8.1.09

Miau!

Era uma vez um poeta. Um poeta que, toda noite, afiava sua pena –a história começa há muito tempo atrás, tempo de escrever com pena–, acendia umas velas, preparava a tinta, essas coisas práticas, e depois pensava na amada, olhava para a lua, suspirava umas vezes, essas coisas de poeta. E então se punha a escrever. E escrevia bem, viu? Foi um poeta genial, caiu até no vestibular esses dias.
     Noite dessas, ele sentiu que vivia um momento mágico, uma catarse, um instante único de especial inspiração. As musas imortais sussurraram no seu ouvido que, naquele momento, sairia de sua pena a obra-prima que gravaria seu nome pelos séculos adiante. Coisa séria mesmo. Tomado pela solenidade, buscou sua melhor pena no armário, aprumou-se na escrivaninha e...
     — Miau!
     Não, ele não escreveu "miau". Ainda não era época de poesia modernista, então dificilmente ele faria sucesso escrevendo uma coisa dessas. Foi um gato mesmo, de verdade, que miou lá fora. Nosso poeta recuperou-se, pegou uma nova folha, molhou a pena na tinta e...
     — Miaau!
     Agora foi um miado mais forte –notaram os dois "aa"? O poeta, que não gostava de sujar as mãos com nada que não tinta, tocou a sineta, chamou os empregados —era um poeta fidalgo— e mandou que amarrassem, melhor, que amordaçassem o gato. Assim fizeram —escrevendo assim parece fácil, mas foi um serviço bem complicado amordaçar um gato– e ele escreveu. Escreveu como nunca na vida. Uma beleza.
     Na noite seguinte, ele pensava numa continuação, talvez um segundo canto para sua obra-prima. Afiou o cálamo, ajeitou tudo e começou:
     — Miaaau!
     Vejam que os três "aa" mostram que o gato estava cada vez mais abusado. O poeta bem que pensou em mandar apagar o bicho, mas –era um poeta ecologista– só repetiu a ordem: "amordacem-no". Tomaram uns arranhões, pegaram daqui, seguraram de lá, amordaçaram e ele escreveu.
     Na próxima noite, adivinhem? Batata!
     — Miau.
     Com um "a" só e sem exclamação, mas mesmo assim foi suficiente. E na próxima noite, e na próxima. Os capangas já estavam ficando bons no serviço, amordaçavam o gato com uma facilidade que só vendo. O tempo passou, passou e o gato miou, miou. E dá-lhe mordaça.
      Os anos passaram, o poeta morreu e o gato, que a essa altura via tudo como uma brincadeira, ficou deprimido e morreu também. Deu que o filho do nosso amigo decidiu aproveitar o sobrenome já famoso —que esse tipo de esperteza já é bem antiga— e virar poeta também. Fechou um contrato prévio com a editora, tomou posse do escritório do pai e foi escrever. Assim que se sentou na cadeira do velho, lembrou do que ele sempre fazia, pensou "para alguma coisa deve servir" e soltou "amordacem um gato!". Assim foi.
      A moda pegou. E todos os aspirantes a poetas da época e da redondeza pensaram "para alguma coisa deve servir". E os poetas mandavam e os capangas amordaçavam e os gatos levavam a pior. E ninguém sabia mais por quê.
     Os anos passaram, viraram séculos e, séculos depois, os estudiosos quebram a cabeça e publicam trabalhos livros artigos teses tratados discutindo o simbolismo do gato amarrado na tal escola poética. Diz, inclusive, que lá nos Estados Unidos lançaram um best-seller, O código do gato, que explica todos os mistérios da Humanidade e denuncia uma ordem secreta que há séculos conspira para silenciar a prole do gato-messias, e que logo chega por aqui com tradução do Diogo Mainardi.

5 comentários:

o amnésico disse...

Genial!

Dúvida: quantos gatos teriam sido amordaçados para produzir essa peça de fantasia?

Abraços mnemônicos!

Mariana disse...

Eu morro de medo de gatos! Eu ia mandar amordaçar o gato com toda certeza de que serve para alguma coisa......

ufss!!

banana disse...

eu ainda tenho futuro, se não mandar castrar os gatos aqui da rua... :)

passando pra informar: back to black - http://drops-de-banana.blogspot.com/

vamos ver se agora vai!
feliz 2009! :D

Tyler Bazz disse...

Eu to mais perdido que cego em tiroteio. Que história é essa de gato?!

Léo disse...

poxa, boa jogada envolver o mainardi no final. muito bom o trocadilho também com o código do gato, que importa o gato afinal de contas, né.