26.6.07

Prima Doroti

Contrariado, seu Glicério, bermuda e chinelo, empurrava o carrinho pelos corredores do supermercado, arrastando os pés. Dona Eulália corria de uma prateleira a outra.
     — Será que ela prefere molho ao sugo ou bolonhesa?
     — Qualquer um. Quem vê pensa que ela faz cerimônia para comer.
     "Ela" era a prima Doroti, que vinha do interior para fazer uns exames do coração e aproveitaria para almoçar e passar a tarde com dona Eulália. Mexericando e beliscando, como diz nosso amigo. E ele que pensou que os problemas com família haviam terminado quando enterrou a sogra. Que nada.
     — E vamos levar uns sequilhos, para a gente conversar de tarde.
     Exatamente: mexericando e beliscando, pensou nosso amigo. Doroti era prima de primeiro grau de dona Eulália. Herdara em tudo os hábitos da geração anterior das matriarcas da família. O mesmo jeito de falar com o dedinho levantado na asa da xícara, o mesmo jeito de andar, lidando com todo aquele tamanho; o mesmo jeito de apertar as bochechas das crianças, que do mesmo jeito fugiam dela. Usava, por baixo das saias, as mesmas anáguas também.
     — Não me deixa esquecer o chuchu para o suflê.
     Ia ser aquela de sempre. Prima Doroti chegaria, ofegante, e jogando todo aquele peso no sofá. Abanando-se com o mesmo lenço listrado com que enxugava a testa lustrosa e queixando-se que a vida não anda fácil, menina. De lá só se levantaria para sentar-se à mesa, não antes de fazer alguma cerimônia, que ela está de dieta, mas vai aceitar só porque o suflê está lindo.
     Durante o almoço, prima Doroti contaria a mesma história da vizinha que fugiu com o padeiro e largou as três crianças, vê se pode? Talvez falasse também daquela do conserto da geladeira. E a dona Eulália ali, mão no rosto, escandalizada.
     Ainda sem se levantar depois do almoço —e deixa que o Glicério lava a louça, que ele adora ajudar em casa—, iriam tomar chá com bolachas —muitas bolachas, que, ai, estes sequilhos estão maravilhosos. E as risadas? Seu Glicério tentava nem pensar nas risadas. Na saída, a prima ainda levaria uma travessinha de bolo de laranja com coberta por um pano de prato bordado. Mas só para não fazer desfeita, menina.
     Tudo isso ainda não havia acontecido. Mas nosso herói já sofria por antecipação.
     — Você está vermelho, Glicério. Vou aproveitar a prima para medir sua pressão. Ela fez enfermagem no curso técnico quando era mocinha.
     O bom era que o mercado estava cheio de moças sorridentes com amostras grátis. Assim ele se distraía um pouco.

22 comentários:

De Niro disse...

Rapaz....

Quando se trata de parentes, eu tenho um "seu glicério" dentro de mim...

Afffff

Bruxx disse...

Putz... é bem assim mesmo.
Como bem disse de niro, eu também tenho muito do "seu Glicério" em mim...rsrrs
Também pudera, eu tenho muitos parentes do tipo "prima Doroti".
Vou te contar, não é fácil.

post simplesmente fantástico!!!!

beijokinhas

zana disse...

hahahahahahahahaha, sabe do que eu mais gosto no seus posts? dos detalhes, lenço listrado, bolo de laranja com pano de prato bordado, sufle de chuchu,o dedinho levantado...rsrsrrsrs é muito bom, me causa um saudisismo não sei do que!!! bjuss

Cris... disse...

Esse texto me lembra domingos. Domingos que são desse jeito. AFE!
Muito gostoso de ler! Como de custume, adorei! ;*

zana disse...

saudosismo...corrigindo

Sylvia disse...

Adoro o seu geito de escrever,e tudo tao gráfico que nao tem como nao se identificar com um ou outro personagem .E sempre um gosto ler suas cronicas
Bjs

Anônimo disse...

Adoro suas histórias...!!!

Vc escreve mto bem!

Bjs

... Danizita ...

beleza de mulher disse...

vermelho??? claro é melhor medir sua pressão lool

Lorita disse...

E quem não tem uma prima Doroti, não é mesmo?
Eu tenho uma tia no mesmo naipe! rs...

Bjo queridão

Helena Nunes disse...

Lindo, adorei. Este fez-me rir. Coitado do pobre homem. Vá lá ao menos sempre se distrai.
Adoro os pormenores
Bjos

Adrian Masella disse...

Aguentar família é fogo neh!
Ainda mais quando nao eh a nossa!!!

E você me assusta desse jeito Bruno!!
AChei que todos os problemas se resolveriam no enterro da minha sogra [que eu a conheça BEEEEEM mais tarde]!!

Prima folgada essa dona Doroti!

Álvaro disse...

quem não tem parente assim???
Esta coisa de amostra grátis em mercado me lembrou da vez que a gente almoçou graças a estas moças...

Diva disse...

Mudam-se os paises mantem-se os parentes parecidos hahaha
Por aqui tambem nao faltam...
Bjs meus

Caroline Bigarel disse...

Acho que todo mundo tem uma prima Doroti e quem sabe um Glicério dentro de si.

Muito bom o tetxo, por sinal!

beijos =*

Alf. disse...

uahauhauahuahau... bolachas com chá eh muito baum rapaz...


bom, eu sempre gosto quando o pessoal vem pra casa e fica contando suas historias acho muito interessante...

flw ae cara!

Jana disse...

Não importa qual seja o mnu que a tia Eulalia queira fazer. Qdo a prima Doroti chegar com o Totó, ela vai bater com o calcanhar dos seus sapatinhos vermelhos e dizer:

"There's no place like home"

***********

Amo Mogli! Achei barbaro vc ler estórinhas em outras linguas. Li o Pequeno Principe em portugues, alemao e espanhol. Sou maluca ou parecem estorias totalmente diferentes?

Beijos,
Jana

Bia Ferreira disse...

Sua narrativa está cada vez melhor!!!!! Muito bom!
Ah, o Triste Bartolomeu chegou ao fim...
até

Helena Nunes disse...

Voltei para reler. Há sempre algo que nos escapa. Como disse está lindo
Bjos

dän disse...

AIAI... sempre que eu entro aqui bate aquela invejinha (uma invejinha boa, se é q isso existe)... eu quero escrever como vc! poxa. hehehe...

Bia Ferreira disse...

Reparei que o link para o meu café aparece em negrito aqui... fiquei lisongeada... será um erro de edição no template????

Claudia Lis disse...

Oi Bruno,

Nossa, eu adoro fazer compras para receber visitas. Vou ao mercado toda empolgada. =)

Olha, você não acha que a D. Eulália poderia sugerir que a prima Doroti dormisse por lá mesmo e retornasse no dia seguinte? Afinal, com tanta comida seria bom gastá-las! Ah e a prima é uma companhia tão agradável!

;-)

Como sempre, adorei o caso e visualizei tudo.

1 Beijo

Fernando J. Pimenta disse...

Ai, essas matronas insensuais de família! Todas as têm! Depois a culpa recai no pobre do diabo que não aguenta mais uma mulher dessas e dá uma escapadela com as belas moçoilas... ai ai... hahaha! B'ótimo!