6.8.14

Carta a F.

Meu filho

Era madrugada quando sua mãe me acordou: você nascia. Perguntei a ela se tinha certeza. É claro que ela tinha certeza. Ela perguntou se eu sabia o que fazer, e é claro que eu também sabia.
     Sabíamos porque esperamos a vida inteira por isso.
     Com o amanhecer, você chegou. Só chorou porque te fizeram chorar. Eu te tomei nos braços, minha voz era um fio trêmulo, e te falei baixinho. Sua mãe não precisou de palavras: vocês já se conheciam desde sempre.
     Na minha inocência eu pensava que teria que ensinar. Mas quando primeiro você segurou minha mão e abriu seus olhos serenos, soube que quem veio para ensinar foi você. Naquela manhã, meu filho, eu nasci também.
     Hoje completamos um ano, um ano feliz, e meu coração, esse coração de pai que você me deu, transborda. É um amor que não cabe mais em mim. Enquanto escrevo essas linhas que você ainda não consegue ler, mas cuja mensagem você entende num sorriso, sou tomado de gratidão a você. Você, meu professorzinho, que veio para me ensinar a vida. Você, que me deu à luz.
     Fico pensando na maravilha de acompanhar dia a dia o começo da sua jornada. Cada entardecer, cada chegada em casa é um presente. Você cresce um menino adorável, amoroso, gentil. O mundo tentará te convencer do contrário, mas não tenha medo de crescer e se tornar um homem adorável, amoroso e gentil. Cresça, meu pequeno.
     Quando um dia eu comparecer diante de Deus, carregando o peso das minhas pequenezas, a grande honra da minha vida terá sido ser seu pai. Talvez isso, e só isso, terá valido a pena.
     Esses dias atrás fui cortar o cabelo. O noticiário na televisão de catorze polegadas só mostrava tragédias e injustiças e o barbeiro, desesperançado, sentenciou que as coisas vão tão mal que é crueldade colocar uma criança no mundo.
     Antes de você nascer, quando eu ainda não tinha as certezas que você me ensinou, eu costumava me calar. Diante de tanta falta de compaixão, isso parece realmente a coisa mais sensata a se dizer. Mas antes que eu pudesse consentir, a resposta brotou nos meus lábios. Brotou porque você a plantou no meu coração.
     — Eu tive um filho porque é o melhor que eu posso deixar para o mundo.
     Uma criança que nasce é um sopro de frescor sobre o mundo. Você é a esperança.
     Um ano atrás eu te tomei nos braços, minha voz era um fio trêmulo, e te falei baixinho “quanto tempo te esperei”. Eu te amei, meu filho, desde antes de você existir e amarei até quando Deus permitir que eu exista.
     Você é o milagre.

     Seu pai

19.3.14

Duzentas

capítulo sexto


Depois de semanas de calor furioso, amanheceu um dia tristonho. A tempestade que caiu pesada durante a noite encheu o jardim de poças cuja lama o Major parecia empenhado em trazer, pouco a pouco com as patas sujas, até a varanda. Sem a atenção do dono, o velho vira-latas deu de zanzar perdido de um lado para o outro.
     Dona Dalva correu para tirar a leiteira que ferveu e transbordou no fogão. Encheu a caneca, decepcionada com o próprio relaxo, sentou-se à mesa, preparou sem vontade um sanduíche. Comia pão de forma porque a casa não tinha mais quem buscasse pão fresquinho todas as manhãs. Seu Jonas ainda dormia depois de trabalhar até os primeiros raios de sol rastejarem por baixo da porta da garagem. Flutuava sobre a casa um silêncio cansado.
     Quase hora do almoço foi que ele apareceu na cozinha atrás de algo para comer, a cara amassada, os olhos pequenos de quem não dormiu o tanto que deveria. Ela colocou um pratinho sobre a toalha plástica, buscou a garrafa térmica.
     Sem aviso, com a boca ainda cheia de pão com presunto, seu Jonas falou:
     – Terminei minha lista.
     ... e continuou mastigando, encurvado sobre a mesa. Dito do jeito que foi, o anúncio não soou como conquista, como um objetivo atingido depois de dias de busca febril, mas só como uma constatação indiferente, até meio derrotada. Do bolso da camisa ameaçava cair uma caderneta espiral.
     – Hoje mesmo, depois do almoço, começo a segunda parte do experimento. Vou continuar vivendo a vida normalmente, mas só posso usar essas palavras.
     “Vivendo normalmente”. Dona Dalva olhou para os galhos caídos na calçada, vestígios da chuvarada, e suspirou. As benditas duzentas. Maldita revista. Minha Nossa Senhora da Conceição. Pela primeira vez em quarenta anos de casamento, não sabia o que dizer.
Ficaram os dois sem saber como continuar conversa. Seu Jonas, raspando com as mãos as migalhas da toalha, parecia outra pessoa. Nesse espaço de dias, tornara-se calado, parecia até que as palavras lhe custavam alguma coisa. E algo, uma faísca nova, brilhava no fundo dos olhos cansados.
     Dona Dalva chacoalhou a cabeça para livrar-se desses pensamentos, ralhou com o Major que queria entrar com as patas enlameadas e, puxando o martelinho de baixo da pia, começou a cuidar dos bifes do almoço. O cachorro deitou-se para esperar que ganhasse um deles.
     Depois do almoço. Duzentas palavras. Homem dentro de casa não presta. Minha santa Rita.

