhas individuais, como essas de manteiga ou geleia de hotel. Deixa tudo sobre a mesa, com duas colheres envoltas saquinhos plásticos. Enquanto ela tenta, os olhos quase fechados, puxar da memória a poeta polonesa que ganhou o Nobel, ele abre umas das embalagens, derrama numa espiral o mel sobre a coalhada, desembrulha uma colher e coloca em frente dela. Em seguida, prepara sua própria porção.
Depois de discutirem brevemente sobre o cantor caribenho precursor da bossa nova, passam um bom tempo calados. É um silêncio é de harmonia. Numa parceria longa como essa é preciso somente um olhar para se pedir a caneta, um sinal leve para dizer que não se sabe a resposta. Pela porta do shopping, mais gente vai entrando apressada, com fome de algo que a pressa não saciará. Ela recusa uma segunda rodada de café, se tomar outra xícara não conseguirá dormir à noite.
Desenhando com capricho a cauda elegante de um R, ele preenche o último quadradinho do dia. Levantam a cabeça ao mesmo tempo num sorriso satisfeito. Ela paga a conta.
Quem sai apressado do shopping certamente não percebe uma cena tão delicada: caminham em direção de casa, ele apoiando-se numa bengala e ela carregando uma revista de palavras cruzadas. Com as mãos que sobram, seguram um ao outro.
Já há mais de cinquenta anos os dois formam uma boa dupla: ela entende de artes e português e ele, de geografia e ciências. Juntos, já enfrentaram muitas perguntas, preencheram espaços, descobriram respostas, conviveram com dúvidas. Grande afeição por outra pessoa, com quatro letras.
O atendente, pouco atencioso, traz as coalhadas ainda dentro dos potes descartáveis fechados, o mel em embalagenzinhas individuais, como essas de manteiga ou geleia de hotel. Deixa tudo sobre a mesa, com duas colheres envoltas saquinhos plásticos. Enquanto ela tenta, os olhos quase fechados, puxar da memória a poeta polonesa que ganhou o Nobel, ele abre umas das embalagens, derrama numa espiral o mel sobre a coalhada, desembrulha uma colher e coloca em frente dela. Em seguida, prepara sua própria porção.
Depois de discutirem brevemente sobre o cantor caribenho precursor da bossa nova, passam um bom tempo calados. É um silêncio é de harmonia. Numa parceria longa como essa é preciso somente um olhar para se pedir a caneta, um sinal leve para dizer que não se sabe a resposta. Pela porta do shopping, mais gente vai entrando apressada, com fome de algo que a pressa não saciará. Ela recusa uma segunda rodada de café, se tomar outra xícara não conseguirá dormir à noite.
Desenhando com capricho a cauda elegante de um R, ele preenche o último quadradinho do dia. Levantam a cabeça ao mesmo tempo num sorriso satisfeito. Ela paga a conta.
Quem sai apressado do shopping certamente não percebe uma cena tão delicada: caminham em direção de casa, ele apoiando-se numa bengala e ela carregando uma revista de palavras cruzadas. Com as mãos que sobram, seguram um ao outro.
10.12.12
A primeira carta de um pai
Ontem amanheceu um domingo quieto e fresco depois de dias de calor escaldante. Depois de tomarmos café, eu olhava distraído a neblina se dissipando lá fora e não foi preciso palavras: bastou que sua mãe chamasse meu nome para que eu soubesse que você existia. Bastou que ela me olhasse com olhos de mãe para que eu soubesse que serei pai.
Por um segundo não acreditei na notícia, e então meu coração me convenceu do que meus olhos estavam vendo, do que meus ouvidos não precisaram escutar. Não me lembro de alguma vez ter chorado tanto. Serei seu pai.
Já faz um tempo que a casa parece vazia. Embora sua mãe seja ótima companhia, venho sentindo falta de alguém e, embora seja uma companhia até que esforçada, sei que eu já não sou mais tudo o que ela espera encontrar depois de um dia de trabalho. Mas não é só um vazio, é o seu lugar que já vinha se criando.
