16.6.11

Tardes no café

O termo correto é "colegas de trabalho", mas não é isso que vou contar aos meus netos. Sobre o Denis Tanaami vou falar das piadas e imitações, das conversas sobre música, da paixão por Fuscas. Era de lei o nosso espresso à tarde, coincidentemente na hora da ginástica laboral. Para não dar briga entre as duas cafeterias preferidas, seguíamos uma escala simples: um dia em uma, outro dia em outra.
     Teve a vez, quando saíamos de uma delas, uma que serve um Sul de Minas maravilhoso, que eu estranhei:
     — Ei, Denis, notou que estava faltando a tia do caixa?
     "Tia do caixa" era uma velhinha, uma avózinha simpática que sempre pedia ajuda para passar o cartão de débito e desejava "obrigada de novo, uma boa tarde, meninos". E o Denis tinha notado.
     Como no dia seguinte era vez da outra cafeteria, a que serve Alta Mogiana, foi só dois dias depois que voltamos lá e, de novo, nada da velhinha do caixa. Nem no outro dia, nem no outro.
     Seguimos num silêncio constrangido –os dois preocupados, mas os dois sem jeito de perguntar– até o dia em que demos com as portas de vidro fechadas, um aviso improvisado. "Motivos familiares", dizia.
     Caramba.
     Desobedecemos a escala –o caso era urgente– e, no dia seguinte, ufa!, vimos de longe as portas abertas. Nada, porém, da nossa amiga. Nem no outro dia, nem no outro. Nem na outra semana, nem na outra.
     Caramba.
     Juro que cheguei a ensaiar, cheguei a prender o ar para perguntar e na hora não consegui. Medo de que alguém se ressentisse, sei lá. Eu e minha covardia –e o Denis e a covardia dele também. Ficou aquele silêncio do luto, os dois amigos de café meio órfãos e, fazer o quê?, a escala seguiu. A vida sempre segue.
     Até o dia em que demos com uma das mesas agitada, mulheres em volta, gritinhos de fofura. E, um sorriso só, sentada com um bebê no colo –nova netinha?– estava nossa amiga, a velhinha do caixa.
     Acabou que saí do emprego e já faz uns anos que não estendo mais o cartão e indico os botões na maquininha para pagar um espresso naquele caixa.
     As pessoas deviam saber mais da importância que têm na vida das outras. Engraçado que nunca passou disso, do "boa tarde, meninos" dia sim, dia não; nunca soube dela mais que isso. Ainda assim, tivemos que esconder as risadas –de contentamento, de alívio– atrás das folhas do jornal. Minha vontade era levantar da mesa e pedir licença, perguntar por onde andou, contar como estava feliz por vê-la bem, dar uma bronca de leve por ter assustado daquele jeito. Quem sabe até um abraço acanhado.
     Me arrependo por não ter feito.

8 comentários:

Tyler Bazz disse...

Abro o blog, vejo o sobrenome do seu amigo, que é igual ao de uma amiga minha.

E sim, eles são da mesma família.

O mundo é pequeno demais. Depois eu volto pra falar do texto.

J. Messias disse...

Ei Bruno. Valeu.
Obrigado por compartilhar.

É lindo ver como as coisas mais simples são as mais importantes.

Abração, e obrigado pelo chá/café.

Femme Froide disse...

Perdi a conta do número de vezes que queria dizer uma coisa, mas não disse nada. Depois nos arrependemos, seja com o atendente da padaria, alguém que sempre senta ao seu lado no onibus, etc. Deixamos de fazer amizades, se apaixonar por gostos ou até pessoas porque não tivemos coragem de perguntar ou simplesmente dizer um "oi".

Leonardo Xavier disse...

A vida tem dessas surpresas algumas vezes até descobrimos o quanto somos especiais na vida de outras pessoas e noutras a gente descobre que nem é tão especial quanto a gente pensava.

Luís disse...

Verdade. São os famosos "desconhecidos íntimos". A caixa lá da faculdade de Letras, por exemplo, é uma simpatia só. Não gostaria de vê-la sumida.

Já os motoristas do ônibus que eu pego todos os dias pra faculdade, ah, eu não acharia nem um pouco ruim se fossem todos substituídos. Hahaha.

Abraço!

Magnum Opus disse...

Não faz muito tempo mas as coisas boas a gente não esquece, e o espresso da tarde é uma coisa que deixa saudades. No fim das contas não é só o espresso bem tirado que importa... na verdade o cafezinho é só um detalhe... Mas deu um alívio ver a tia do caixa ali na nossa frente, pra quem imaginava que o pior tinha acontecido.

E eu vou contar até pra minha vó que estou aqui no blog do Bruno!

Ei, Tyler Bazz, agora fiquei curioso quem é a sua amiga!

[]s

Leo disse...

às vezes até de um comentário não feito a um texto bacana desses a gente se arrepende...

Anônimo disse...

Ufa! Até eu que não conheço a velhinha do café dei um suspiro de alívio ao saber que nada de ruim aconteceu a ela. Conte pra ela sua preocupação, tenho certeza que ficará feliz!