8.2.07

Cocha - La Paz

A viagem de Cocha para la Paz merece um post exclusivo. Bela aventura.
     Na rodoviária, dezenas de adolescentes barulhentos ficam tentando pescar clientes para a companhia deles. Gritam todos sem parar e ao mesmo tempo. "La Paz, La Paz, Sucre, Potosí, La Paz..."
     Seguindo meus instintos, fui direto ao guichê da companhia que me pareceu mais legal. O Expreso El Dorado.
     Embarquei às 9h30 e admito que fiquei aliviado porque quem sentou ao meu lado não foi uma chola, mas uma vovozinha simpática. Educada, limpa e coisa e tal. Gente normal, na minha concepção meio preconceituosa.
     Antes de sair, entram pessoas no ônibus para vender coisas. Igualzinho nos filmes. É choclo para cá, pollo para lá - imaginem frango dentro do onibus! - e mais umas coisas que não consegui entender, todas muito coloridas. Fiquei impressionado com a solidariedade das pessoas quando entrou um cego pedindo esmolas. Todas as pessoas, até mesmo as cholas mais pobres, lhe deram uma moeda. Logo depois, entrou um rapazinho simpático, dsempregado, que canta para ganhar a vida. Dei a ele cinco bolivianos só porque cantou uma do Rei Roberto. En español, claro. "Usted es mi amigo de fe..."
     A viagem é bem monótona. O ônibus vai serpenteando entre as montanhas, é curva que não acaba mais. Tudo muito marrom, senti falta do nosso verde brasileiro. E dá-lhe subida, parece que a gente vai chegar no céu. E muita gente parece que chega: ao longo da estrada, tem muitas cruzes, mas muitas mesmo. Estrada perigosa, carros velhos e motoristas bolivianos não parece ser uma combinação lá muito boa.
     Todas as vezes que o ônibus pára, seja para embarcarem passageiros ou pagar pedágio, dezenas de mulheres correm - correm literalmente - para vender comida. E vendem de tudo que se possa imaginar, sempre, claro, gritando sem parar, ao mesmo tempo e desesperadamente. Reparei que o choclo é um preferido por aqui.
     Paramos para o almoço no lugar mais imundo que eu já vi na minha vida. E fedido - e olha que aqui eu já vi muita sujeira, viu? Desci mais para esticar as pernas mesmo. Não tinha nada industrializado, no pacotinho fechado e não tive coragem de pedir nada. Fiquei meio decepcionado comigo mesmo. Entrei de novo no ônibus e a senhorinha tirou duas maçãs da bolsa. Na hora eu pensei: "meu Deus, como iria bem uma frutinha agora". E então ela me ofereceu uma! Eu fiquei tão feliz que até exagerei no agradecimento:
     - Muchisimas gracias, señora. Díos la bendiga!
     Todos de barriga cheia, saímos e o motorista colocou na TV, então, um filme mexicano sobre um padre. Chato. Dormi.
     Na beira da estrada, passamos por várias vilas e fiquei triste com o que vi. Umas casinhas que fariam qualquer barraco de favela brasileira parecer um palácio. Nunca vi tanta pobreza na minha vida. Miséria absoluta mesmo.
     Chegando em La Paz, o episódio mais engraçado até agora - mas que bem poderia ter sido triste. O ônibus vinha a milhào por hora, e, numa curva, apareceu um caminhão atravessado na pista, saindo de uma obra. Bela freada! E adivinhem? Nosso motorista desceu na hora, abriu a porta do caminhào, puxou o sujeito para fora e sentou-lhe a porrada! Dois belos diretos de direita. Ficamos parados, todos os passageiros na janela xingando o pobre - inclusive minha amiga vovozinha -, até que chegou a polícia. E dá-lhe carajo e putamierda!
     Chegamos com chuva em la Paz e eu já pulei dentro de um táxi. O trânsito estava uma mierda, com o perdão da palavra. Devia estar acontecendo alguma coisa no centro, porque várias ruas estavam fechadas e ouvia-se tiros de canhão e gritos do povo. Quem sabe um pronunciamento do presidente Evo e eu perdi?
     O hostal que eu tinha escolhido - aleatoriamente - no guia não tinha quartos. Uma pena porque era muito bonito. Acabei ficando num outro perto. Meio moquifo, quando entrei me bateu até uma tristeza.
     Saí para jantar na calle Sagárnaga, carinhosamente chamada pelos paceños de "alameda dos gringos". Entrei num café muito bonito e pedi o famoso mate de coca e um belo sanduíche para matar a fome acumulada da viagem. Decepção: o chá tem gosto de mato, nada diferente do chá verde. Tomei só de curiosidade mesmo, porque - fiquei muito feliz com isso - não senti efeito nenhum do soroche. Subi umas ladeiras enormes com a mochila - pesada em 15,4 kg no aeroporto - nas costas e nada. Estou inteirão!
     Voltei para o hostal e ouvi gente falando inglês na cozinha. Corri para ver. Eram quatro americanas simpáticas. Uma delas morou um ano em Campinas e outra, meio coroa, dez anos na Argentina. Conversamos um pouco, trocamos figurinhas, eu fiz um chá de coca e fui deitar. E no cansaço que estava, o quarto nem me pareceu mais tão mal assim.

