26.3.07

Algodão doce

Território perigoso é o da, digamos, massa corpórea feminina. Duvido que haja um homem na face da Terra —tirando-se cabelereiros, maquiadores e estilistas— que saiba como lidar com um assunto tão delicado.
     É um belo dia de verão e vocês decidem passear no parque. Sol, céu azul, cachorros e crianças de bicicleta. Tudo corre muito bem até que você, na maior ingenuidade, só querendo ser gentil, oferece um algodão doce, ou uma maçã do amor, ou uma Coca, sei lá. Ficamos com o algodão doce, para o exemplo ficar mais dramático. Ela vai sair com algo do tipo:
     — Comecei regime ontem.
     E, pronto, acabou tudo.
     O sol se enfiou atrás de alguma nuvem preta, o céu acinzentou, o cachorro engasgou com a bolinha e as criançada caiu das bicicletas. Neste momento você desejará que tivesse nascido surdo. Mas não, você não nasceu surdo: ouviu muito bem e ela te olha, esperando um comentário. Claro que você, como todo homem, não sabe o que responder, e constrói um diálogo imaginário em sua cabeça. Opção 1:
     — Ah, é? Que legal!
     — Que legal? Que legal? Quer dizer que todo esse tempo você me achava gorda e não dizia nada? Eu sabia: você não me ama do jeito que eu sou. Você tem vergonha de mim! Até regime eu tenho que fazer para ver se você me aceita, seu insensível!
     Não, melhor não responder assim. Ela estranha seu silêncio, logo você que estava tão falante até cinco segundo atrás. Enquanto o vendedor pergunta se você vai querer mesmo o algodão doce, você constrói um outro diálogo. Segunda opção:
     — Regime pra quê? Você está ótima!
     — Ótima? Eu estou gorda! G-o-r-d-a! Mas pelo visto você quer que continue assim. Sim, porque você é o meninão bonitão, saradão e eu, a gorda mocréia. “Olha como ele é bonzinho, levando a gorda para passear...” Você só pensa em você, seu insensível!
     Antes que ela comece a chorar no seu diálogo imaginário, você parte rápido para outra. O vendedor está esperando e ela começa a pensar que você talvez seja autista, logo você que estava tão falante dez segundos atrás. Resposta número três:
     — Ah, mas vamos comer um algodão doce, benzinho. Só hoje...
     — Ah, é? E você sabe quantas calorias tem num algodãozinho desses? Sabe? É uma máquina de fazer gordas! Mas você não se preocupa comigo mesmo. Porque eu estou gorda e você nem se incomoda. Mas se a vizinha engordar 500 gramas, você repara. Ah, se repara! Seu insensível!
     O vendedor já está impaciente. Ela pensa em chamar a APAE, que você deve ser autista mesmo. Já se passaram quinze segundos: é agora ou nunca. Melhor que fosse nunca, mas tem que ser agora. Dezesseis segundos. Só há uma saída: a pela tangente.
     Você aponta para cima e sai correndo, a toda velocidade, atrás do elefante rosa que está caindo do céu lá na outra esquina. Quer dizer, elefante não, que ela vai levar para o lado pessoal. Mas já que você não nasceu surdo, é melhor passar por bobo, que o estrago é menor.

11 comentários:

Alf. disse...

aiuhaiauhaiuahaiuha cara... iuahaiuhaiauhaiu infelizmente isso é uma verdade, "horrível" verdade... "saia justa" sem qualquer segundo de folga para aliviar... Fico imaginando se essa não seria uma missão impossível de resolver na "paz e amor"... uahauahauhauah loucura, loucura, loucura...

e sobre o samurai champloo... eu conheço sim cara muito bom vele muito a pena assistir. Embora só tenha visto flashs do anime.

aconselho tu ver tbm Afro Samurai... Perfeito, perfeito... *chega fico arrepiado só de lembrar desse anime*

por esses dias tou fazendo um post desse anime... xD flw cara!

Utopia Urbana disse...

Hahaha

Minha namorada que não me leia, mas é a pura verdade. Quem as entende?

Achei seu blog na comunidade do blogspot no Orkut. Fiz um blog tem pouco tempo... tô querendo fugir um pouco do óbvio dos diariozinhos e afins, e gostei muito do seu. Já está nos meus favoritos.

Abraço!

dän disse...

nossa... muito bom esse texto hahahahahahahahaha... que engraçado! sei lá, eu não resistiria ao algodão doce! hahahaha comeria e sentiria ódio de vc para o resto da vida.

Jane Malaquias disse...

Vc diz assim: gorda, aonde? Deixa eu ver a carninha que eu quero dar uma mordida neste pitéu. Aí esquece o algodão e come a gordinha que ela vai ficar feliz da vida.
Ói, brigada pela visita, volte sempre!

Carol disse...

Pior que a coisa funciona mais ou menos assim mesmo. rs

Gostei do blog!

LuccyInTheSky disse...

Amei amei amei o texto!!!!
Voltarei!
Bjokas
Lu

Diva disse...

Mulheres...amem-nos ou odeiem-nos...mas nao se vive sem nos!Hehehe...somos assim, que fazer? Deliciosamente insuportaveis.
Bjs meus

Juliana Marchioretto disse...

hahahaha!!
confesso: as mulheres são muito dramáticas, em todas as situações. mas nessa eu não me encaixo: doce é comigo mesmo! e qdo não como alguma coisa, é pq sou uma fresca com comida, pq de resto.... tô nem ai!

beijo

Isadora A. disse...

deus do céu, tomara que ele não leia isso, tomara que ele não leia isso, tomara que ele não leia isso - REZEM COMIGO ! - tromara que ele não leia isso, tomara que ele não leia isso, tomara...

preto disse...

rapaz..ta bombando isso aqui!

Eli(Ane) disse...

Que é isso Bruno...acabou com as mulheres...acabou com o domingo no parque...só não acabou com a narrativa que ficou super legal...quase me matei de rir.