14.10.09

Trovão

Com exceção do porteiro, que entrega a correspondência e guarda o segredo a sete chaves, ninguém no condomínio nunca soube o nome do Trovão. Quando mudou para lá, ele já era o Trovão. Trovão, e só. E, verdade seja dita, nome nenhum cairia melhor que esse. Tem por onde ele ser chamado assim.
     Trovão é um motoqueiro —"Motoqueiro, não! Motociclista", ele sempre corrige— de primeira. Cabelo comprido, cavanhaque, bota, colete, Ray-Ban aviador e o toc-toc-toc-toc ritmado dos dois cilindros ecoando na garagem. Motociclista tipo exportação.
     Todo fim de tarde, os meninos do condomínio param o jogo de bola para ver o Trovão chegando na sua moto —"Moto, não! Motocicleta", ele sempre corrige também. O portão eletrônico abre, a motocicleta avança e a molecada fica ali, paralizada. Vez em quando ele dá uma buzinada leve, um aceno de cabeça –nada exagerado, que motociclista jamais perde a compostura– e a plateia mirim vai ao delírio.
     Motoqueiros se apressam correm costuram buzinam irritam. Motociclista desfila.
     As velhinhas de começo se assustaram, um rapaz assim num edifício de família, meu Deus!. Tatuagem de caveira, meu Deus! Mas o tempo —e os bons-dias, a porta do elevador aberta, o condomínio sempre em dia— mostraram que o Trovão é sujeito respeitador. Só a cara é de mau mesmo.
     Ninguém sabe o que o Trovão faz, do que vive. Só o que a dona Mirtes, plantonista de notícias do condomínio, conseguiu descobrir é que ele sai cedo e chega todo dia na mesma hora, menos às quintas, dia de reunião do motoclube. A molecada imagina mil profissões, de mecânico a astronauta, a Gigi do 304 jura tê-lo visto no palco do Clube das Mulheres, já o seu Glicério jura que ele é lutador de telecatch na trupe do Michel Serdan.
     Ninguém precisa saber que o Trovão, na verdade, se chama Carlos Roberto –homenagem ao rei–, trabalha como contador num escritório no centro velho da cidade, almoça com a mãe aos domingos, pede bênção para o avô, tomou fora de namorada, tem medo de altura e sofre de rinite. O que interessa no Trovão é o estilo.
     Porque, nesse ramo, estilo é tudo.

10 comentários:

Tyler Bazz disse...

Adorei!!!

Fui imaginando aqui.. deve ser bancário ou algo do tipo...


Estilo importa, nesse caso.

o/

Stephanie disse...

hahahahah, sensacional.

eu sabia de Trovão sáo podia ser um bom rapaz. Afinal de contas eu sou fã desses moços tatuados de jaqueta de couro que também são de família.


estilo conta muito.
beijos!

Henrique Miné disse...

haha, você é genial.

E, acredite, também fiquei imaginando mil e uma estórias para o Trovão! =D

Abraço.

Julia disse...

Hahahaha... ( perceba como a história ficou mesmo engrçada, jah sou a terceira que começa com hahaha e eu realmente ri) Muito bom!!!

Me lembrou um menino.
De esquisito, não tinha nada e da sua bondade ninguém duvidava.
Mas todo mundo só o conhecia pelo apelido: Lelé.
Ele dizia que achava o nome feio e não contava pra ninguém...

Larissa Bohnenberger disse...

Realmente, o estilo é tudo!
Como as pessoas fantasiam em cima das outras, né?
Adorei!
Bjs!

Paulo Bono disse...

Trovão é o cara.
Gente boa e tudo.
Mas não consigo vê-lo como contador. até como servidor público ou anestesista, menos contador. Contadores são bocós.

abraço

Cissa disse...

hauahuahau

é isso. estilo é tu-do.
^^

Cissa disse...

hauahuahau

é isso. estilo é tu-do.
^^

Deisinha Rocha disse...

achei q ele pudesse ser um professor...
professor de universidade...
que dá matéria de literatura brasileira ou coisa assim...

Magnum Opus disse...

E tá cheio de Trovão pelas irmandades afora...