9 comentários:

Je disse...

Que aventura e seu Bruno, tem realmente que ter coragem pra enfrentar uma dessa. Pelos relatos está passando por coisas inusitadas, é legal vivermos realidades diferentes às vezes!!!!

Denis disse...

¿Hola, que tal? Mas que aventureiro esse menino! Trate de comprar uma flautinha pra tocar nas horas vagas... Asta la vista.

preto disse...

com esses relatos quem sabe eu nao me animo pra fazer uma presepada dessas tbem algum dia, aproveitando que eu estou aqui pertinho...

mas o meu cd de musicas de flauta eu faça questao!!

Monize disse...

Mas que aventura menino?! Mas de continuar à base de maçãs e sanduíches vc não aguenta não! hehehehe e quanto ao soroche... vc é elfo! Acha que ia sentir alguma coisa? ahuahuahuaha
Boa sorte por aí e se cuide viu?!
Perdi os primeiros episódios da aventura mas prometo acompanhar direitinho de agora em diante!
Beijos!!!

Vanessa disse...

Brunito!
Enquanto lia seu diário na internet, lembrei-me que tu adoras tomar iogurte natural como lanche na parte da tarde. Deve estar sendo complicado aí, né.
Bom, mas aproveite esse tempo de férias e aventuras e bom apetite!

Anônimo disse...

Robson mandando um aloo

Ola.. Sr. Bruno
então quer dizer, viajou e esta se caminhando muito, conheçendo lugares belos ou exoticos...
Hum que você aproveite muito bem mesmo toda essa experiencia... e como você falou vou estar esperando o meu cd... assim vou me sentir na tiradentes ou osorio que coisa boa... e isso sem sair de casa e pegar um buzão...

Um grande abraço meu amigãooo
que Deus continue a iluminar o seu caminho, tendo Maria a seu lado..

Trasgo disse...

Hehehhe

Ele nao sentiu os efeitos da altitude. Claro. Já viram o tamanho do nariz dele?

:P

Rafael Palma disse...

O loco...saiu na porrada mesmo?! Imagina se ele dirigisse aqui em CTBA, ia dar motorista de INTER II morto todo dia! Abraço!

mh disse...

Menino Palma... Será que se você conseguir uns cházinhos desse pra nós seria considerado contrabando???? hahaha Enfim... COntinue a viagem, rapaz, que está interessantíssima!!!! AH! Outra coisa Resolvi colocar os tios e cedilhas aqui pra você copiar e colar caso ache necessário! hehehe
ã ã ã ã ã õ õ õ õ ~~~ ç ç ç ç ç ç

Aquele abraço!!!!