13.8.07

O escultor

II
(caso tenha perdido, leia aqui a parte I)

Semanas antes, uma chuva forte castigou toda a região, o que deixou o padre J. preocupado com o telhado da igreja. Uma goteira poderia acabar com a tinta do painel recém pintado no teto. Calçou as sandálias, pegou um lampião e foi verificar.
     O padre J. era um homem velho, de corpo cansado mas de mente brilhante e viva. Seus muitos anos de bom sacerdócio e seu carisma faziam dele a escolha perfeita para conquistar fiéis e fundar uma paróquia. Por isso fora mandado pelo arcebispo com a missão de terminar a construção da nova igreja. E, de fato, em poucas semanas no local, já era amado por todos e conseguira várias famílias piedosas para financiar a obra.
     Lá fora a tempestade caía com violência, mas dentro da igreja, tudo era ordem e silêncio. Graças a Deus, pensou ele, graças a Deus. Um relâmpago riscou o céu e iluminou por um instante toda a nave, deixando o padre extasiado com a visão. O trovão ribombou longe, mas ele pensou ouvir um barulho mais próximo.
     Levantou o lampião e olhou em volta. O padre conhecia —e ajudara o arquiteto a escolher— cada detalhe, mas não cansava de se maravilhar com o que mãos habilidosas podiam fazer. Então ouviu de novo o ruído: sim, alguém batia na porta!
     O padre atravessou todo o corredor central e abriu uma folha da porta pesada. Deu com um homem sozinho na tempestade e, aflito pela situação do estranho, puxou-o para dentro. Só depois de fechada a porta e feito o convite para ir até a sacristia e secar-se é que ele perguntou de quem se tratava: o escultor contratado para trabalhar nos painéis do altar lateral.
     Enquanto fervia água no fogão a lenha, o padre deu uma boa olhada no homem: um sujeito de aparência austera e refinada. As roupas de corte elegante e o bigode bem aparado denunciavam uma certa vaidade. Os cabelos negros encharcados caíam ao redor do rosto ossudo, onde brilhavam os dois olhos escuros. Havia algo naquele olhar, algo que padre não conseguiu definir de imediato, mas que o deixou intrigado.
     Conversaram durante algum tempo, embora o artista fosse um tanto calado, e depois o padre o levou de volta à igreja, para mostrar as pedras a serem esculpidas: três grandes placas de mármore italiano, presente de um coronel da região. A idéia do padre, também aprovada pelo arquiteto, eram três cenas da Divina Comédia: o inferno, o purgatório e o paraíso.
     O silêncio com que o escultor observou os painéis brutos deixou o padre apreensivo, talvez a Divina Comédia não fosse uma idéia tão boa assim. Mas depois de dois minutos, ele foi surpreendido por uma resposta calorosa de que, sim, era possível e que aquele seria um trabalho digno das grandes catedrais da Humanidade.
     Quando se deitou, depois de ter acomodado seu hóspede, o padre teve um lampejo. Chegou a uma conclusão sobre o olhar do escultor: era frio.

6 comentários:

MA disse...

e desde quando você é escoteiro???? hehehehehe

Quero ver se cumpre a promessa hein

Adrian Masella disse...

Aaaaaah o que eu mais odeio em historia de suspense eh que tem MUITA, mas MUITA descrição!!!!

CADE A AÇÃOOO!!
Fiquei o tempo todo esperando o escultor de olhar frio matar o padre, ou no minimo assustar o pobre J

ASUehAHSeHASEhAHea

Mas ta otimo, afinal eh descrição que prende a gente na historia!!!

Gilgomex™ disse...

cuidado pra não deixar igual minha investida literária...
"O apagado"... rs

escrevi até o capítulo 8 numa velocidade incrível, aí o 9 já demorei...
e bem...
já faz um tempo que não consigo pensar no 10...
heueuheueu

Paulo Bono disse...

keep walking.
abraço

Carol Montone disse...

adoro seu poder descritivo...viajo....
odeio olhares frios...nada pior...são de certa forma mortos....
beijos grandes
Carol Montone

Luana disse...

como vc consegue ser tão descritivo assim? hahaa! inveja mode on!


não gosto de olhares frios, apesar de as vezes ou quase sempre ter um olhar frio.