9.2.07

Tiwanaku

Hoje foi o dia mais legal. Vamos por partes que vai ficar comprido...
     Acordei cedo para ir a Tiwanaku. É uma cidadela de uma civilização que existiu antes dos incas. Tomei um belo café —inclusive aprendi um ditado daqui: desayuna como un rey, almuerza como un principe e cena como um mendigo— e peguei um táxi para ir até onde saem os onibus para lá. Que contratar excursao de gringo, que nada, eu vou direto no quente!
     A viagem é curta: 75 km. Fui com um grupo de argentinos, que foram o tempo todo tomando tererê, um peruano, que foi o tempo todo lendo Sartre e mais uns bolivianos, gente boníssima. La Paz fica literalmente dentro de um buraco, para sair é fácil: você sobe, sobe, sobe e sobe mais. Quando chega lá em cima —uma cidade chamada El Alto— dá para ver a cidade inteira lá em baixo, visão panorâmica. E daí você sobe um pouco mais.
     Depois o ônibus pega uma reta sem fim numa planura só. Vi algumas vilas, umas vacas magras, ovelhas e até burros, mas nada de lhamas. Nao há pássaros aqui, é tudo muito árido. Rios eu vi só dois, e são mais barro que água, impossível de beber.
     Ao fundo, se vê várias montanhas e, para minha surpresa, a Cordillera Real, com seus picos nevados. São lindas, iguais as montanhas dos filmes. Ok, foi de longe, mas eu vi a neve pela primeira vez. E decidi minhas próximas férias: vou para algum lugar com neve, nem que vá sozinho de novo!
     Chegamos lá, comprei o bilhete, meio carinho: 10 dólares. Entrei sozinho no museu, que os argentinos eram muito chatos, e não quis contratar guia. Há muitas peçaas de pedra tiradas das escavações, algumas com 4000 anos de idade! Fui seguindo atrás de um grupo de 4 pessoas, lideradas pelo Gandalf, só que de macacao jeans. Tirei várias fotos, bem na boa, até que veio um guarda me avisar que era proibido. O Gandalf me olhou meio de lado, mas não foi maldade, juro que não sabia.
     Depois saí e segui, discretamente, o grupo do Gandalf para ver onde se entrava no sítio arqueológico. Não tenho como descrever. É impressionante pensar que enquanto eles construíam essas maravilhas, não existia nem Brasil ainda. E, enquanto eu fazia minhas conjecturas, uma nuvem preta vinha chegando mais perto.
     A cidade é composta de três partes: a cidadela, em honra ao deus do mundo terrestre; um templo subterrâneo, para o deus do mundo inferior; e uma pirâmide, para o deus celeste. A pirâmide ainda não foi encontrada, mas eles estao escavando um morro que tem ao lado, deve estar ali. O lugar inteiro foi descoberto recentemente, na década de 1970, então ainda está em obras arqueológicas. E a nuvem chegando.
     Olhei tudo, tirei fotos e subi o morro. Sempre de olho no Gandalf, para não me perder. A vista é impressionante. Lá em cima encontrei um guarda e perdi a vergonha: pedi que tirasse uma foto minha. De quebra, ainda ganhei várias explicações. E de graca!, que quem é simpático nao precisa pagar guia. E a nuvem chegando.
     Foi o tempo de eu descer o morro e começou a chover. Granizo! Saí correndo para me abrigar no museu e então eu vi! Meninos, eu vi!
     A coisa de uns 3 metros de mim, passou uma lhama. ¡Una llama! Fiquei parado lá, feito bobo olhando o bicho, pêlo branquinho, macio, maior que eu imaginava. Sem exagero, vivi um momento de pura alegria enquanto o granizo me machucava o rosto. Só nao saquei a câmera porque lembrei que ainda tem muitas prestações para pagar, e chuva com pedras de gelo do tamanho de uma moeda de um real nao devem ser uma boa para dispositivos digitais. Mas nisso perdi o Gandalf de vista. Uma pena, estava quase virando amigo do velhinho. Um sarro: barbudo, com um cajado,uma bolsinha colorida do lado e macacão jeans!
     Pulei numa van para voltar para La Paz e, em seguida, entrou uma mulher com duas crianças. Falando português! Puxei papo: ela é boliviana, mora em Sao Paulo há 15 anos e agora veio para mostrar sua terra natal para os filhos.
     Quando descemos, perdi mais um pouco da vergonha e pedi para rachar o táxi até o centro com duas argentinas que vieram junto. Fiz economia e duas amigas. Ficamos na plaza Murillo, meio longe para mim, mas tudo bem porque tiva uma bela surpresa: a porta da catedral estava aberta. Ontem tirei fotos só de fora, porque estava fechada e fiquei chateado por não poder entrar.
     "Meu Deus do Céu" foi só o que pude pensar lá dentro. É linda, enorme, imponente como nenhuma igreja que já vi na vida, talvez só a Sé. Põe a catedralzinha da praçaa Tiradentes no bolso. E no bolso pequeno, das moedas.
          No altar-mor, uma senhora rezava o terço no microfone. Quando terminou, perdi mais um pouco da vergonha e fui lá puxar papo. Ela ficou emocionada quando soube que eu era lider de un grupo de jóvenes en Brasil e sempre faço propaganda para que rezem o terço. Ficamos amigos, e ganhei o folhetinho do qual ela estava lendo os mistérios.
     Enfim, vi a neve, vi uma lhama, conheci uma cultura de 4.000 anos, aprendi a rezar em espanhol e fiz vários amigos. Nada mal para um dia de férias.

