20.2.10

Manoelcarleanas

(Ou "Dos clichês de novela das oito")

Abertura.
Música do Tom Jobim.
Nascer do sol em Copacabana. Pessoas caminhando no calçadão. Jovens jogando futvôlei.


Washington Cleyson correu para pegar o primeiro trem saindo do subúrbio. Tomou um esbarrão de um trombadinha que quase levou a mochila. Deus me livre, os livros da faculdade, que ele conseguiu com tanto esforço. Um dia vou ser doutor, ele pensava. Ser doutor e ajudar minha mãe.
     O vagão estava tão cheio que ele nem precisava se segurar. Cochilou em pé mesmo e sonhou com a moça rica que entrou no bar do clube uns dias atrás. Ah, se um dia ela me desse bola...

* * *
O sol brilhava alto e Cíntia Patrícia, a moça rica, caminhava pelo calçadão. Rebolava e balançava bem os braços em suas roupas de ginástica compradas em Miami. Os homens viravam para olhar.
     No caminho, encontrou o ex-namorado carregando a prancha, ainda molhado do mar. Balançou, mas ficou firme quando ele disse que estava com saudade. Colocou o óculos escuro, esnobou, disse que agora estava bem, saindo com um homem de verdade. E rico. Humpf.
     Saiu balançando ainda mais os braços.

* * *
A caminho da padaria, dona Teresa Cristina, mulata bonitona, cumprimentava os conhecidos na rua. Toda a rua, na verdade. Como todos os dias, ganhou cantada do malandro desempregado e riu, divertida. Era mulher batalhadora, conhecida na comunidade.
     No balcão, encontrou com a amiga cartomante e comentou que Washington Cleyson tinha vindo de novo com o papo de querer saber quem era seu pai. Queixou-se de que era jovem e boba, como é que foi cair na conversa de patrãozinho? Ficaram de ler as cartas mais tarde.

* * *
Música internacional.
Carros passando no Leblon. Pão de Açúcar. Crianças brincando no parquinho.


Helena almoçou entre papéis do escritório. Mulher independente, vivida, divorciada, cuida dos filhos, sustenta a mãe idosa e ainda tem tempo para cuidar da pele e dos cabelos.
     Telefone. Era sua melhor amiga, para confirmar o fim de semana em Búzios e avisar o bonitão dono da livraria estaria lá também. O som do restaurante começou a tocar uma música conhecida e Helena suspirou ao lembrar de Rodolfo Augusto, o antigo amor de sua juventude. Por onde andava?
     Aliás, melhor desmarcar Búzios. O que ela precisava mesmo é de uns dias calmos em Petrópolis.

* * *
Enquanto o sol baixava no Leblon, Rodolfo Augusto pensava nas mulheres de sua vida. Possuíra muitas, sussurrara ao lado de muitas, mas só uma o fez suspirar: Helena, o amor de sua juventude. Helena, que o deixara quando soube que ele havia engravidado uma antiga empregada da mansão.
     A luz tingia o apartamento de tons dourados. Por trás das persianas meio fechadas, o mundo lá fora parecia longe demais de seu flat. O celular tocou: era Cíntia Patrícia, a lolita inconveniente. Desligou o aparelho. Hoje não.
     A música suave de fundo e o barulho das pedras de gelo no copo de uísque o deixavam mais calmo. Melhor subir para Petrópolis no fim de semana, pensou. Uns dias calmos em Petrópolis bem que fariam bem.

* * *
Ofendida, Cíntia Patricia jogou o celular na piscina do clube e pediu seu drinque favorito. As amigas pediram só uma aguinha de coco.
     Deve estar com aquela mulher de novo, aquela mocreia velha, bufou de raiva. As amigas elegantemente aconselharam a pagar na mesma moeda e Cíntia Patricia disse que era isso mesmo, que ia traí-lo com o primeiro homem que aparecesse na frente. Ajeitou os óculos escuros.
     Nisso, chegou Washington Cleyson, o garçom, trazendo as bebidas.

Música do Vinícius.
Pôr-do-sol no Arpoador. Cristo Redentor iluminado. Carros passando.
Créditos.

13 comentários:

Marina disse...

Mas ficou mais legal, assim, sem o Zé Mayer. (Sei lá se ele tá na novela, mas deve tar...)

Henrique Miné disse...

ué, mas o Zé Mayer não seria Rodolfo Agusto?

Stephanie disse...

só faltou o depoimento com história edificante de superação pós crédito que virou marca registrada nas novelas manoelcarleanas.

aliás, impressionante como as pessoas aprendem a conhecer o Rio só de ver na tv. hahahahaha

muito engraçado, adorei.
beijos

Nathalia disse...

olha.. já da pra escrever pra Globo e ganhar dinheiro! rs

ou voce pode começar baixo e ganhar uma grana na Record, com o mesmo elenco que a globo teria, com o orçamento mais baixo.

Cissa disse...

hauhauahuahua

adorei.

ex-amnésico disse...

Hehehe! Gostei, assim eu não preciso assistir pra saber que clichês estou perdendo!

Trama interessante, faz pensar em como o mundo parece pequeno na telinha. E os nomes dos personagens merecem um Jaboti (ou será um troféu Imprensa? Isso ainda existe?)


Plim-plim!

:)

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Estou sem palavras, sensacional...

Katiane disse...

Muito bom!
Ta quase um roteiro digno de novela das oito, só precisa mudar os nomes dos personagens pq esses nomes composto soa muito novela mexicana :P

Marina disse...

Hahauahuahau!

Mas cadê os depoimentos de lição de vida, do final??

Lua Durand disse...

hahahah, vai desbancar o manoel carlos!
trama, enredo, trilha sonora, muito melhor que as dele.
bom, eu posso fazer a parte dos depoimentos no fim!
"Boa noite, eu me chamo Fulana..."

Tyler Bazz disse...

Sei lá.......



Tá vendo. Por que ele é milionário e você não?

Elga Arantes disse...

"A luz tingia o apartamento de tons dourados. Por trás das persianas meio fechadas..."

Isso sim, mostra que o cenário é mesmo da novelas de Manoel Carlos...

Muito bom!

Fernando J. Pimenta disse...

Se você não escrevesse muito bem, eu já teria parado no título. Pense nisso como um grande elogio - porque novelas me enojam de profundis.

Eu tenho um bordão: quem vê novelas não consegue ler bons livros, com densidade psicológica, emocional, verdadeiras tragédias da vida real.

Novela é o equivalente de morfina. E quem curte morfina não pode suportar e experienciar a dor. O choque. A colisão.

A boa literatura traz esses momentos. Já leu O Idiota, do Dostoiévski? O cara vai quebrando cada expectativa do leitor, como você fez admiravelmente bem com a estorieta do café.

Aliás, eu acabo de fazer uma ótima reflexão comparativa.