17.1.08

De luz e de flores

Saio de casa com blusa, casaco e cachecol. A neblina não me deixa ver mais que cinqüenta metros à frente. Grama branquinha de gelo, o termômetro marcou zero grau de madrugada. O sol vem chegando de trás da Serra do Mar, encorajando o primeiro vôo e a gritaria da família de quero-queros.
     Cheguei aqui há treze anos e, verdade seja dita, houve bastante o que me desagradasse: uma cidade de títulos autoconcedidos, de sujeira escondida debaixo do tapete, de gente desconfiada e de clima nada confiável. Mas, com sua timidez de balzaquiana européia, Curitiba foi se deixando conhecer, me conquistando aos poucos.
     No caminho para o trabalho vou encontrando turistas; gostam de acordar cedo, os gringos. Eles apontam e fotografam, mas já não paro mais para reparar na cúpula do Jardim Botânico, na Universidade Federal, no Largo da Ordem, na catedral, nas praças, nos pontos de ônibus, nos ônibus, postes, fontes, flores. A neblina se dissipa, abrem-se as cortinas para o sol que brilha num céu azul, limpo.
     Os anos abriram meus olhos à beleza delicada daqui. A dança das quatro estações (num mesmo dia!). Geada, neblina, orvalho, garoa, chuva, até neve dizem que já caiu. Parques, árvores, flores, uma rua de flores, um relógio de flores. Cores suaves, luzes, uma Virgem Maria de luz, um Natal de luz. Prédios, torres, casinhas de madeira com varanda de lambrequins. Poloneses, ucranianos, alemães, italianos, japoneses, libaneses. Curitibanos.
     Na hora do almoço, sol alto, já estou de mangas dobradas, óculos escuros. Ando sobre o tapete dourado das flores de ipê, abrindo caminho entre os pombos nas praças. A Boca Maldita ferve de gente, e não só gente comum. O Oilman passa de sunga pedalando sua bicicleta, a Mulher da Cobra grita "borboleta treze, corre hoje!", a Maria Louca se mostra para a molecada, o Plá dedilha seu violão e declama suas letras desbocadas, o Inri Cristo acena e distribui bênçãos.
     Não me considero curitibano, mas aprendi a conviver com eles, a gostar deles. Já não me atrapalho mais para descascar pinhão, já não queimo mais a língua com o mate fervendo, já não me enrosco mais com os sobrenomes complicados, já não rio mais do sotaque.
     Chego em casa debaixo duma chuva suave, mais um borrifo que vem das montanhas só para molhar os sapatos da gente e vai embora logo. Moro no alto da cidade e de lá tenho a mesma vista que tiveram os tropeiros, mais de três séculos atrás: o pôr-do-sol na vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Kuri'ityba, terra dos pinheiros.
     À noite, os pardais nos beirais do telhado de casa dormem encolhidos, penas molhadas do sereno. Na minha janela assobia o vento gelado que sopra do sul e eu puxo as cobertas mais para cima. Aprendi a dormir com a cortina meio aberta, assim posso ver a lua por trás da névoa fina.
     Uma vez vi uma gralha-azul voando entre os raios de sol que pendiam como cordões dos galhos de uma araucária e me senti abençoado. Naquele instante acho que fui acolhido, de vez, pela "linda jóia feita de luz e de flores", a cidade que eu aprendi a amar.

* * *
Este eu escrevi originalmente para o Depósito de idéias mas, como hoje é o aniversário da minha chegada em Curitiba, decidi republicar aqui.

10 comentários:

Diego disse...

\o/

Bom texto, já tinha te dito, né?

Bora sair pra comemorar!

Lua Durand disse...

Curitiba, cidade bonita.

cidade de flores, das flores.

flores.

-

au revoir.

inferno da consciência disse...

essa campanha não tem burocracia...
é como diz lá: copia e cola! rsrs

thanx!

Rafael Palma disse...

Opa, se hoje é aniversário da sua chegada, então é aniversário da minha também! Viva Curitiba!

Diva disse...

Curitiba... vejo pela globo k e uma cidade linda. O texto tambem ta "nice". Bom domingo p ti.
Bjs meus

- JuH - disse...

Pois é, até parece que estou apaixonada.

Agora deu vontade de conhecer Curitiba, a cidade onde a gralha-azul voa entre os raios de sol.
(=

Tata Marques disse...

Lindo.
Já tive sentimentos parecidos aos seus em algum lugar de Minas Gerais.

Kati disse...

Que bonito!
Deveria republicar no dia do aniversário de Curitiba, seria uma bela homenagem =)

o amnésico disse...

Concordo com a Kati.

Claudia Lis disse...

Oi Bruno,

Que texto bonito e que sentimento bonito! 13 anos em Curitiba... Tenho certeza de que a cidade lhe acolheu, de braços abertos, desde o primeiro ano. Ela sabia que ganharia carinho, admiração e reconhecimento.

Espero que um dia eu tenha a oportunidade de conhecer toda essa beleza.