22.10.07

Medo

Quando me dei conta, lá estava eu com um abismo de sessenta metros debaixo dos meus pés, olhando para um chão muito mais distante do que o bom senso me aconselharia.
     Era a primeira vez que nós —eu e meus amigos, os velhos de guerra— caminhávamos pela trilha que leva de Curitiba a Morretes. Fomos assim, meio na louca, sem saber qual o caminho, qual a distância, que equipamento era preciso ou se havia guerrilheiros terroristas escondidos na mata. Não imaginava que eu iria era dar de cara com meu maior medo.
     Mas maior, maior, maior medo mesmo.
     Pavor.
     Todos já estavam do outro lado da ponte, olhando para mim. Pensei em descer uma montanha e escalar a outra. Não, impossível para minhas limitações humanas. Pensei em passar meio agachado, segurando nos trilhos. Não, humilhante demais.
     Então —mais para não dar o braço a torcer que qualquer outra coisa— respirei fundo, invoquei a proteção divina e dei o primeiro passo. E o segundo e o terceiro e o quarto... Sabe como são essas pontes de trem: um caibro, um buraco. Passo sim, passo não.
     Fiquei irracional, meu QI na hora era o de uma anchova desidratada. Eu só pensava em uma coisa: que a qualquer momento eu cairia e sofreria a agonia interminável da queda e a dor excruciante de ter os ossos esmagados nas pedras e morreria uma morte terrível e levaria uma semana até que os bombeiros juntassem todos meus pedaços e me reconhecessem pela arcada dentária, isso se eu ainda tivesse uma arcada dentária.
     Passo sim, passo não, passo sim, passo não.
     Na metade da ponte, meu QI teve uma alta súbita —atum enlatado— e eu me dei conta de outra coisa: havia também o perigo de chegar o trem e eu observar impotente a morte se aproximar de mim a 60 quilômetros por hora e depois sentir o impacto esmagador de milhares de toneladas e ser atropelado por rodas de metal impiedosas e retalhado em fatias finas e jogado lá em baixo e sofrer a agonia interminável da queda e a dor excruciante blablablá.
     Acabei atravessando só para descobrir que aquela primeira era a menor das pontes. Enfim.
     Acontece que, como eu tenho pouco juízo e muita teimosia, topei quando inventaram de fazer a trilha de novo (acho até que fui eu quem inventou). E assim foi até que perdi as contas de quantas vezes cruzamos aquelas pontes e até que, numa dessas travessias, me dei conta de ter perdido outra coisa: o medo de altura.
     No fim das contas, acho que essa é a única coisa para que servem os medos: serem vencidos.
     Agora admito uma coisa: meu receio de ser devorado por um monstro demoníaco na escuridão enquanto me debato e não consigo chamar ajuda porque suas garras envolveram minha garganta e roubam lentamente minha vida ainda persiste.

11 comentários:

nanci disse...

Medo é uma coisa maluca... as vezes, nos impede de fazer muitas coisas!

Paulo Bono disse...

me lembrou aquele filme bacana: "Conte Comigo".
e medo de altura eu tenho. quando pequeno, não tinha. mas hoje, nem de roda gigante eu gosto.
grande abraço, velhão

pretinho disse...

isso pq vc nem contou do túnel-ponte...

Helena Nunes disse...

Lol, desculpa Bruno mas tive de rir.
É que me lembrei da 1ª vez que fiz rappel suspenso.
A sensação de pânico foi enorme mas, como todos já tinham descido e eu fui ficando para o fim, tive de descer pois subir, era impensável do ponto onde estavamos.
Qdo toquei o chão, as pernas tremiam, não conseguia andar, sentei-me e passados alguns minutos perguntei: "qdo é que repetimos a dose".
Bjos

Tyler Bazz disse...

Ouvi dizer que monstros demoníacos preferem atacar os que superaram antigos medos de altura...

:D

De Niro disse...

Há! Agora conte prar eles do pavor que vc tem de me enfrentar na luta final :P

Eu vi esse rapaz pisando um pésinho, depois o outro, depois o outro... AhUAhUAHuHA

Rogério Felício disse...

As vezes é bom não ter medo de ter medo!

Isadora A. disse...

meu deus do céu... NEM QUE ME PAGUEM ! altura, locais fechados, aranhas... eu sou neurótica !

o amnésico disse...

Igual ao Paulo Bono, eu ignorava o que fosse medo de altura até lá pelos meus 13 anos; curiosamente, vem ficando menos intenso com o passar dos anos (dando espaço para as crises de síndrome de pânico, suponho...).

Enfim, meus parabéns por conquistar sua acrofobia; quanto aos monstros demoníacos, uma coroa de flores de alho, um vidrinho com água benta podem ajudar...

Eli disse...

rsrsrs.... foi engraçado esse Post,
conte-nos mais...
beijos da cunha
Eli

Claudia Lis disse...

Bruno,

Que ótimo! Você também fez o post do medo. Adorei! Então agora o seu medo de altura está eliminado e superadíssimo né? Eu tenho quase que um medo de altura, o meu é de altura com velocidade, queda-livre sabe? Não gosto nem de pensar!

“ser devorado por um monstro demoníaco na escuridão enquanto me debato e não consigo chamar ajuda porque suas garras envolveram minha garganta e roubam lentamente minha vida”

Realmente é dose! Mas imagina só se ao invés de um monstro demoníaco (um Balrog, sei lá) fosse um ET! Não, não, não! Olha, vamos deixar esses papos de lado, é melhor.

P.s.: Saudade daqui Bruninho. Desculpa a ausência, é tempo mesmo e andei viajando em outubro. Mas estou colada com o seu blog. E obrigadas pelas visitas também.

=)

Beijos