24.5.07

O bolo da Cecília

Embora a do João Marra seja indiscutivelmente minha preferida, outra boa lição que virou patrimônio da família é a da prima Cecília.
     Na casa de meu avô eram oito irmãos. Como os tempos eram difíceis —época da guerra, quando o mundo inteiro estava ocupado se matando—, e meu bisavô penava para alimentar tantas bocas, a comida quase sempre era contadinha, controlada com disciplina de general pela minha bisavó: uma porção para cada um, nem mais, nem menos.
     Belo dia, ela fez um bolo e cortou em exatos oito pedaços para a hora do café. E bem na hora chegou visita: a prima Cecília. A bisa não era boba nem nada, guardou o bolo no forno e foi receber a prima de boca bem fechada.
     Pois diz que meu avô ficou por ali fazendo sala para a prima também. E na vontade de ser um bom anfitrião —e, sabe como é a idade, soltar um galanteiozinho para cima da prima mais velha—, sugeriu:
     — Dá bolo pra Cecília, mãe.
     A bisa deu uma olhada de rabo de olho para ele, fulminante. Para bom entendedor, isso significaria "cala a boca, moleque, que os pedaços estão contados". Mas meu avô não devia ser bom entendedor, porque, papo vai, papo vem, lá pelas tantas soltou de novo:
     — Ô, mãe, dá bolo pra Cecília!
     E a bisa deu-lhe um chute de leve na canela, com um sorriso de "ai, essas crianças". Mas o menino queria mesmo fazer bonito com a prima e repetiu:
     — O bolo já esfriou, mãe, dá um pedaço pra Cecília!
     A essa altura, não tinha mais como disfarçar: a prima Cecília sabia que tinha bolo, sabia que já estava frio —é de senso comum que bolo quente dá dor de barriga— e ficaria chato se não ganhasse um pedaço. Não teve escapatória: a bisa foi para a cozinha e voltou com um pedaço do bendito bolo para a prima Cecília. O que a moça comeu —como diz minha avó— de boca gostosa. E meu avô, todo orgulhoso, se sentiu o bom mocinho do dia.
     Mais tarde, quando a prima Cecília foi embora, minha bisavó chamou os oito filhos para a cozinha, serviu café e distribuiu os pedaços do bolo. E, surpresa!, só tinham sete pedaços. Meu avô só ganhou café.
     — Ué, mãe, e o meu pedaço?
     — O seu eu dei pra Cecília, pra largar mão de ser linguarudo.
     Porque, se em boca fechada não entra mosca, em boca aberta não entra bolo.

19 comentários:

MA disse...

hauahuahauahauhauahuahua sempre construtivo ler seu blog

pretinho disse...

esse post tem a sua cara...vi vc lá no sitio ralhando com a gente!!

Claudia Lis disse...

Oi Bruno,

Êta Bisa danada de esperta essa hein!
Puxa vida, pobrezinho do seu avô, todo bem intencionado e tal... Só queria compartilhar e ser solidário. Hehehe... Bom, de qualquer forma, mesmo sem comer o bolo, o seu avô “levou um bolo” feio!

=)

É bom voltar aqui! Já ganhei um Bom Dia com esse texto. Texto sobre um fato real, vale ressaltar.

Beijos

Ce Franco disse...

Olá Bruno, se me permite,



Hahahahahaahhaahhahahahahahahaa.


Convenhamos que a guerra acabou mas a luta para sobreviver continua. Eu moro em um bairro, digamos assim, rodeado de visinhas fuxiqueiras que viraram fuxiqueiras virtuais, e muitas leem até meu Blog para se informar em que trâmite anda a minha vida. Eu moro em uma casa em que eu, o mais jovem sou o " Generalzinho", a Ovelha Negra, e aqui se comprar X coisas e X coisas não estiverem em ordem eu simplesmente solto o verbo. Com isso, aqui quem abre a boca depois tem que ficar com ela fechada. Metaforicamente o bolo a que você se refere aí no texto, aqui é os fatos de família. Fazemos de tudo para que ninguém fique sabendo de nossas vidas, ou quase tudo.

Tenho dito.

...Danizita... disse...

Mas nessas épocas eram assim mesmo...

Lembro de todas as histórias que a minha vó contava...rs

Hehehe!

Bjs

Pathaua Brasil disse...

Essa história me lembrou aquelas mesas antigas, de madeira maciça, com 20 lugares e gavetas embaixo para cada ocupante.
Diz a lenda que era pra esconder o prato no caso de chegar visitas...

Zana disse...

kkkkkkkkk suas histórias me causa nostalgia sabia? me faz lembrar de tanta coisa...adoro passar por aqui!!!bju

Julio Moraes disse...

Rapaz, deixei um scrap la para voce no orkut..da um look..abraços...

Carol Montone disse...

Bruno...eu amei...tinha qeu ouvir isso hoje...
eu falo demais...eu quero calar e quando vejo já estou lá usando as palavras para fins duvidosos como o do seu vô...adorei...prefiro comer bolo do que amargar consequências desastrosas de palavras muitas vezes ingênuas...
vc escreve com uma fluidez impressionante...gosto muito da sua casa ...
beijo
Carol Montone

Paula Estrela disse...

Bruno,

Mas que texto lindo! Me avocou tantos sentimentos ... que nem dou conta de escrever. Tanta generosidade, tanta simplicidade, tanta inocência e tanto amor... tudo em torno de um pedaço de bolo.
Linda família a sua ...

Bjos e prazer em estar em seu canto!

Alf. disse...

ueheueheuhe ficar sem bolo não dá uheueheuh... Por falar em bolo, um bolinho com café cairia 'otimamente' nesse dia frio! (...)

belo post cara! ;)

........... disse...

Que blog mais aconchegante, que jeitinho mais gostoso você tem para escrever... Quase senti o cheiro do bolo esfriando... Sua prosa é de um lirismo descompromissado... Pura gostosura, é disso que preciso... Voltarei pra comer bolo :-)

........... disse...

Ops, esqueci de deixar meu nome e link no coment a cima, aí vai:

Amèlie
www.blogmilpedacos.blogspot.com

dän disse...

ow caramba...
deu fome. o.O

Zana disse...

tem um desafio lá no meu blog pra vc, num é obrigado naum tá!!! bju

Anônimo disse...

Como dizem "os antigos" visita tem preferência. Lá em casa, as visitam se serviam primeiro.
Eliane ( com saudade do seu blog)

Jane Malaquias disse...

Fiquei com vontade de saber qual era o tamanho do pedaço de bolo.

Marco Antonio disse...

Nossa Senhora!!!!

Eitâ "biza" pedagógica!!!!!

Aposto que seu avô não esqueceu disso nunca mais!!!

_____________
Marco Antonio
http://papodajuventudecatolica.blogspot.com/

Isadora A. disse...

você colocou a "bisa" e a "Cecília" num texto só. Quando eu tiver uma filha, vai se chamar Maria Cecília. Pela bisa, Maria, pela música, Cecília.

e quando eu falo que vc traduz tudo o que eu quero falar sempre, ninguém acredita...