Quando primeiro abrir os olhos (sua mãe e eu estaremos lá), não vou mentir: você vai encontrar um mundo difícil de entender. Dizem que os tempos andam complicados, que as coisas não são mais as mesmas, dizem até que é loucura botar filhos neste mundo. Mas não se deixe preocupar muito, não: todos os tempos, cada um a seu modo, foram complicados. A maldade vai se reinventando de época em época, mas a Verdade continua a mesma desde sempre. É um mundo cheio de lugares lindos e pessoas incríveis, você vai ver.
Espera só até conhecer tantos amiguinhos, tanta gente que desde ontem tem emocionado à sua mãe e a mim com tantas demonstrações de carinho. Espera só até pegarmos nossos livros e eu te contar tudo o que aprontaram o Peter Pan e o Capitão Gancho. Espera só -espera só!- até seu avô imitar o urso Baloo num dia em que você dormir na casa dele, e até ouvir o outro avô cantando um samba do Chico Buarque feliz da vida, e as avós fazendo bolos e doces pra comerem escondidos antes que alguém descubra. Espera só, minha criança querida, até passearmos por uma rua todinha tomada de ipês floridos de dourado, sentindo o vento gostoso de um fim de tarde. Espera só até irmos ao zoológico. Espera só até você pegar no sono olhando para aquela imensidão de doçura que são os olhos azuis da sua mãe. É tanta coisa que não cabe em todas cartas do mundo...
Umas semanas atrás, arrumei o presépio aqui em casa. São umas figuras pequenininhas, um burro, uma vaca, dois carneiros, um pastor, três reis, um anjo, um pai, uma mãe e uma manjedoura ainda vazia. Uma chama tem ficado acesa todas as noites, velando pelo Menino que está para chegar. Quis o Menino que também minha casa se tornasse digna de uma espera tão abençoada. Agora, aqui também temos uma manjedoura preparada. Agora, aqui também esperamos uma criança.
Não se precisou de palavras. Bastou que sua mãe me olhasse de um certo jeito para que eu soubesse que minha vida está mudada para sempre.
Amo você desde o seu primeiro momento e amarei até o meu último.
Seu pai.
* * *
Há uns meses atrás, com uma carta, acabei tirando, por preguiça, um tempo do blog. Hoje, outra carta, com um motivo muito mais nobre, me deu motivo para voltar.
31.8.12
Uma carta meio confusa
Tem um conto do Borges -talvez um relato verídico, vai saber- em que ele senta ao lado de um homem a beira do rio e se dá conta de que o outro é ele mesmo, muitos anos mais novo. E então é tomado primeiro de estranhamento, depois de uma vontade urgente de prevenir sobre o futuro e, por fim, da serenidade de que o que há de ser, será, e que seja. Uma boa história, me pego pensando nela.
Se bem me lembro, você deve ser agora um menino tímido, de pouca conversa e muita imaginação. Deve estar relendo alguma parte do Sinbad -se não me engano, é da terceira viagem que gosta mais- ou folheando um volume qualquer da enciclopédia. Um menino meio constrangido por gostar de folhear enciclopédias no tapete da sala.
Já eu estou aqui, ainda tímido e de pouca conversa. Esperei o prédio inteiro ficar quieto para tomar um copo de chá e ouvir um concerto do Beethoven. Meio constrangido por gostar de ouvir música clássica no trabalho. As coisas mudam, mas a gente não.
Daqui a pouco será meia-noite: dia de aniversário. Sendo meio dramático, é o trigésimo inverno. Sentado diante das estantes onde já não cabem mais livros mas se vai dando um jeito de empilhar, posso ouvir minha (nossa?) mulher dormir no quarto em frente. Tenho aprendido a silenciar para ouví-la.
Quando fizer trinta anos, daqui a pouquinho, você será assim: um sujeito meio calado, pensativo talvez além da conta, um homem cheio de "meios" e "talvezes" (com um tanto também de certezas, mas as certezas costumam ser mais silenciosas que as dúvidas).
