2.6.07

Conversa de elevador

Cansado de tanto ouvir conversa sem graça de elevador —"tempinho louco, hein, amigo?", "ih, esse fim de semana é chuva!", "e o Coringão, que vergonha!" etc—, o José ascensorista decidiu virar a mesa. Ser um bom papo.
     Como trabalhava numa torre comercial —o público era refinado—, ele assinou a Gazeta Mercantil, assistiu uns documentários na tevê e comprou fascículos para aprender inglês. Pediu férias —que estavam vencidas há tempos— e se aplicou ao projeto. Quando voltou, um mês depois, iniciou a revolução, numa segunda-feira, oito da manhã. Um engravatado entrou, pediu o décimo sexto, por favor, olhou as horas e mandou a de sempre:
     — Tempinho feio, hein, amigo?
     Ah, antes o José aceitaria esse tipo de conversinha sem-vergonha. Passaria o dia todo nesse chove-e-não-molha de papinho sem sal. Mas não agora. Agora o José era um novo homem:
     — Mas sabe que isso é efeito do el Niño, patrão. O safado bagunçou a temperatura no oceano Pacífico. O que era até previsível este ano, pela média dos intervalos dele no último século.
     E assim foi. Entrava o consultor de investimentos de uma multinacional falando no celular. Quando o cara desligava, o José já emendava em cima, para evitar que o sujeito puxasse aquele papinho sem graça:
     — Com licença, doutor, mas olha, o mercado de commodities não anda bem das pernas, um pouco por influência da bolsa de Xangai. Minha dica: fique atento ao índice Nasdaq. Sétimo andar, bom dia para o senhor, chefe.
     Ou outro, no fim do expediente.
     — Ê, sexta-feira! É hoje que a gente manda aquele cervejinha, hein, Zé?
     — Na verdade, doutor, eu estava pensando num chianti, vai harmonizar muito melhor com o picadinho que a mulher está fazendo lá em casa.
     E o doutor ali, de queixo caído.
     Não deu outra. Um dia entrou o doutor Rubião, figura carimbada do mundo business, presidente de umas dessas multinacionais que —por baixo dos panos— mandam na vida de todo mundo e ficou maravilhado com o talento do José. Era o vice perfeito para suas organizações! Mas o José recusou o convite:
     — Imagina, patrão. Eu virar doutor?
     Mas o doutor Rubião não era homem de perder uma negociação. E, se ele queria o José na sua companhia, ele teria o José na sua companhia. Insistiu, aumentou, dobrou a oferta, ofereceu motorista, férias nas Bahamas. E o ascensorista irredutível:
     — Aqui é meu lugar, doutor, eu não saberia viver dentro de um escritório.
     Essa foi a deixa para chegarem num acordo. Assinaram contrato e hoje o José é vice-presidente da multinacional: instalou mesa, computador, telefones e uma poltrona de couro legítimo dentro do elevador. De lá, entre o térreo e o vigésimo sexto andar, ele comanda um império comercial espalhado por todo o mundo. E ainda dá para tirar uns troquinhos como ascensorista, só por amor à camisa.

14 comentários:

zana disse...

Bruno, eu amo muito tudo isso, sinmto falta quando vc não posta, adorei!!!Mas a vida é assim mesmo, é só querer, vc é o que vc escolhe ser!!!!

Ken (paulo) disse...

bruno,parabens ! mais um texto com narrativa que prende nossa atenção !
é por essas e outras que coloquei seu blog linkado,pois passo sempre pra dar uma lida nos posts.

continue,cara,tu manda muito bem !

valeu

http://www.revistanetworld.blogger.com.br

Carol Montone disse...

Bruno vc sempre arruma um jeito de surpreender . Que delícia. Odeio elevadores, mas adoro pessoas " de opinião" (como diria minha vó), feito esse teu operário de elevador....
beijos grandes
Carol Montone

Isadora A. disse...

eu só queria comentar que eu sou uma dessas 'mulheres de sombrinha'. e com amor à camisa !

De Niro disse...

Houve uma época que eu tinha medo de elevadores :P

Julio disse...

Cara vou sortear um dominio para o ganhador usar gratuitamente em seu blog,caso tenha interesse entra aqui http://juliocamara.com/?p=63 :)

[P] disse...

Criatura esperta esse José... Ótimo texto o seu, Bruno.

=*

Criiis ;) disse...

Ahh muito bom o texto!
Mais se eu fosse josé, ja teria aceitado a proposta pelas férias nas Bahamas ;)

Gabriele Fidalgo disse...

Vi seu blog em outro blog que gosto muito.

Adorei o texto! =]

Escreve muito bem.

=**

Diva disse...

Bela narrativa! Escreves que e uma delicia...
Bjs meus

Jane Malaquias disse...

Ele dirigia o mundo com frases feitas?

Pathaua Brasil disse...

auHAUhauHAuhau... morri de rir! adorei! quero trabalhar igual seu José, subindo e descendo na vida hahahaha... :P

*Clara* disse...

haha....10, amei...

Inesperado...

Claudia Lis disse...

Poderoso esse Dr. José. Que belo upgrade hein! Sabe de uma coisa? Hoje eu estava até querendo trocar umas idéias, pedir umas dicas e tal... Acho que vou atrás desse Ascensorista Plus. Creio que ele me dará boas recomendações. Praticamente um oráculo o cara! Será que ele terá um tempinho para mim?

=)

Amei Bruno! Muito bom ler as histórias do Acepipes! Tenho que reservar mais tempo para vir aqui. Hoje o Rex não me deixou sentar, estava roendo alguma coisa sobre o sofá. Não consegui ver o que era, pois ele ficou meio bravo (parecia uma nota de R$20,00). Mas gosto tanto dele, que nem tive coragem de dar uma bronca na tentativa de salvar aquela cédula! Ah, um dia me empresta seu dog? Prometo que devolvo rapidinho.

;-)

Beijões