10.9.07

Diários de um sapo

Que inclusão social, que nada: ser sapo hoje em dia é estar à margem da sociedade. Os humanos, que carregam não sei por quê esse sentimento de serem os donos do mundo, projetaram as cidades somente para eles. Nada numa metrópole foi feito visando o conforto de um sapo. Nada.
     Não existem armações de óculos para o rosto sem nariz ou orelhas de um sapo. Tive de pagar para adaptar meu carro porque meus braços curtos não alcançam o volante. Levo minhas calças ao alfaiate porque as das lojas não foram feitas para nossas longas pernas elegantes. Tenho de ir a uma farmácia especial para manipular meu protetor solar para pele extra-úmida.
     Os restaurantes, além de não servirem um cardápio satisfatório, ainda têm o péssimo costume de espantar as moscas de cima dos pratos. E as madames, concentradas em facas garfos colheres taças copos e salamaleques, olham enojadas se vêem alguém usar a língua —quer coisa mais natural?— para se servir.
     Não bastasse, todo mês tenho de explicar a um inspetor sanitário que a água no meu quintal não é um criadouro de mosquito da dengue, mas o berçário dos meus girinos recém-nascidos. E isso porque não tocarei no incidente desagradável que aconteceu quando, num dia quente, resolvi refrescar a pele no chafariz da praça.
     Não se pode mais ser sapo com dignidade hoje em dia.

13 comentários:

Paulo Bono disse...

imagine o que passam os sapos gordos.
grande abraço

Jana disse...

isso é bem feito, quem manda eles terem essa língua enorme e grudenta que pode pegar rapidamente quanquer coisa que eles quisere?

E pra que ficar cantando o tempo todo, enchendo o papo, e saltitando?

Muito felizes esses sapos, eles tinham que aprender uma lição!

Tyler Bazz disse...

Acho que o sonho de todo sapo de cidade grande é ter um sítio, um rancho, ou mesmo um brejo...

MaxReinert disse...

hehehehe.... só fiquei com uma curiosidade: se os girinos são gerados em lagoainhas... como saber se são reamente os seus girinos? Não rola um problema de paternidade?

Alf. disse...

euhueheueheue é isso ae... Sapos tbm tem direitos!!!

wuehweuwehew... vlw cara! muito legal... fica na paz!

Mariliza Silva disse...

E ainda por cima agora com essa campanha do sapo virar príncipe... é muita pressão prum verdinho só!!!

Aiai, adoro sapinhos que não sejam de verdade!

Beijos

Mariliza

Anne disse...

Vida dura mesmo, heim? E eu que pensava que TPM era o fim do mundo...vc me fez ver a vida de outra forma, obrigada! Kakakaka

Adorei esse post, divertido!

Sapos conheço aos montes, todos os príncipes acabam virando sapos bem diante dos meus olhos...e nem demora mto tempo...ê vida cruel!!!!

Beijos, mto bom!!!!!!!

Camila Costa disse...

Toda minha solidariedade aos sapos desse mundo!o/

Adorei o texto e o blog! :)

bj

Bruxx disse...

Estou contigo... dignidade aos sapos !!
À eles o que lhes é de direito.

"...berçário dos meus girinos recém-nascidos"

Amei isso !!!

beijokinhas

o amnésico disse...

Sapos, rãs, pererecas... até de salamandras se fala, e ninguém nunca lembra dos tritões!
Esses sim, são discriminados! ;^)
Sério agora, muito legal o texto.

Off topic: você conseguiu ler o Paraíso até o final?! Meus parabéns pela persistência, eu dormi nas duas vezes que tentei...

Um abraço.

Bia Ferreira disse...

é.. o mundo realmente não foi feito para sapos.. nem qualquer outro bicho.. às vezes eu acho que também não foi feito pra mim..
ó, será que eu sou um alienígena?? Deixa pra lá, não vamos entrar nessa discussão agora..
deixo aqui minhas sinceras considerações ao pobre sapo injustiçado...

naenorocha1@hotmail.com disse...

Brasil, querido e pequenina aldeia, onde dorme para sempre embalado pelo doce ciciar das brisas que farfalham nas folhas dos coqueiros, aquele que me guiou os primeiros passos para a vida. Como eu te quero, como eu te amo!...
Como eu te sonho, como eu te revejo, através da minha infinita e duradoura saudade!
Há quanto tempo já eu os meus olhos não vêem esses campos matizados de flores, as serras longínquas e azuladas que fizeram , nos meus dias idos de criança, a alegria suprema da minha vida, o contentamento despreocupado da minhalma... Mas, ainda assim, como eu te quero, como eu te adoro, como eu te bendigo, querida e pequenina aldeia onde nasci!...
Se eu agora lá fosse, como evocaria, diante de cada velho e carcomido tronco de árvore, as cenas mais pueris da minha infância. Como eu percorreria, se agora a ti estivesse, vagarosamente, passo a passo, teu tristonho coqueiro sombrio!
E ali, sentado no mais alto daqueles rochedos gigantes, à margem do "Riachão", ouvindo o fragor das rápidas cachoeiras que se despenham, que se precipita, vertiginosamente. Como eu recordaria o tempo que já vai longe, aquele tempo feliz,em que dormia a sesta, ouvindo o macio e caricioso cantar das águas!... E depois, penetrando a clara e rústica igrejinha, que mamais foi concluída, com que devoção portar-me-ia diante da imagem risonha do Menino Deus, mãos erguidas para os céus, como fazia outrora, diariamente, quando a minha ingenuidade infantil ainda não tinha compreendido o espetáculo torpe dos “vendilhões do Templo”!... E, logo em seguida, vistas elevadas para o mais altaneiro dos morros, olhos pregados no imenso Cruzeiro, marco histórico do fim do século XIX, como eu admirava, enlevado, a simplicidade daquele símbolo perfeito, da menos imperfeita das religiões, de cuja base – amo ao próximo como a ti mesmo – tanto se têm afastado os falsificadores da verdade!....
Brasil!.... quantas vezes, ao pôr-do-sol, quando a natureza inteira parece que se curva, numa doce prece de amor e de perdão, como que escuto, ao longe, trazida, talvez, nas asas da minha saudade, a toada enternecedora do Ângelus, nessa voz triste e plangente da tua pequenina sineta de capeta... E é, justamente, nesta hora de pungentes recordações que a minhalma costuma repetir baixinho: como eu te quero, como eu te amo, como eu te bendigo, risonha e bem amada aldeia onde nasci.

Um abraço

É disso que eu tenho saudades Bruno, de um País puro sem os conchavos, sem a impunidade. Com a institucionalização da gatunagem.

Naeno

Claudia Lis disse...

Ah, é tortura demais para um pobre sapo:

“... a água no meu quintal não é um criadouro de mosquito da dengue, mas o berçário dos meus girinos recém-nascidos.”

Essa foi a gota d’água! Nossa, partiu meu coração.

=)

Beijos