16.3.10

Por um triz

Quinta passada, estacionei a moto na frente de casa e, quando desci para abrir o portão, dei com um vizinho maltratando dois cachorros. O macho com os dentes arreganhados, a fêmea prenha se encolhendo contra o muro para proteger os filhotes na barriga e o valentão brandindo um pedaço de pau. O sangue ferveu. Perguntei se não preferia bater em alguém do tamanho dele.
     Eu queria só que ele me respondesse. Eu estava louco para que ele me respondesse, só uma resposta atravessada. Eu queria só que aquele filho da puta covarde me respondesse. Mas ele não respondeu. Largou a madeira, resmungou que os cachorros estavam mordendo os japinhas que jogam bola na rua –duvido muito que estivessem– e foi embora.
     O cachorro veio lamber meus pés e eu quase chorei com a gratidão do bicho. Por pouco não gritei para aquele cretino que um vira-lata sarnento de rua era muito mais nobre que ele. Minha mãe arranjou um pote de ração e outro de água.

* * *

E domingo passado, saí de ônibus para a casa da minha noiva e, no que entrei no terminal, dei com três maloqueiros intimidando um garoto meio andrógino. Ouvi só a parte do "vamo te quebrar pra você virar homem". O sangue ferveu. Abri caminho no meio dos marginaizinhos, estiquei a mão para o garoto, comprimentei como se fôssemos velhos amigos –nunca tinha visto–, virei para os três e perguntei se tinham algum problema com meu brother.
     Resmungaram qualquer coisa e foram embora, puxando aquelas calças ridículas para cima. Eu queria só uma resposta atravessada, eu queria só que um filho da puta daquele boquejasse comigo.
     O garoto arrumou a franja, soltou um "valeu" meio envergonhado e –não esperava por essa– me esticou a lata de Coca-Cola. Eu nem queria beber nada, eu nem tomo refrigerante, mas peguei a lata. Entendi que a Coca era o melhor que ele tinha para oferecer na hora e eu o ofenderia se não aceitasse. Não sei explicar, mas por um segundo tive a impressão de que ele nem esperava que eu fosse aceitar; deve ser sempre assim, quem é que quer beber no mesmo gargalo de um garoto gay?
     Foi um baita gole, daqueles de encher os olhos de lágrimas. Ele agradeceu de novo quando devolvi a lata, e eu sabia o porquê.

* * *

Teve o tempo –eu era pequeno– em que morávamos num conjunto de prédios e no mesmo bloco, se não me engano, morava o seu Zé da Peixeira. Fácil entender o apelido. Lembro dele hoje porque ninguém nunca se meteu com o Zé da Peixeira. Vagabundo nunca mexeu com as filhas dele na rua, malandro nunca roubou pipa dos filhos dele. Duvido que alguma vez o amarelo da padaria tenha dado troco errado para os filhos do seu Zé da Peixeira como fazia comigo, que ainda não sabia contar o dinheiro do leite.
     Na minha cabeça, acho que ele não foi sempre assim. Devia ser um pacato desses da vida e que, belo dia, cansou de ser só mais um Zé e virou o Zé da Peixeira. Cansou. Cansou de ter muro pichado, mulher desrespeitada, filho judiado, cachorro chutado. Cansou de ser pernambucano mas ser chamado de baiano.
     Imagino o que será que foi preciso para que ele resolvesse dar esse basta, qual terá sido a gota d'água.

* * *

Não posso reclamar, nunca fui perseguido na escola, nunca sofri preconceito. Meu problema era ser tímido e medroso demais. Ficava vermelho só de a professora olhar para mim e tinha medo dos meninos maiores. Todas as minhas primeiras paixões foram platônicas.
     Acabou que por isso eu andava com o pessoal perseguido. Na quarta série meus amigos eram uma gordinha aspirante a metaleira, o único japonês da escola e um garoto pobre que não tinha dinheiro para comprar o uniforme novo para o qual a escola tinha trocado naquele ano. Éramos os que sobravam no canto do pátio na hora do recreio.
     Cresci e aprendi a lidar com isso, decidi que não queria mais sobrar. Fui campeão de vôlei, servi o Exército, liderei movimento na paróquia, namorei a menina que todo mundo queria, perdi o medo de altura, ganhei faixa preta de kung fu, aprendi boxe. Mas não esqueci de como é amargo ser escolhido por último no futebol.
     Porque por mais que eu me pinte de machão nessa história toda, ainda sou tímido e medroso. Ainda me pego recebendo troco errado e não dizendo nada, aceitando o pedido que veio errado no restaurante, pagando a conta absurda de celular sem questionar, ficando no acostamento por causa de uma fechada no trânsito, esperando o próximo ônibus porque o motorista fechou a porta na minha cara, deixando que me puxem o tapete.

