24.1.07

Banheiros

— Velho birrento... humpf! Quero ver se chega na minha idade com a minha disposição.
     Seu Glicério mastigava um pão com margarina para ajudar a engolir a última. A filha chamara de birra de velho algumas maldições e praguejamentos - tudo muito justo - que nosso amigo resmungava nesta manhã de segunda.
     Mas a birra de nosso amigo tinha motivo, e era o banheiro. Agorinha há pouco, enquanto escovava os dentes, quase tinha atravessado o box com o cotovelo. Tudo culpa de Dona Eulália, que o convencera a trocar a casa pelo apartamento novo:
     — Além de tudo, fica mais perto da Marcinha e é mais fácil de limpar.
     Seu Glicério tinha saudades do tempo de moleque, quando os construtores sabiam dar a importância que um banheiro merece. Um banheiro de verdade, não os toaletes e lavabos de hoje em dia. Parece que até o nome banheiro estava para ser esquecido.
     Banheiro bom tinha as paredes ladrilhadas até a metade da altura. De azulejos brancos, não esses mosaicos caleidoscópicos - e nessa hora seu Glicério se perguntou quando fora a última vez que vira um caleidoscópio, mas isso é outra história - que a gente vê hoje. Porque ninguém vai no banheiro para ficar olhando os desenhos dos azulejos. E porque os pedreiros nunca acertam os desenhos mesmo.
     E as simpáticas cortininhas de bolinhas amarelas? E o anti-derrapante emborrachado embaixo do chuveiro? Não, nesse mundinho antisséptico sem sal de hoje em dia não há lugar para isso.
     Num banheiro de verdade, um homem poderia gastar sem aborrecimento toda uma manhã de domingo. Barbear-se num pia onde se possa dispor lâmina, pincel, loção e uma vasilha de água quente. Ouvir - e cantar - o Adoniran no radinho colocado em cima da sapateira. Banhar-se como um rei elefante, espirrando água para todos os lados. E ler quase inteira a gazeta, deixando-se os classificados para a hora do café.
     Porque nos bons tempos, dizia, a pessoa fazia até exercício no banheiro. Era possível caminhar da pia até a banheira, passando pelo vaso e pelo bidê. Aliás, pensava nosso amigo, será que esses jovens sabem para que serve um bidê?

4 comentários:

Bruno disse...

Para os leitores antigos, esta é a reedição da primeira aparição do seu Glicério.

Prometo um texto novo ainda esta semana.

MA disse...

Putz esta é uma das que eu mais gosto... Mas era diferente!?... hauahauahuahau mas eu concordo que não fazem banheiros como antigamente

Monize disse...

Nem me fale... aaahhh os banheiros...
que saudade da casa da vó que tinha aqueles banheiros enoooormes. Hoje até o nome encolheu... pra quem gostava do grande banheiro hoje tem que se contentar com o pequeno bwc... hehehehe
beijos!
ps. blog atualizado finalmente

Fernando J. Pimenta disse...

Hahaha... puxa vida, não é que esse Glicério tem um ótimo gosto sobr'a vida?! Estou com ele em todas!