Veja você. Esses dias mesmo, a família estava toda reunida, umas vinte pessoas, um domingo de inverno sem uma nuvem no céu. Depois da sobremesa, você levou uma cadeira para o jardim e ficou ali, olhando de longe, como quem assiste a um filme bonito. E pensando que nunca mais verá aquilo novamente, que amanhã as coisas já não serão as mesmas, as pessoas serão diferentes, alguém talvez até esteja junto de Deus. E foi ficando tomado de uma ternura tão grande...
É uma carta confusa, absolutamente desnecessária. Uma coisa até meio fútil. Mas, enfim, você será o tipo de sujeito que faz essas sentimentalidades de vez em quando. Talvez, em outra ocasião, eu escreva outra carta, vinte ou trinta anos mais velho, e sorria da minha ingenuidade.
Para que ficar contando tudo se daqui a pouco você vê com seus olhos? A vida é agora, não é mesmo isso que estou tentando dizer?
Pois tem gente que diz que o tempo corre, que mal brindou o novo ano e quando vê já é Natal. Também tem os que reclamam que os dias se arrastam e pedem que tudo passe logo de uma vez. Mas, sei lá, eu diria que durou o que deveria durar. Trinta anos que duraram exatamente o que deveriam durar, nem mais e nem menos. E isso é bom.
De repente me deu uma vontade enorme, urgente, de agradecer. A vida é boa.
Chegou a parte que você mais gosta do concerto. Meia-noite. Feliz aniversário.
Se bem me lembro, você deve ser agora um menino tímido, de pouca conversa e muita imaginação. Deve estar relendo alguma parte do Sinbad -se não me engano, é da terceira viagem que gosta mais- ou folheando um volume qualquer da enciclopédia. Um menino meio constrangido por gostar de folhear enciclopédias no tapete da sala.
Já eu estou aqui, ainda tímido e de pouca conversa. Esperei o prédio inteiro ficar quieto para tomar um copo de chá e ouvir um concerto do Beethoven. Meio constrangido por gostar de ouvir música clássica no trabalho. As coisas mudam, mas a gente não.
Daqui a pouco será meia-noite: dia de aniversário. Sendo meio dramático, é o trigésimo inverno. Sentado diante das estantes onde já não cabem mais livros mas se vai dando um jeito de empilhar, posso ouvir minha (nossa?) mulher dormir no quarto em frente. Tenho aprendido a silenciar para ouví-la.
Quando fizer trinta anos, daqui a pouquinho, você será assim: um sujeito meio calado, pensativo talvez além da conta, um homem cheio de "meios" e "talvezes" (com um tanto também de certezas, mas as certezas costumam ser mais silenciosas que as dúvidas).
Veja você. Esses dias mesmo, a família estava toda reunida, umas vinte pessoas, um domingo de inverno sem uma nuvem no céu. Depois da sobremesa, você levou uma cadeira para o jardim e ficou ali, olhando de longe, como quem assiste a um filme bonito. E pensando que nunca mais verá aquilo novamente, que amanhã as coisas já não serão as mesmas, as pessoas serão diferentes, alguém talvez até esteja junto de Deus. E foi ficando tomado de uma ternura tão grande...
É uma carta confusa, absolutamente desnecessária. Uma coisa até meio fútil. Mas, enfim, você será o tipo de sujeito que faz essas sentimentalidades de vez em quando. Talvez, em outra ocasião, eu escreva outra carta, vinte ou trinta anos mais velho, e sorria da minha ingenuidade.
Para que ficar contando tudo se daqui a pouco você vê com seus olhos? A vida é agora, não é mesmo isso que estou tentando dizer?
Pois tem gente que diz que o tempo corre, que mal brindou o novo ano e quando vê já é Natal. Também tem os que reclamam que os dias se arrastam e pedem que tudo passe logo de uma vez. Mas, sei lá, eu diria que durou o que deveria durar. Trinta anos que duraram exatamente o que deveriam durar, nem mais e nem menos. E isso é bom.
De repente me deu uma vontade enorme, urgente, de agradecer. A vida é boa.
Chegou a parte que você mais gosta do concerto. Meia-noite. Feliz aniversário.
