4.4.09

Diários de um sapo

Outro dia, no horário de almoço, passei em frente a uma obra onde os operários descansavam preguiçosos ao sol —o que é impensável para quem, como eu, tem pele sensível e não pode sair da lagoa sem filtro solar fator 60— e ouvi um grito que me fez o coração quase enroscar na língua. Ficaria até arrepiado, se tivesse pelos:
     — Ô, princesa!
     Princesa: a palavra mágica, a chave das portas da realeza. Aqueles fiu-fius —e uns tantos outros termos que não comentarei, pois sou sapo de costumes— soaram como trombetas, anunciando a minha libertadora. Mal podia esperar o suave toque daqueles lábios reais, que me demitiriam dessa vida de empregado batedor de cartão: um beijo e eu seria príncipe, finalmente!
     Doce engano.
     Desculpem a grosseria, mas não vi nada de princesa na senhorita alvo do chamamento. Não da minha ideia romântica de princesa, pelo menos. Se sobravam carnes saindo das roupas de tamanho um tanto inadequado, faltavam os finos tratos de uma filha da aristocracia. Não tinha nem ao menos uma aia de companhia, quem dirá andar carregada por servos embaixo de dosséis de seda.
     Definitivamente, pedreiros não entendem nada de princesas.

* * *
Faz tempo que nosso amigo sapo não escrevia por aqui. Clique aqui para ler mais sobre as dificuldades de ser anfíbio hoje em dia.

5 comentários:

Alberto Marques disse...

Muito bom, rssss.

Carol Montone disse...

certas princesas são tabajaras, mas todas devem ter seu valor..
beijoss
Carol Montone

Tyler Bazz disse...

Boa, sapo!

Criiis ;) disse...

Princesas estão em falta hoje em dia!

o amnésico disse...

Em nenhum dos sites sobre Biologia que consultei eu encontrei essa fase final, de príncipe, na metamorfose dos anfíbios.

Definitivamente, a Ciência não é nada romântica... :(



Melhor sorte na próxima!