24.7.07

Vinte mil léguas numa concha

Depois de ter empurrado a cama para o canto, que as baleias precisariam de bastante espaço, o menino pegou o martelo com as duas mãos e ergueu o mais alto que pôde. Desceu os braços finos com força e bateu, com os olhos fechados, na concha que tinha colocado no chão.
     Um dia o avô lhe ensinara que, colocando a concha no ouvido, ele podia ouvir o mar sempre que quisesse. E ontem, depois de ter visto um filme do capitão Nemo, foi que ele viu o tamanho da responsabilidade que tinha nas mãos. Não era justo que tantos peixes baleias tubarões caranguejos polvos focas pingüins e até submarinos ficassem ali espremidos. Ele tinha que tomar uma providência urgente.
     A irmãzinha quis porque quis ir junto quando soube dos planos. Mas nada feito, nada de levar companhia. Quanto menos meninas, que neste tipo de aventura perigosa só criam problemas. Elas só querem saber de ser princesas, não sabem nada sobre monstros submarinos.
     Só um menino sabe, por exemplo, que, em caso de ser engolido por uma baleia, tudo o que se tem a fazer é acender uma fogueira na goela do bicho, como fez o Pinóquio. Os pedaços da concha se espalharam no tapete e, por um instante, ele teve medo da bronca que ia tomar da mãe. Bom, pelo menos a água ia limpar toda a sujeira.
     Tubarões ele tiraria de letra, o medo mesmo era das lulas gigantes —afinal uma delas quase puxou o Náutilus para o fundo do mar, e isso era coisa para se preocupar. Talvez fosse melhor chamar o avô. Ou não, não chamaria ninguém. Ele enfrentaria os monstros sozinho, já tinha idade para isso.
     A cordinha do calção de banho estava bem amarrada e ele tinha uma bóia para qualquer emergência. Se bem que o bom seria, na verdade, ter um escafandro, como os do filme das Vinte mil léguas submarinas. Aliás, o bom mesmo seria um submarino igual ao do capitão Nemo, um Náutilus II. O menino prendeu a respiração e esperou a água correr.
     Mas oceano nenhum jorrou da concha. Nem um marzinho, uma lagoa, um riacho, uma poça que seja. O que ficou naquela tarde foram só os estilhaços de uma concha e os pedaços de um sonho de menino espalhados no tapete.
     Só muitos anos mais tarde ele entenderia que não era preciso que os peixes pulassem daquela concha. Ali mesmo, sem sair do quarto, ele tinha viajado, no mínimo, umas cem mil léguas submarinas.

24 comentários:

Bruno disse...

Estava relendo agora, para tirar os erros de português, e me bateu uma tristeza sabem por que?

Para essa geração de hoje, Nemo é só o nome de um peixinho bobo. Ai, ai...

De Niro disse...

Nota 10 :D

Isso é o que a leitura faz com a imaginação da gente :D

vera maya disse...

Bom demais Bruno..
Tenho passado por aqui, sempre, discretamente...
Vou continuar te visitando
Gosto dos seus textos,
e adoro fantasias infantis!
Fico me perguntando, sera mesmo que isso se extinguiu? Sei nao!
Beijos

Daluska disse...

oi bruno... nossa! puxa vida... vc tb escreve super bem cara... e teu blog é demais cara mt bom mesmo... não podia deixar de passar aqui após a rasgação de seda q vc deixou lá no blog e no orkut... rarara... feliz demais... obrigado, passei mais vezes por aqui!
beijinhus

Alf. disse...

muito bom meu amigo, muito bom, leituras com "gostinho" de nostalgia é muito bom. Faz lembrar de quando éramos crianças e criávamos nossas próprias fantasias cheia de perigo e aventura...

Muito bom cara... fica na paz!

MaxReinert disse...

....tem certeza de que não saíram milhares de baleias e tubarões e tudo o que é possível imaginar daquela concha?

... não conseguiu ver? ou não lembra?
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rapaz.. fiquei procurando a palavra "esquizofrênico" pra colocar no texto e não conseguia me lembrar dela!!!... acho que vou fazer uma edição! []'s

Lais Mouriê disse...

Nossa, adorei, Bruno!!!

Parabéns!

Bjuus

Bruxx disse...

Oi Bruno !!!
Que delícia de texto!
Eu viajei com o menino, embora ele não quisesse menina na viagem...rsrsr

Eu vivo repetindo que, as "viagens" infantis, são fundamentais.

Infelizmente, na minha opinião, é uma pena que os pais não compartilhem mais das fantasias dos filhos... tais como Coelhinho da Páscoa, Papai Noel e tal...