21.8.12
Peixe dourado
Lembro de ter lido uma vez, coisa dessas com que se esbarra por aí, que um peixe dourado deixado num aquário sem luz perde a cor, acaba só um vulto esbranquiçado e sem brilho. Lembro de ter pensado que tem algo de trágico e muito profundo nisso.
Se um peixe dourado deixa de ser dourado, o que resta dele?
No entanto, não me lembro se li ou inventei que, se devolvido ao antigo aquário iluminado, o peixe retoma sua cor, torna-se de novo o que nasceu para ser: dourado.
Assim são os peixes, assim somos nós.
Se um peixe dourado deixa de ser dourado, o que resta dele?
No entanto, não me lembro se li ou inventei que, se devolvido ao antigo aquário iluminado, o peixe retoma sua cor, torna-se de novo o que nasceu para ser: dourado.
Assim são os peixes, assim somos nós.
20.8.12
10.6.12
São essas vezes
A vez em que cheguei em casa, empolgado com um mundo novo que se abria diante dos meus olhos de menino, e tirei da minha mochila a cartilha ainda cheirando a nova e abri na primeira lição e li para minha mãe, encantada, as primeiras palavras da minha vida, que tinha acabado de aprender naquela tarde de verão.
A vez quando, entre os raios de sol que pendiam dos galhos de uma araucária, eu vi uma gralha azul e me senti abençoado e, quando duvidaram de que eu tinha visto em plena cidade algo tão raro a ponto de se tornar só uma história que se ensina nas escolas, tive a segurança de responder simplesmente "eu senti que era".
A vez em que primeiro subi na minha moto e fomos para a estrada e senti a fragilidade da minha vida e a liberdade de não estar somente passando pela paisagem, mas fazendo parte dela, sendo filho do vento, gritando de excitação dentro do capacete debaixo da chuva leve que caía.
A vez quando, numa quarta-feira sem nada de especial, andando pela rua num final de dia eu me senti subitamente feliz de uma felicidade tranquila e serena, subitamente consciente, e sorri, sem uma testemunha sequer, o sorriso mais satisfeito que lembro de ter dado em minha vida e que desde então, ainda esse mesmo sorriso, volta ao meu rosto em certas ocasiões.
A vez na qual, depois de ter resistido a uma tentativa de assassinato numa viagem solitária, corri meio continente de volta para casa e encontrei minha mãe na ainda de pijama, com um bule de café fumegante no fogão e, sentado à mesa, no silêncio de quem não sabe ou não quer dizer nada, senti como nunca a força delicada do amor de quem nos cria para entregar ao mundo.
A vez em que eu, entre amedrontado e ansioso, diante dos meus amigos e da minha família, olhava para as portas da igreja que se tinham acabado de abrir e ela caminhou em minha direção e eu soube que não desejaria da vida, daquele em momento em diante, nada mais que não seja dedicar àquela mulher até o último suspiro que Deus me permitir dar neste mundo.
A vez em que, mesmo depois de já ter ouvido várias vezes, eu realmente ouvi a Nona Sinfonia de Beethoven e senti o corpo arrepiado e chorei e agradeci em silêncio Àquele que deu ao Homem a capacidade e a sensibilidade para criar coisas tão maravilhosas.
A vez numa manhã nublada e um pouco fria em que encontramos um casco de tartaruga entre os galhos que o mar arrastou para a praia numa noite de tempestade e pensei em quanto não havia vivido aquele animal, em que segredos submarinos não guardava aquele casco silencioso, até que viera morrer nas areias perto da casa de meu pai.
A vez, depois de meses longe da escrita, anestesiado por falta de tempo, de inspiração ou mesmo de vontade, em que resolvi checar, num gesto meio mecânico, as redes sociais e chorei ao encontrar uma mensagem de que uma pessoa, uma mãe de família que me leu e lembrou-se de um sonho e começou ela também a escrever.
São essas vezes, essas pequenas ocasiões luminosas, muito mais que os grandes intervalos entre elas, que nos fazem quem somos. São essas vezes, e ainda muitas outras de que não me lembro agora e umas tantas sobre as quais, de tão sublimes e fugidias, não conseguirei jamais escrever.
São essas vezes.
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