14.1.10

Quietinho (ou "Dos traumas da infância")

Pré primário. 1988.
     Os chineses se acham maus porque inventaram a tortura chinesa, os iranianos se acham piores ainda por terem inventado o cinema iraniano, mas a professora Viviane era particularmente cruel.
     Para quem não sabe, tia Vivi –nome de guerra– tinha um método particular de deixar as crianças sairem de sala, no fim da tarde. Nada de debandar como uma horda pequenos bárbaros arrastando as lancheiras e correndo para ver quem chegava primeiro na perua escolar; saíamos um por um, e na ordem que ela mandasse. Era muito simples: quem estivesse quietinho, podia ir embora.
     Eu cruzava os braços sobre a carteira, apoiava a cabeça sobre eles e ficava ali, com cara de eujátôbemquietinhopelamordedeusmechamatia. Era um exercício de autoridade, ali ela mostrava quem é que mandava e quem é que obedecia. Aos cinco anos de idade, nós já nos deparávamos com a dura lei da vida: sempre vai ter alguém maior que você. Sempre.
     — Gabriel.
     E então o Gabriel ganhava a liberdade e olhares de inveja. Pegava a mochila, a lancheira e podia ir embora. Ficávamos todos ali, nossos destinos à mercê de uma professorinha com avental xadrez, cara de boazinha e lindos cabelos loiros. Lembro, inclusive, de um dia uma menina não ter aguentado a pressão, levantar a mão e pedir:
     — Deixa eu, tia. Deixa eu!
     Tia Vivi olhou com complacência, a complacência que prestamos para os fracos, para os que sabemos que, cedo ou tarde, serão engolidos pelo monstro terrível que é o mundo sem nem saberem o que lhes aconteceu, e deixou que a menina saísse. Mas não eu, eu jamais pedi misericórdia, eu era um soldado da linha de frente, um bom infante, e meu orgulho combatente não me permitiu jamais entregar os pontos. Só os fracos pediam para ser chamados. Atrás das trincheiras dos meus braços finos, eu disparava em direção da tia meu melhor olhar de anjo comportadinho. Mas ela era durona:
     — Marina.
     — Daniel.
     (Eu, tia! Eu!)
     — Carolina.
     Eu dobrava redobrava tresdobrava o silêncio, ficava feito um tigre pronto para o bote de tão quietinho, um atirador de elite em cima do telhado de tão quietinho. E nada. Eu, tia!
     — Vinícius.
     Modéstia à parte, eu era um sujeito quietinho, e era bom no que fazia. Normalmente eu saía rápido e não ficava para ver a espera desesperada dos derrotados.
     Mas não naquele dia.
     Naquele dia fatídico, todos foram saindo e, no final, sobramos eu e um outro garoto: Rafael –sempre tive problemas com Rafaeis na minha vida, mas isso é outra história–, conhecidamente um mau-elemento, o menos quietinho da sala. Eu havia sido abertamente desafiado para um duelo. Tia Vivi olhou para os dois, prendeu a respiração um instante, instaurando aquele silêncio que precede as decisões mais solenes, aquele segundo que tem o peso dos séculos, e então proferiu a sentença que marcaria minha vida dali em diante:
     — Rafael.
     Não cheguei nem a ouvi-la dizer meu nome. Saí desconsolado, carregando um peso maior do que o da mochila nas costas. Fui o último a ir embora, derrotado pelo menino mais bagunceiro do pré primário da escola. Estigmatizado pelo resto da vida, praticamente um pária da sociedade. Foi o fundo do poço. Teria pensado nas drogas, se soubesse que elas existiam.
     Agora com licença, que eu preciso ir ali me recompor. Escrever isso mexeu demais comigo.

16 comentários:

Marina disse...

Será que foi a partir daí que começou seus problemas com Rafaeis?

Certa vez, fui a última a ser escolhida para um time de basquete. Eu jogava mal e sabia disso, mas foi traumatizante.

Henrique Miné disse...

é que esses dias você não me viu aos prantos, enquanto lembrava com uns amigos da vez que um desgraçado roubou a minha coxinha no recreio...

Isso sim é trauma! =(

ex-amnésico disse...

Pois é meu caro, os melhores soldados vão sempre primeiro.

Opa, desculpe, por último! Sinto realmente pelas suas lembranças dolorosas.