* * *

No dia em que quase fui morto por uma cretina que furou o sinal vermelho e me acertou a noventa por hora, um sujeito buzinava para eu levantar logo e tirar a moto do meio da rua, da frente da pick-up importada dele. As pessoas passavam, apontavam e diziam que "motoqueiro é foda". Só que a culpa não era do motoqueiro sentado na sarjeta, era da senhora mãe de família loira, bonita e bem vestida. Antes de ir embora, ela esticou a mãozinha e, com as pontas dos dedos, me deu um cartão de seguro. Não fui capaz nem de responder "eu tenho seguro, não preciso disso". Não fui capaz de nada. Meu corpo inteiro doía, meu orgulho estava despedaçado. Eu me senti um lixo.
     Tinha gente na rua no dia em que cheguei em casa e ninguém fez nada pelos cachorros. Tinha gente no terminal de ônibus e ninguém fez nada pelo garoto. Tenho medo de ficar como essa gente, de fingir que não vi.
     Acho que nunca vou chegar no ponto de virada, na gota d'água. Duvido que um dia vire um novo Zé da Peixeira. Mas às vezes sinto que estou por um triz.

16 comentários:

MaxReinert disse...

Não tenho outra coisa a dizer sobre esse post a não ser: Sei exatamente como é essa sensação. Acho que também vivo por um triz!

Marina disse...

Eu queria dizer alguma coisa. Mas um nó na garganta não me deixa.

Leonardo Xavier disse...

Realmente é bastante dura, essa sensação de impotência e essa questão de ter coragem de fazer a coisa certa e sentir que não tem ninguém para apoiar e que as pessoas não se importam...

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Porra Bruno, senti um arrepio da base da espinha até o couro cabeludo...

Realmente me faltam palavras para comentar um texto desse calibre.

Uma lágrima escorreu aqui enquanto lia. Você tem o dom cara...

Magnum Opus disse...

Japinhas? Jogando bola? Acho que não hein. Já no terminal eu imagino que você ganhou mais um fã. E se a gente tivesse estudado junto provavelmente seríamos amigos porque eu também era o único japa da escola (reserva de goleiro e repetente). Mas eu não teria as base de peitar o vizinho retar e os malaria no terminal...

Varotto disse...

Independente do conteúdo, que não preciso nem comentar, muito bem escrito e muito bem escolhida a linha de acontecimentos.

Parabéns, mais uma vez...

Marina disse...

Você foi defender o garoto do meio de um monte de marginais? Ah, você é o professor de kung fu que o Rob Gordon mencionou outro dia. Menos mal. =P

Brincadeiras à parte, é impressionante como as pessoas simplesmente não se importam com as coisas absurdas que acontecem. Mas estão sempre dispostas a espalhar a fofoca depois.

Ótimo texto, Bruno. Abraço!

Natalia disse...

Texto fantástico, um desabafo muito sincero. Com certeza, vou virar leitora assídua do seu blog!

Livy disse...

tb virei leitora! (mas isso nao conta tanto pq eu era a gordinha aspirante a metaleira)

*Lili* disse...

Primeira vez que venho, vou voltar. Gostei, tocou.

menina fê disse...

sou tua fã há um tempão. sempre te leio e fico envaidecida com tua inteligênca e capacidade de transformar fatos e pensamentos em textos tão gostosos de "ouvir".

dessa vez fiquei emocionada com tua sensibilidade. talvez vc nunca em responda, mas tenho que dizer que o mundo precisa de pessoas como vc, que possuem um grande dragão valente dentro de um corpo pequeno e um coração tímido. mas que é consciente e conhece os "calos" do ser humano.

não vou te parabenizar, pois acredito que não foi pra isso que vc "desabafou". vou só te guardar como exemplo, como alguém especial e que faz algo de bom da sua passagem por aqui.

quisera um bando de filhos da puta terem coragem para serem bons, solidários e generosos... mas não... ser do bem está fora ed moda há muito tempo. infelizmente.

esteja na paz.
bj grande da fê*

Correção disse...

É muito bom ler textos que fazem você acordar, muito bom mesmo.

Ana Paula disse...

Então, Bruno, como eu ia tentando comentar antes, lá vai: Tolstoi dizia que é preciso cantar sua aldeia para ser universal. Continue "cantando" sua vida e sua aldeia, com tudo o que ela tem de bom e ruim.
Escrever com sensibilidade é uma arte!!!

L.J disse...

Gostei muito do teu blog, da maneira como você escreve, às vezes também me sinto por um triz, assim como muitos se sentem, mas nem todos têm a coragem de se manifestar como você o fez seja no seu texto ou ajudando o menino da franja ou ao cachorro maltratado, muitos ainda preferem fingir que não viram, não se envolver, acho que esses são os que deixam a vida passar por eles. Parabéns pelo blog.

J. Messias disse...

Enquanto há indignação há esperança.
Grande abraço.

kati disse...

Puxa, que desabafo!!!

Desamarrou o nó que estava na sua garganta?

São histórias tristes e de indignação, mas era bom o tempo q dava pra ouvir vc contá-las pessoalmente ;-)

Abraço Bruno.