8 comentários:

Rafael Palma disse...

Acho que foi o melhor POSt para ser lido até agora, talvez porque tenha sido o seu melhor dia aí! Fiquei feliz! Mais vc ainda vai conseguir tirar foto da Lhama! VOu rezar pra isso...rs! Aproveite muito, cada instante! Abraço!

Marco disse...

É isso aí!! Tá começando a perder o medo de se relacionar!
Aproveite, pois são estas experiências que vão enriquecer sua viagem.
E se te oferecer mescalina, não saia do hotel depois...eh eh eh
Abraço.
Marco

Rafael disse...

O tio Marco tá manda bem nos POSTS hein...hahahah! O pessoal de SP se empolgou agora!

Adelcio disse...

Olá meu filho, é interessante do ponto de vista de pai que sempre esteve por perto, ver como você está se saindo nas suas aventuras. Pai é diferente de mãe, a gente torce para o filho aproveitar a liberdade, criar coragem, encarar de frente, não afinar, ter jogo de cintura, aproveitar cada minuto, conhecer, desbravar, fazer, escolher, explorar, e por ai vai, por isso aproveite.
Mas o melhor de tudo isso, é o resultado final: além da diversão e do conhecimento adquirido, descobrirmos o valor de nossa casa, bairro, cidade, país e de nossos entes queridos, sejam eles a nossa família, ou essa grande legião de amigos que tá aqui te dando força e explorando tudo junto com você, e mais ainda, aquela pessoa que trocaria tudo isso por um apertado e demorado abraço, sem aventura alguma de preferência, e o mais próximo de casa possível, porque mãe é realmente diferente de pai.

grande beijo, e que DEUS te abençoe e proteja sempre.

Pai

MA disse...

Me emocionei com seu Adélcio....


Bom pelo menos agora vc sabe que lhama existe... Agora a pergunta que não quer calar: vc puxa papo com as pessoas dizendo "Bruno, prazer!"? hehehehe

Um abraço e se cuida

PS gostei do caráter cultural da sua viagem...

Vitor P. SIlva disse...

oi Bruno!!! Que bom que a viagem esta lhe fazendo muito bem,e que tudo esta dando certo, e nem me preocupo porque sei que você tem força e inteligência para desfrutar de tudo ai!
Que a viagem possa estar sendo de muito aprendizado para você.
Tira bastante fotos ai pra mostrar depois.
A Eli ta te mandando um beijo, e falou pra vovê não esquecer o presente dela!!!hehahea
Um abraço e fica com Deus! Aproveite!!!

Monize disse...

Viva!!!!! Uma lhama!!!!!!!
Até eu fiquei super empolgada aqui!!!
Que bom que as coisas parecem estar melhorando...
AAhh!!! eu quero ver muuuitas fotos!!! to aqui me roendo de inveja!!! Imagina?! Arquitetura de 4000 anos??? eu quero ver!!!!
Beijos menino... e se cuide!

MH disse...

Olha eu aqui novamente!!! Como já expliquei no post anterior, fiquei sem acesso à internet esses dias e não perdi, mas fiquei atrasado em algumas publicações... hehehe Nada que não seja recuperável, mas está tão interessantes que eu quero ver logo os outroooosss! hehehe Aquele abração e estamos todos com você!