16.4.08

Café

— Eu só queria saber qual é o tipo de cretino que larga o jornal em frangalhos desse jeito...
     E eis que damos com nosso grande herói, seu Glicério, resmungando baixinho enquanto tentava remontar os cadernos do jornal do dia. Homem de raízes, ele prefere tomar o cafezinho preto passado no coador de pano da padaria do Manoel, mas quando a dona Eulália inventa de ser moderna, arrasta o pobre para um desses cafés da moda. É um suplício.
     — Ai, Glicério, não sei se peço um espressetto afogatto doppio, um moccha gelatto lemone ou provo outra coisa diferente.
     — Eu quero um café. Será que eles têm?
     Até essa parte de fazer o pedido tudo bem, a pressão dele, comportada, não passa dos dezoito. O pior mesmo para o nosso amigo é ter de ouvir os pedidos dos outros: seu Glicério sofre ouvindo os caprichos da nova geração. Uma mocinha pede:
     — Eu quero um capuccino. Mas sem creme nem chocolate.
     E nosso amigo, sem tirar os olhos do bendito jornal:
     — Alguém avisa a menina que "capuccino sem creme nem chocolate" é café com leite?
     E um rapaz, meio suspeito:
     — Eu vou querer um café com leite. Com bastante leite e só um pouquinho de café descafeinado, por favor.
     — E será que alguém pode ensinar o donzelo que "café com leite com bastante leite e só um pouquinho de café descafeinado" é leitinho morno de mamadeira de neném?
     Dona Eulália morre de vergonha enquanto desliza os dedos pelo cardápio de papel reciclado, ainda indecisa sobre o que vai querer. Acabou escolhendo um nome italiano que achou simpático e uma torta que, segundo nosso amigo, bem poderia ser emoldurada e pendurada na parede. Seu Glicério tentava abrir o caderno de esportes na mesinha apertada, bufando já, e dona Eulália puxou uma Caras. Ficou horrorizada com o sexto casamento de uma atriz —mas encantada pelo vestido da noiva—, que essa juventude não tem mais noção de amor, meu Deus.
     Pedem a conta e, aí sim, a pressão entra em erupção. Dona Eulália, como sempre, sabe que essa é a hora de entrar em cena e tira a carteira de bolinhas vermelhas de dentro da bolsa. Hoje é por conta da aposentadoria de professora. Seu Glicério sai arrastando os chinelos pela calçada —pois é, ela não o convenceu a usar aquele sapatênis que ganhou da Marcinha no Natal— e conseguiu um palito de dente para mastigar:
     — Da próxima vez eu trago o jornal de casa. Isso se não trouxer a garrafa térmica com café de verdade.

22 comentários:

Stephanie disse...

hahahaha! seu Glicério é impossível. Tenho que admitir que também sofro certos 'maus-humores' quando ouço coisas do tipo

'vê uma torta mousse de chocolate light, por favor'

Ah, Bruno, como diz a minha Vó - vergonha é roubar e não conseguir carregar. Vcs devem saber de livros ótimos que eu não li (ainda).

De qualquer forma, eu pré-sinto que quando eu conseguir ver você e Ju, cês já terão descoberto Cortázar e teremos ótimas figurinhas pra trocar ;-)

'todos os fogos o fogo' é um ótimo livro pra se iniciar com esse mestre do conto argentino.

beijo

denis disse...

ah, esses jovens...

Rafa disse...

essa hist lembrou minha sogra em Buenos Aires, no café Havanna, pedindo um café light. O garçon ficou paralizado, a gente chorando de rir e ela sem entender... no fim ela queria tipo um capuccino light (que não tinha).

e diga pra Dona Eulália que essa bolsinha de bolinhas vermelhas é muito minha, viu?

Diego disse...

Esse seu Glicério é dos meus.