* * *
Peço perdão pela demora em postar este capítulo. Estive, nos últimos dias, envolvido no lançamento da nova edição da Parênteses, uma revista literária, projeto bonito que estou tocando com muita gente talentosa. Fica a dica -e o link-, inclusive, para quem ainda não conheceu.

E, ah!, faltam mais dois capítulos! Estamos quase, obrigado pela paciência ;)

27.2.14

Duzentas

capítulo quinto


O resto do dia seu Jonas passou na oficina, uma casinha de madeira erguida por ele nos fundos do terreno. Mas o que se produzia lá dentro, diferente dos quarenta anos de trabalhos manuais, era intelectual. O Major farejava ao redor das pilhas de materiais de construção, latas de tinta, tábuas desconjuntadas, canos furados e brinquedos velhos.
     O almoço foi rápido. Dona Dalva viu, desgostosa, o marido engolir a macarronada e voltar para a oficina antes que ela servisse a compota de figo. No meio da tarde, veio trazer um misto quente e tentou, sem sucesso, fazê-lo parar para descansar a vista. Só na hora do noticiário é que o marido apareceu na sala. Ele caiu exausto na poltrona, ela levantou de pronto:
     — Vou esquentar seu prato. Você não veio jantar, homem de deus!
     — Precisa não. Fiquei sem fome.
     Para dona Dalva, um marido sem fome dentro de casa era uma tragédia. Tivesse podado as árvores ou assentado uns tijolos, nada disso teria acontecido. Assistiram a tevê sem ouvir muita coisa, os dois preocupados –cada um por seus motivos– com a experiência. Dormiram sem dizer boa noite.
     E assim foi o próximo dia, e os próximos.
     A caderneta em que seu Jonas começara a escrever com letra caprichada já não era mais suficiente. As ferramentas abriram lugar na bancada para uma imensidão de folhas avulsas, todo papel que seu Jonas foi encontrando, onde rabiscava com empenho, usando lápis de marceneiro.
     Escrevia, riscava, rabiscava, apagava, re-escrevia, amassava, puxava uma outra folha, consultava as coladas na parede. Era um verão suarento e, com os dias, o empenho foi dando lugar à obstinação. Um dicionário foi esquartejado, as páginas riscadas espalhadas pelo chão.
     Mexendo as panelas no fogão, estendendo roupas no varal, dona Dalva parecia ver as ervas daninhas tomarem a horta, o verniz das portas perder o brilho. Como se uma ou duas semanas fossem suficientes para a casa ruir. Desabafava com a vizinha, homem dentro de casa –da oficina– não presta.
     Seu Jonas, agora com fúria, se consumia na busca das duzentas. Dona Dalva começou uma novena. O Major, indiferente conhecedor de duzentas palavras, seguia farejando e esperando bifes.

17.2.14

Duzentas

capítulo quarto


Dona Dalva levantou-se assustada, de um golpe só, quando os primeiros raios de sol escorreram entre as cortinas; tinha perdido a hora. Vestiu às pressas o roupão de cetim lilás e enfiou o pé nos chinelos acolchoados. Só então notou que estava sozinha na cama. Seu Jonas, à mesa da cozinha, cortava umas fatias de salame, o café passado e pão recém comprado sobre a mesa. O Major, na varanda, deitado na posição de sempre, na esperança de sempre.
     — Dormi pouco essa noite. Fiquei pensando na melhor maneira de conduzir meu experimento.
     “Conduzir”, dona Dalva nunca ouvira o marido falar complicado assim. Respondeu com um suspiro vencido. Hoje, pelo jeito, não adiantaria nada mandar envernizar a porta da garagem ou trocar de lugar os quadros da sala.
     — Mas então, já até anotei umas coisas aqui na minha caderneta. O que eu quero é descobrir as palavras que eu preciso para sobreviver. Só duzentas, que nem o Major. E então mando pra revista minha história. Assim falando, parece fácil, mas vai precisar muita investigação.
     “Investigação”. Diante das explicações do marido, ela viu necessidade de defender seu pé atrás:
     — Não é que eu seja contra. Mas é que a gente leva uma vida simples. Essas coisas complicadas assim não sei, não.
     A frase terminou num silêncio, numa justificativa pela metade, que não comoveu nosso amigo Jonas. Razão, razão mesmo ela não tinha.
     — Mas eu vou fazer uma experiência com palavras! Que perigo pode ter nisso?
     Dona Dalva sabia –quarenta anos de casamento– que Inês já era morta. Perigo parece que não tinha mesmo. Então comeu em silêncio, fingindo interesse no plano que o marido, empolgado, apresentava. Duzentas palavras, que nem o Major. Deixa o homem. Veremos.

