2.3.10

De como me tornei marginal

Até pouco tempo atrás era coisa que quase todo mundo gostava. Em casa era normal, cresci vendo meus pais e lembro da minha mãe dizer, quando pedia para experimentar um pouquinho, que ainda não, que não era coisa de criança. Vai ver foi isso que me atraiu. Daí que no dia que decidi que não era mais criança eu já sabia o que fazer: comprei um pacote e, olha, me senti adulto. Aquela fumaça subindo, aquele cheiro no ar... Era um negócio charmoso.
     Era.
     Porque aí começou essa onda de ser politicamente correto, saudável, ecológico, sustentável e o diabo a quatro. Começaram com campanhas contra, estatísticas de que todo ano não sei quantas mil pessoas têm problemas em decorrência de, que o Estado gasta não sei quantos milhões com, que não sei quanto porcento da renda familiar acaba indo para, que crianças estão experimentando cada vez mais cedo, que na terceira idade o consumo está avançando. Não era mais inofensivo.
     Pessoal mais impressionado começou a parar preocupado com a saúde. Quem era pai largou para não dar mau exemplo em casa. Quem era solteiro deixou para arranjar namorada. Passou um tempo, a coisa foi aumentando. Mais notícias, mais estudos. Obrigaram a colocar mensagens –"o Ministério da Saúde adverte blablablá"– na embalagem, resolveram proibir em lugares fechados, na escola, no trabalho. Não era mais charmoso.
     Eu acabei me adaptando, em alguns lugares ainda era permitido. Frequentava cafeterias no horário do expediente, dava uma fugidinha para uma ou outra lanchonete amiga na hora do almoço. E o povo olhando feio, porque me vieram com essas ideias de consumidor passivo, que quem está por perto acaba se prejudicando também. Aí danou-se: viramos os vilões da história e a coisa ficou séria.
     Não deu outra: dali um tempo em lugar nenhum podia mais. Só na rua e em casa –se a mulher deixar, e a minha não deixa desde que o Júnior ficou maiorzinho e começou a entender as coisas. Foi rápida, a nossa queda: não era mais permitido.
     Inclusive vou admitir agora que, no fundo, no fundo, nem acho tão bom assim. É amargo, deixa gosto na boca. Mas é um negócio bacana, relaxa, serve de boa companhia quando eu leio –cá entre nós, serve de desculpa para uma escapadinha no trabalho também. Não consigo ficar sem e, sei lá, não me entra na cabeça que é errado.
     Já me aconselharam a frequentar um grupo de ajuda. Cheguei a assistir uma reunião –mentira, assisti meia reunião–, e, olha, foi demais para minha cabeça. Nada contra quem gosta de sentar diante de olhares de piedade e dizer "oi, meu nome é Fulaninho e já estou há dois dias limpo", mas, desculpem, não faz meu estilo. Decidi que sairia sozinho do buraco.
     Só que não saí.
     E agora eu estou aqui, de madrugada na cozinha, escondido da minha mulher, que ameaça sair de casa se me vir de novo tomando uma xícara, improvisando com uma meia e pedindo ao Rex que não comece a latir. Deus me livre, as crianças ficarem sabendo que o pai bebe café.

10 comentários:

-any valette disse...

auidhaius
muito bom!
Café>vida!

Stephanie disse...

como ex-fumante e fá de café me identifiquei duplamente com essse post, hahaha.

e gostei muito das críticas ao politicamente correto. muito boa essa quebra de expectativa no fim do texto.

beijos

Henrique Miné disse...

aaah, meuDeus! :~~

Preciso esconder os pacotes de café da minha mãe, e rápido! Vai que ela resolva me expulsar de casa por causa dele...

Marina disse...

Com o cigarro não me identifiquei, mas com o café... Hummm! Nóis sofre, viu...

Fernando J. Pimenta disse...

Sobre o café eu não posso me meter a falar... hehe... ou posso. Gosto do cheiro, gosto dele (e somente gosto dele) sem açúcar, uma colher por copo, forte. Mas parei porque mexia muito com a minha pressão. E azias... (eram baixas doses, organismo reativo ao café mesmo...)

Agora sobre cachimbar eu posso dar meus BONS (ou seriam, nestes tempos do onipresente politicamente correto, maus) palpites. A quebra final foi fenomenal. Tu sabes como arquitetar um conto. Todos terminam pasmos, ainda mais fumantes, que já vão angariando no decorrer do texto mais um aliado...

Até que descobrem que o tempo todo se falava do ouro verde tupiniquim!! hahahaha... genial.

Leonardo Xavier disse...

Ah sem sombra de dúvidas um cafezinho é um ótimo companheiro.

Magnum Opus disse...

Vo faze um adesivo:
No robusta
Yes gourmet

Paulo Bono disse...

quem fuma parece estar dizendo "foda-se".
mas sei lá, já sou tão fudido.
evito mais esse vício.

abraço

Monique (via email e eu colei aqui :P ) disse...

Adorei o post do café, mto bom... Já o último, não li até o fim, pq começou falando do cara maltratando os cachorros e isso me parte o coração, meus olhos já encheram de lágrimas...

To esperando o seu blog virar um livro, hein?!

Camila disse...

Acho que só eu comento posts antigos.
Acho que porque eu cheguei atrasada né... =X
mas vou continuar lendo, até chegar no primeiro post do blog... isso se meu chefe não me descobrir né ...
Abraço!