27.2.14

Duzentas

capítulo quinto


O resto do dia seu Jonas passou na oficina, uma casinha de madeira erguida por ele nos fundos do terreno. Mas o que se produzia lá dentro, diferente dos quarenta anos de trabalhos manuais, era intelectual. O Major farejava ao redor das pilhas de materiais de construção, latas de tinta, tábuas desconjuntadas, canos furados e brinquedos velhos.
     O almoço foi rápido. Dona Dalva viu, desgostosa, o marido engolir a macarronada e voltar para a oficina antes que ela servisse a compota de figo. No meio da tarde, veio trazer um misto quente e tentou, sem sucesso, fazê-lo parar para descansar a vista. Só na hora do noticiário é que o marido apareceu na sala. Ele caiu exausto na poltrona, ela levantou de pronto:
     — Vou esquentar seu prato. Você não veio jantar, homem de deus!
     — Precisa não. Fiquei sem fome.
     Para dona Dalva, um marido sem fome dentro de casa era uma tragédia. Tivesse podado as árvores ou assentado uns tijolos, nada disso teria acontecido. Assistiram a tevê sem ouvir muita coisa, os dois preocupados –cada um por seus motivos– com a experiência. Dormiram sem dizer boa noite.
     E assim foi o próximo dia, e os próximos.
     A caderneta em que seu Jonas começara a escrever com letra caprichada já não era mais suficiente. As ferramentas abriram lugar na bancada para uma imensidão de folhas avulsas, todo papel que seu Jonas foi encontrando, onde rabiscava com empenho, usando lápis de marceneiro.
     Escrevia, riscava, rabiscava, apagava, re-escrevia, amassava, puxava uma outra folha, consultava as coladas na parede. Era um verão suarento e, com os dias, o empenho foi dando lugar à obstinação. Um dicionário foi esquartejado, as páginas riscadas espalhadas pelo chão.
     Mexendo as panelas no fogão, estendendo roupas no varal, dona Dalva parecia ver as ervas daninhas tomarem a horta, o verniz das portas perder o brilho. Como se uma ou duas semanas fossem suficientes para a casa ruir. Desabafava com a vizinha, homem dentro de casa –da oficina– não presta.
     Seu Jonas, agora com fúria, se consumia na busca das duzentas. Dona Dalva começou uma novena. O Major, indiferente conhecedor de duzentas palavras, seguia farejando e esperando bifes.

6 comentários:

Bree disse...

Eu estou adorando a estória do Seu Jonas, coisa muito interessante esse tal experimento que ele resolveu fazer, pobre Dona Dalva! Adoro seu blog, fiquei muito feliz que vc voltou a escrever é uma de minhas felicidades ler seus textos, tantas estórias e histórias boas!! Muito bom que vc voltou!!! \o/

Karine Tavares disse...

Parabéns pelo teu blog!
Vem conhecer o meu:

feitaparailetrados.blogspot.com

D. disse...

Aguardando ansiosamente a continuação da saga... ;)

J. Messias disse...

Obrigado por ter voltado.
Prometo aparecer mais vezes agora.
Abração

Suzi (Vulgo, Emilie) disse...

Imaginei um homem trabalhador. Casado. Que trocava poucas palavras com a sua senhora. Trabalhando na oficina - seu ofício? Daí... Você muda um pouco no meio do conto, lol. Agora vejo um personagem sem emprego e obcecado por significados rabiscados. XD

ex-amnésico disse...

Resumindo todos os comentários acima: voltou com tudo!