Já pra mim e meus irmãos Pré nunca foi problema: enquanto o resto da molecada chorava agarrado na saia das mães no portão, a gente largava as mãos da nossa (ela que conta) e saía apostando corrida pra ver quem entrava primeiro. E se o dia estivesse muito quente, a gente levantava, ia até a torneira do pátio e era festa na cachoeira!

Fico imaginando como seria com a dona Vivi...


p.s. Essa do cinema iraniano é que foi cruel, hahahaha!

Tyler Bazz disse...

Não levei a sério quando vc avisou no twitter...

Esse foi mesmo forte. :/

Crispi. disse...

Acho que isso deve fazer parte do treinamento das professoras com cara de boazinhas-mas-que-na-verdade-são-um-tanto-más.
Eu cheguei e dormir uma vez, esperando casanda a minha vez de sair, sério.
Mas tudo bem, eu não era das mais quietinhas mesmo.

Adorei.

Larissa Bohnenberger disse...

MA-RA-VI-LHA!!!

Ah, os traumas de infância. Também tive muitos destes. Também tive as professoras cruéis que chamavam um por um dos alunos por ordem de quem estava mais quietinho. Só que, ao contrário de você, eu SEMPRE ficava pro final. Durante um ano inteirinho, apenas uma vez eu fui a primeira a ser chamada. Foi o melhor dia do ano. E foi único.

É... te entendo perfeitamente. Esse tipo de coisa deixa marcas para sempre!

Também vou precisar me recompor depois destas lembranças.

Bjs!

C. Lisdália disse...

aahhh
Desculpa, mas achei super engraçado! hehehe

Parabens! Você foi o ultimo e por isso rendeu essa historia hoje, 21 anos depois!!

Julia disse...

HAHAHAHA!
SENSACIONAL

Thaís Vidal disse...

Gostei tanto mas tanto que também vou escrever sobre esse tema, do qual corri por tanto tempo...
Os traumas de infância são as pedrinhas que nunca tiraremos da mochila, por mais que pesem...

Stephanie disse...

bom, eu que não era comportadinha, ficava bem quieta quando as professoras faziam isso, e como eu era faladeira, elas me deixavam pro fim, mas não por último, pra não desestimular a minha frágil capacidade de ficar quieta.

agora, o que me deixava possessa, furiosa e impotente, era quando a saída, a entrega dos boletins ou até dos bombons da páscoa eram resolvidos na orem alfabética. Ah, isso era o fim.


beijo

ps. fiquei surpresa com o seu último comentário lá no leveza. acho que você está mais para bom-rapaz-pero-no-mucho, porque os mais certinhos, aponto de serem insossos, não são sócios do clube da vodcka.

perdidinha... disse...

eu nunca era escolhida pra qualquer jogo da aula de educação física... aliás, quando eu dizia que não queria jogar a professora quase suspirava de alívio... eu era(era?) um desastre!rs...
adorei seu texto!
beijocas...

Poetriz disse...

Sua professora fez magistério na mesma faculdade que a minha. Ou será que isso era procedimento da época?

Por "sorte" nunca fui a última a sair. Ou fui, e isso não foi importante a ponto de eu guardar isso na memória.

Traumas do pré-primario tenho outros.

Bjs

Elga Arantes disse...

uma vez cai e rasguei a calça de moleton na altura dos joelhos.

minha mãe viu e jurou que a quele buraco não podia ser de tombo; que eu havia cortado a calça propositalmente, com uma tesoura.

me bateu. doeu. mais a incredulidade dela, a injustiça. nunca esqueci.

talvez venha daí a minha mania de produzir provas sobre td que faço na vida. provas e ênfase.

texto ótimo!

Fernando J. Pimenta disse...

Ser marginalizado uma vez na vida faz bem. Só para nos sentirmos como "aquele". Gostinho amargo, mas necessário. Para uma vida verdadeira, digo.

Magnum Opus disse...

O problema é essa tia Vivi! Tosca!

Rafael Palma disse...

Eu também estudei com ela, e me acostumei a ser o último...ou quase sempre o último. Pra mim isso não era problema. Até mesmo por causa do meu problema em ficar quieto. Agora fiquei curioso em saber quais são os problemas com os Rafaeis? Estou metido nessa?