Deu saudade ...!!!

Beijokinha carinhosa

*

The Immature Girl disse...

às vezes queremos consertar o que temos que aproveitar...
bjus!

Carol Montone disse...

Que lindo...você tem um talent ímpar para contar sabia???É tão manso e bom de ficar nas mergulhado nas suas prosas, que a gente esquece do tempo...adoro o mar.....e o seu jeito de falar das coisas mais bonitas da vida....as simples....
também gostei muito da sua definição de meninas...é verdade a gente perde muito tempo tentando ser princesa mesmo...
adoro a sua diversidade de temas tb...eu ando meio obcecada na repetição das batidas do meu coração, mas o post de hoje encerra uma série e devo mudar de assunto apra quem sabe falar mais de sonhos de menina e de mar também......
eu também tenho medo das lular gigantes que de repente prendem a gente pelo pée nunca mais soltam, mesmo as imaginárias, que não saem da concha...
um beijo salgado pra ti menino bonito
Carol

Isadora A. disse...

ELE NÃO É UM PEIXINHO BOBO !
OLHA O RESPEITO !

bella disse...

"Quanto menos meninas, que neste tipo de aventura perigosa s� criam problemas. Elas s� querem saber de ser princesas, n�o sabem nada sobre monstros submarinos."



hahahaa,quem disse que n�o??Rsrsrs

Adorei conhecer tua escrita

:)

bjs

Lorita disse...

Ah... a doce inocência da infância, deu saudade da minha agora.

Bjm

Duda disse...

realmente, pra mim Nemo é ou um peixinho bobo ou uma música do Nightwish... não saquei a referência.

no final das contas, cabia muito mais que um mar na concha não?
abraços!

Adrian Masella disse...

Coisa maravilhosa a nossa imaginação!!

Mas eu realmente esperava que fosse uma historia magica essa
AUsheAHSehAShesa

Vai ver foi por causa da expectativa do garoto!!!

Bia Ferreira disse...

Caramba lendo este conto lembrei de tanta coisa em que eu acreditava quando era pequena... bate uma saudade da nossa inocência, da sensação de que tudo se resolve com mágica.. ai, ai..
Muito lindo, sensível narrativa...

Carlos qualquer coisa disse...

Nossa, esse garoto parece o personagem do Fantástico Mundo de Bob. Hehehe...

Lembrei agora do meu tempo de infância.

O texto seria bem triste se não fosse o ultimo parágrafo. Achei este genial. Lembrei também do livro do Menino Maluquinho.

Alguma semelhança?

Ah sim, e obrigado pela visita. Acho que muita gente gostaria de ser um pouco como o seu Mauricio. Eu, por exemplo. Assim como o seu Glicério.

E já sou leitor do seu blog desde os primeiros textos. Leitor esporádico, mas cada vez mais assíduo.

Menina do Reggae® disse...

eu quero uma concha dessa pra mim;

=)

obrigada por me visitar.

passa sempre que quiser para tomar um café.

Au Revoir

Mila disse...

o importante é não se deixar acreditar que o sonho acabou!!

acho que pelo fato de eu ser uma menina igual a essas do texto, eu realmente não sei quem é o capitão Nemo, mas ele me parece muito corajoso!!

adorei o texto, voltarei por aqui tá?
;*

Diva disse...

Ler-te e sempre uma delicia. Que o sonho seja eterno...
Bjs meus

Jana disse...

Que doce esse teu texto bruno. Teve algo nele que me lembrou Abril Despedaçado, a parte que o menino não sabe ler e fica re-inventando a estória do conto de fadas. Eu adoro conto de fadas, fábulas, mitos, etc...

Beijo grande!

Claudia Lis disse...

Hey Bruno,

Ah, que lindo! E tão surpreendentemente tristinho quanto quando descobrimos a verdadeira face do Papai Noel. Mas quem sabe imaginar imagina sempre, independente das desilusões que possam surgir ao longo do caminho. Elas só fortalecem!

Adorei a historinha. Pena que o menino não queria meninas por perto. Eu adoraria estar no meio da aventura, hahah... Deixa só ele virar um adolescente, que mudará de idéia rapidinho. ;-)

Beijos

Eduardo disse...

Bruno, eu li esse texto e lembrei da gente fazendo planinhos infalíveis quando éramos criança lembra? ehehe tá muito bom o texto, parabéns!

Jane Malaquias disse...

Sonhar é que nem andar de bicicleta, quem aprendeu nunca esquece.