17.8.07

O escultor

III
(leia as partes anteriores: I e II)

Foi do padre J. a idéia de que o escultor descansasse uns dias depois de terminar o painel do purgatório. Depois de madrugar trabalhando febrilmente por noites a fio, o homem pálido precisava de algum sol e ar fresco. Não causou curiosidade ao velho homem, já acostumado com o mistério que sempre envolvia seu hóspede, quando ele disse vagamente que queria cavalgar pelos campos, sozinho. E por três dias ele saiu muito cedo, com o cantar do galo e voltou tarde, sol já posto. Depois disso, lançou-se novamente a esculpir, com a inspiração renovada.
     O padre se paramentava para a missa de sétimo dia da garota assassinada quando recebeu, estarrecido, a notícia de outro corpo encontrado. Desta vez, um figurão da cidade, senhor de muitas terras, que fora encontrado caído entre o pasto alto. Mas agora havia um acusado: um escravo estava sumido desde então. O capitão-do-mato já estava à caça do autor dos outros quatro homicídios.
     Depois de dizer a missa e atender às confissões, o padre foi até o altar lateral onde o escultor fitava o mármore que começava a ganhar vida, alguns vultos surgindo em relevo da pedra plana. Os dois painéis prontos estavam cobertos com um pano, que o velho homem puxou num gesto delicado para observar mais uma vez o paraíso e o purgatório.
     Uma das almas bem-aventuradas, entre anjos e santos, lhe chamava a atenção já há alguns dias. "Este menino... ele me é familiar", resmungou o padre. O escultor virou-se, a expressão sempre insensível transformada num olhar espantado, mas o padre J. abanou a mão, desistindo de seu comentário. A memória prega peças depois de uma certa idade, e ele já havia passado dessa idade há muito tempo. Foi embora, mancando bastante da perna doente, sinal de que vinha mais chuva logo.
     Naquela noite, todos dormiram um pouco mais tranqüilos, embora as portas continuassem trancadas. O capitão era um homem implacável e competente, logo o assassino seria enforcado e a justiça seria feita.

5 comentários:

ma disse...

rapaz....mas sabe q cada vez eu tenho qu ler as anteriores... heheheh a memória está ficando fraca

Adrian Masella disse...

Idade prega peças com a memória e com a capacidade de distinguir confusões da realidade!!!

Padre tonto

Paulo Bono disse...

tá ficando massa. keep walking!
abraço

Helena Nunes disse...

Mesmo de férias vim dar notícias como prometi e ver o que andam a fazer. Logo agora que não tenho um pc à mão, vou ficar em pulgas para saber o fim. Será que o escultor é o assassino e o facto de efectuar as esculturas é uma forma de espiar os seus crimes?
Aiiii, é horrível não ter um pc por perto.
Vim colocar um post pois não aguentei e estou a queimar pestana em casa de um amigo.
Bjos

Bia Ferreira disse...

Já percebeu que os links estão trocados? O que indica a primeira parte leva à segunda e vice-e-versa... rsss
Crimes, assassinatos.. isso me lembra aquele livro que virou filme recentemente, "O perfume". Tão barbaro quanto a tua istória.. rss
Meu café eu estamos de volta.. beijocas