27.6.09

Chá da meia-noite

O silêncio da hora e a fumaça do copo, que sobe numa espiral, me fazem sentir que também numa espiral vai subindo, se desfiando, minha própria vida. Tenho um dos meus livros na mão, minha pretensa sabedoria, e olho para as paredes, de onde me olham as ilustrações penduradas, impassíveis, orgulhosas, esquecidas de que fui eu mesmo quem as pintei e pendurei ali. Lá fora é frio e a lua segue seu curso, também impassível, indiferente a mim e a nós todos aqui em baixo, como faz há séculos e séculos e séculos.
     De tudo, o que mais me assombra são esse momentos em que peso minha existência, esses instantes fugidios de lucidez. Alguns deles me trouxeram uma paz silenciosa, já outros me incomodaram tanto quanto o chá fumegante que acaba de queimar minha língua. Ser humano é uma tarefa difícil.
     São vivas, as lembranças na minha memória, frescas como frutas colhidas hoje cedinho. Cultivo-as, coleciono-as como quem se dedica um jardim. Não sei até que ponto é bom cultivar memórias... Talvez dessem um bom livro, acho, se eu souber como contá-las.
     É o tempus fugit, o tempo fujão. Aqui, na meia-luz do meu quarto, o pêndulo do relógio vai e volta, tic tac tic tac, mas lá fora, o tempo só vai, tic tic tic tic. É o memento mori -porque o tempo é coisa solene, pede que se fale latim-, a lembrança que ninguém quer ter: "lembra-te de que morrerás". "És pó e ao pó voltarás". Não se pode virar a ampulheta do outro lado: quando acabar a areia, é fim de jogo e ponto.
     Deixo o livro de lado, assopro, tomo mais um gole. Tem gosto de algo que não chega a ficar na boca. Gosto de vaga lembrança, daquelas que parece que a gente vai lembrar, vai lembrar... e não lembra. Um cheiro que não chega a encher as narinas. De uma visão assim, meio transparente, meio invisível. De um toque leve, quase só um arrepio. De som silencioso. Tem gosto de tempo. Envelheço, acho.
     Tento ler meu futuro no que restou do chá. Não me diz nada, vou ter que eu mesmo descobrir. Terei eu que fazer meu amanhã.
     Vai ver, no fundo não há que se preocupar com o tempo mesmo. Não importa quantos copos de chá eu tome, nunca o entenderei. No fim das contas, é ele quem me sorve aos poucos, aos goles.

3 comentários:

Hélder disse...

Qualquer coisa pode ativar lembranças adormecidas, para isso, basta estar vivo. Enquanto isso o tempo vai formando mais destas lembranças, o que acaba virando um ciclo vicioso.

Boa percepção, gostei daqui.
Abç!

Ran Omelete disse...

Acho meio difícil formar alguma boa lembrança quando se está a rememorar o passado. Lembrança de ter lembrado?

meio-amnésico disse...

De memórias não posso falar, as minhas eu invento conforme preciso (o que, felizmente, é raro); do tempo você já falou com propriedade, restou comentar a vida e o chá.

A comparação com a ampulheta é boa, mas só se se admitir que ela é virada de tempos em tempos; talvez a areia não não se lembre de já ter caído antes e assim, nós; como vamos saber? Quanto ao chá, bem, prefiro café... ;)

Dizer qualquer coisa que leve o adjetivo "proustiano" pode significar diminuir o valor individual do seu texto, então... bonito esse seu "baú de ossos".

;)