23.7.08

O mundo se divide

— O mundo se divide entre os que sabem assobiar a nona sinfonia do Beethoven e o resto.
     Desde que os amigos podiam lembrar o Betão era assim, com suas frases definitivas. Definitivas até que ele soltasse outra, que aí então seria a frase definitiva. Em média ele classificava o mundo umas três ou quatro vezes por dia.
     — Existem dois tipos, e só dois tipos, de homens no mundo: os que se barbeiam com lâmina, espuma e pincel e os outros.
     No fundo, no fundo isso era uma forma mais sofisticada de dizer alguma coisa quando o silêncio caía na mesa do bar. Enquanto os outros amigos —como as outras pessoas normais todas— diziam um "pois é", falavam algo sobre o clima ou soltavam um suspiro, um bocejo, ele vinha com:
     — No mundo você topa com dois tipos de sujeitos: os que conhecem Maximilian Stolaievitch e os que não conhecem Maximilian Stolaievitch.
     (Seja lá quem for esse Stolaievitch.) Ou então:
     — Existem duas formas de encarar a vida: mexer o cafezinho no sentido horário ou no anti-horário.
     — O mundo se divide entre os que comem as cascas da uva e os que cospem.
     — ... entre os que abotoam a camisa de cima para baixo e os que fazem de baixo para cima.
     — ... os que já assistiram "Três homens em conflito" e os outros.
     E funcionava: uma colocação do Betão rendia muito papo no bar. Como no dia em que o pessoal passou horas tentando descobrir se escovava os dentes da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Ou quando todos rascunharam árvores genealógicas em guardanapos tentando lembrar quem na família, até quatro gerações anteriores, usava suéter de lã listrado.
     — A Humanidade é feita de dois tipos de pessoas: os que usam palito de dente e os demais.
     Um dia alguém, ninguém lembra direito quem e nem por quê, lembrou de que brincava de bilboquê quando era pequeno. Bilboquê. O Betão já começou a armar a famosa fórmula:
     — Pois é, o mundo se divide entre quem brinca de...
     E parou assim, na metade. Todo mundo olhou, perplexo, para o Betão que, pela primeira vez na vida parecia não ter certeza de que o mundo se dividia entre um grupo e outro. Ficou ali, meio boquiaberto, tentando encontrar a certeza para enunciar sua nova classificação da vida humana na Terra. Mas não falou. Soltou só um "pois é" e tomou um gole de chope.
     O pessoal, que implicava, mas no fundo já tinha se acostumado com as formulações do Betão, ficou com pena, tentou ajudar, disse que, sei lá, talvez uma tribo da Oceania ainda brincasse de bilboquê, tivesse um campeonato de bilboquê onde o vencedor seria aclamado novo chefe do pedaço e levaria de lambuja umas vinte virgens. Mas não teve jeito, o Betão estava inconsolável: sofreu a decepção de ver que toda sua carreira de taxonomista binário —sim, os amigos tinham nome para a ocupação dele— tinha ido para o brejo.
     — Pois é, de bilboquê ninguém brinca mais.
     E daí em diante o papo de bar nunca mais teve a mesma graça.

9 comentários:

janpiter disse...

Very funny!
is it real?

Léo disse...

Existem as pessoas que são as chaves da conversa. Tipo a coisa gosmenta que une as pessoas. haha
mas pra mim, existe aqueles que sabem escrever e aqueles que não. haha

Diego disse...

Betão é daqueles caras que todo mundo quer sair junto para ouvir as pérolas no bar \o/

Tyler Bazz disse...

(nada! uma pechincha... na verdade eles só falam polônes.. entao eu dei um jeito, com gestos, de garantir que o texto do cartaz era contra o consumo de carne. consegui \o/)

Mariah disse...

adorei o texto. é seu?
só quem já frequentou mesa de boteco reconhece a verdadeira genialidade da sua filosofia...maldita lei seca.
o negócio é fazer filosofia dentro de casa mesmo.
beijos querido
mariah

Lari Nakao disse...

Putz Bruno. Todo mundo tem um amigo "Betão". Cheguei a essa conclusão lendo seu texto, como sempre, muito gostoso de ler. Boa semana.

Stephanie disse...

o mundo se divide entre as pessoas que são boa companhia para o bar e as que não são.

hahahaha
voltou bem, hein =)
beijo

Lua Durand disse...

o mundo se divide entre aqueles que brincaram de bilboquê e aqueles que nunca brincaram de bilboquê.

-

não me encaixo nessa divisão do mundo, nunca brinquei de bilboquê, e nunca consegui assobiar.

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seus textos são ótimos!

e a profissão do betão é o máximo.

=)

Monique disse...

Esse texto tem um quê de Luis Fernando Veríssimo...