Inclusive, lendo a parte da pressão ali, me lembrou o papatinho.

hahahah

Mariah só Mariah disse...

incrível a quantidade de decisões que hoje em dia precisamos tomar para saborear um simples café.
no meio do expediente, para desestressar saio pra rua a procura de um café...entre num desses cantinhos "in"...um cardápio imenso..."descafeinado", "com chocolate", "sem chocolate", "com canela", "com aroma"...com o c...a quatro. Melhor voltar para o escritório, lá as decisões são mais simples. Na saída páro na geladeira e pego um Coca Zero...para matar o desejo de cafeína.
Mariah

Fernando disse...

Olá, Bruno!

Cheguei ao teu blog através de indicação do Tyler no blog dele. Ele disse que ´da riva porque o tudo o que escreve ele queria ter escrito.

Bom, também tô puto da vida! O texto meu lembrou o antigo Seu Saraiva, de Zorra Total. E a expressão "...que essa juventude não tem mais noção de amor, meu Deus." foi excelente. Consegui ver dona Eulália falando.

Eu diria que fuçaria mais por aqui pra perguntar se posso te lincar, mas como contos e crônicas são o que mais gosto de ler na blogosfera (talvez porque eu as escreva também), já pergunto agora se posso lincá-lo. E então?

E de qualquer forma, vou olhar mais por aqui, ok? Esste texto deixou uma excelente impressão!

Abraços!

Paulo Bono disse...

seu glicério é meu ídolo.
faria tudo por uma partidinha de dominó com o velho.

abraço, bruno

Unlucky disse...

seu glicério, seu glicério.

mereçe receber uma visitinha do fantasmas dos natais passado pelo grande mau humor.


como se meu humor fosse assim, tão bom. ¬¬

Ricardo Soares disse...

gostei dos acepipes... aliás, acepipes é uma palavra e tanto...
abs

Tyler Bazz disse...

Sou fã do Seu Glicério!!! \o/

Mas, mesmo assim, acho que não chamaria ele pra tomar um café, viu...

du sotto mayor disse...

ow... seus textos são bons!
divertido seus personagens...
vou colocar seu blog lá... nos meus preferidos...
valew...
t++

Lorita disse...

Tb fico tonta de raiva com quem deixa o jornal todo mastigado! rs...

Tyler Bazz disse...

Somos a tão falada elite branca brasileira, Bruno.

Você já ganhou algo com isso? Eu não. Hehehehehe

o/

Duda disse...

hehehe
que comentário bom de se ler, bruno. assim sinto que em algo, ou em alguma quantidade, eu acertei na minha poesia!

muito bom seu post. não lembrava do Seu Glicério, mas lembro de ter lido o post do Dia Sem Carro. figurinha simples ele, simples como um café.

abraços!

Sr. Sem sono disse...

A vida pós starbucks não será mais a mesma - pobre Glicério...

Juliana M. disse...

deu vontade de tomar mais e mais café, com ou sem nutella...

bj

Míope disse...

Será que seu Glicério já tem tv digital?

Muito bom!

Cara, deu pra "ver" seus personagens. Vou ler mais de seus textos, gosto muito de contos/crônicas e escrevo alguns também.

Posso te linkar?
Abração!
Abração!

Katia disse...

Veríssimo uma vez escreveu que os lugares mais ponta-firme são os de pior aparência. Quanto mais goma colada, catchup derrubado, óleo na bagaça e fio de cabelo, melhor.
O melhor café ainda é aquele da padoca.
A melhor pedida ainda é o 'soltaê um pingado pá nóis'.

Julia disse...

Adorei seu Glicério, adorei o texto, adorei o espaço.

Parabéns! Muito legal mesmo.
Agora acepipes escritos tá na minha listinha de favoritos.

Beijos.

mari.jannuzzi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mari disse...

bom, eu já disse antes que revirei o acepipes mas o seu glicério é sensacional! acho muito bom como você consegue essa simplicidade do cotidiano sem precisar daqueles floreios malas...

abraços

Fernando J. Pimenta disse...

Eba! Um brado ao café verdadeiro! E ao jornal inteirinho! (porque ficar remontando o jornal tira quase todo o prazer da leitura, benza Deus!