26.2.07

Quadrado preto

— Olha só, é um quadrado preto.
     Seu Glicério é um homem direto. E ele não conseguiu disfarçar seu desdém pelos quadros que viu na exposição de arte moderna a que foi arrastado por Dona Eulália. Ela, professora aposentada, volta e meia vem com esses - como ela chamava - passeios culturais. Bota o vestido de listras para ficar mais magra, pega a bolsa e pronto, está decidido. E ele acha sempre a mesma chatice.
     — Agora a gorda vai cantar a música do final. Vamos saindo antes que fique tudo tumultuado?
     — Ih, o rapazinho ali usa malha... E olha a cara de nojo dele quando segura a bailarina!
     — Impressão minha ou o cenário é o mesmo do ano passado, só que azul?
     — Essa molecada tem mais é que ouvir o Adoniran para aprender o que é música.
     Mas o pior de tudo é a arte moderna. Seu Glicério tem um livro encadernado em capa dura dos renascentistas, que ele juntou nos fascículos do jornal, e aquilo para ele é arte, que os quadros parecem até umas fotos. De atual, ele gosta mesmo dos quadros do amigo Rui, antigo colega de repartição. Na verdade, o Rui comprou uma caixa de tintas depois que se aposentou e pinta a mesma paisagem há doze anos. Varia só a estação do ano e a cor do vestido da camponesa.
     — Que Rui o quê, Glicério! Olha isso que beleza.
     — Ah, se eu empilhar seus vasos de planta e colocar minha furadeira em cima fica igual.
     Dona Eulália até que gosta dos quadros, mas, no fundo, no fundo, não troca sua Santa Ceia com moldura dourada italiana por nenhum deles. Ela gosta é de passear culturalmente, para arejar um pouco e se sentir antenada.
     — No meu tempo, artista era quem sabia desenhar. Isso aí é um quadrado preto.
     Dona Eulália belisca, manda falar baixo, mas não tem jeito, um dia morre de vergonha. Seu Glicério se declara um herói, afirma que todo mundo pensa isso, até essas madames empertigadas, mas ninguém tem coragem de dizer. Ficam colocando angústia existencial e crítica social onde só tem um quadrado preto. E mal desenhado ainda, que o sujeito não usou nem uma régua.

8 comentários:

Raquel Labarca disse...

Hahaha!
Estou com seu Glicério!No fundo no fundo é um quadrado preto mesmo, ou azul, ou amarelo...
Ótimo blog, Bruno!
Virei mais vezes.

nancy moises disse...

Eii Bruno tô aqui fuçando mesmo seu blog, te catei la na Mariliza que é minha prima rsrs.Bjs adorei tdo ..
ops sabia que ja maorei 9 anos em sua terra e amo tdo por ai?

MA disse...

Putz seu Glicério rules.... eu concordo com ele tb.... mas acho que já li este hein!?

preto disse...

esse é repetido mesmo, anao...se nao fosse do seu glicerio eu reclamava!!!

Duda disse...

Hahaha
Nessas férias eu dei pra ver na TV uns programas sobre diversos tipos de arte, dentre eles um sobre artes plásticas. E tinha uns caras que pintavam coisas parecidas com quadrados pretos desenhados sem régua. Comecei a ficar assustado quando passei a enxergar algum sentido naquilo hehe
abraços!

Isadora A. disse...

que Miró que nada, ate eu desenho bem melhor !

heverton oliveira disse...

Hum... Um quadrado preto... posso ver por aqui algumas manchas escurecidas no meio dum pano branco, nao em-branco, mas branco mesmo, branco de tinta branca refrescante...

Obs: estou enganado?

Fernando J. Pimenta disse...

Tenho que conhecer esse Glicério um dia! Minha concepção de arte aproxima-se o suficiente!