6.2.14

Duzentas

capítulo terceiro


Depois de um longo banho para se limpar dos restos de tinta, seu Jonas ajeitou a porção de lasanha de modo a acomodar também a coxa de frango que a esposa servia. Enrolou com o garfo um fio de queijo derretido, mastigou com satisfação. A cerca do jardim, mesmo à noite, reluzia de tão branca. Dona Dalva suspirou aliviada: o que o marido precisava mesmo era serviço para ocupar a cabeça e um bom prato de comida. Mas não:
     — Tem que ter o seu nome, claro, senão eu não consigo te chamar. Mas só o nome mesmo, porque se colocar algum apelido vai ocupar lugar na lista. Não vou poder te chamar de "bem" nem de "mãe" porque aí são mais duas palavras, entende?
     — Ai, minha Santa Rita. Mas você ficou o dia inteiro com isso na cabeça?
     Sim, seu Jonas pensara o tempo todo na história das palavras. Estava firme. Chegou a algumas conclusões e traçou um plano simples: comprar um caderno e fazer uma lista com duzentas palavras. Em seguida, viveria com o vocabulário limitado por um tempo. Depois, talvez, mandasse um relato para a revista: um legítimo experimento científico.
     O Major veio deitar-se à porta, lambendo os focinhos do resto de comida que acabara de jantar. Amuado, o casal permaneceu quieto por todo o jantar. A mulher procurava meios de desencorajá-lo, pensava num trabalho ainda maior que lhe ocupasse o tempo, talvez fosse hora de construir um puxado na parte de trás da casa. Da boca do homem, o palito arrancou, além de um fiapo de manga, um lamento...
     — Mas não sei qual é a dificuldade que tem apoiar uma...
     ... que ficou pela metade. A mulher não quis ou não soube responder. Quarenta anos de casamento. Assistiram em silêncio ao jornal. Dalva desligou a TV, Jonas disse que iria se deitar mais tarde. Ela esperou por ele enquanto rezava o terço e nada. Já iam altas horas quando sentiu que, bem devagar, o marido entrou debaixo dos lençóis.

3.2.14

Duzentas

capítulo segundo


O Major ficou deitado ao sol enquanto o dono cortava a grama pela segunda vez em dez dias. Seu Jonas trabalhou quieto por toda a manhã, rádio desligado para poder se concentrar nas próprias ideias. Na hora do almoço, de volta à mesa, estendeu o prato para o bife e declarou, como quem anuncia que vai à busca de um novo continente:
     — Pois vou fazer um experimento científico!
     Dona Dalva mal tirou os olhos da frigideira, preocupada com o corte ruim que o açougueiro lhe havia vendido. O Major, corpo na varanda, cabeça no degrau, olhava para o fogão com a eterna esperança canina de que dali sairia um naco de carne para ele também.
     — Quero ver se eu consigo viver como o Major, sabendo só umas duzentas palavras.
     A mulher desligou o fogo e sentou-se à mesa, mais irritada com o manjar que se despedaçara ao ser desenformado do que com a ideia do marido, que –quarenta anos de casamento a ensinaram– haveria logo é de ser esquecida:
     — Larga de moda, homem. Vai querer latir que nem o cachorro também?
     Mesmo depois de almoçar debaixo de uma chuva de desencorajamentos, seu Jonas seguiu firme na sua decisão de buscar novos horizontes. Dona Dalva, recolhendo a louça, seguiu firme em dois pensamentos: o de que homem dentro de casa não presta mesmo e o de que a cerca precisava de uma pintura nova. Deitado na varanda, o Major, cujo rabo varria o piso avermelhado para lá e para cá, parecia não ter opinião nenhuma.
     Depois do manjar despedaçado, a dupla de homem e cão foi, num silêncio pensativo, à loja de ferragens atrás de tinta para madeira, ambientes externos.

* * *
Caso não tenha lido -e caso interesse ler-, o primeiro capítulo da história foi publicado esses dias atrás nesse post aqui.