1.2.10

Metallica

Engraçado que eu nunca tenha nem citado ele por aqui: Diego de Niro Gonçalves. Desfaço a injustiça hoje, assim com nome e sobrenome, porque o sujeito merece. Estamos aí, este ano, fazendo quinze anos de amizade.
     Pois há uns, sei lá, catorze anos atrás, o De Niro –estudamos em colégio militar, a gente ainda se chama por nome de guerra– apareceu na aula com discman e um CD de uns caras que eu não conhecia. E eu tirava sarro; pois é, vou dar o braço a torcer: eu tirava sarro. Bom, eu tinha doze anos de idade, acho que isso releva um pouco as coisas.
     Até que um dia ele achou a solução. Talvez ele nem lembre disso, mas foi um golpe de mestre. Golpe de mestre. Abriu o discman, tirou o CD lá de dentro, tirou a caixinha da mochila, guardou o disco e me esticou: "então toma, leva pra casa e ouve". De Niro nunca foi de aguentar desaforo.
     E eu ouvi.
     And justice for all, meu primeiro álbum do Metallica. Lembro de ter gostado especialmente de One, ouvindo One eu larguei definitivamente da minha opinião preconceituosa. Desde então minha paixão pelos caras cresceu. Cresceu a ponto de, no dia trinta de janeiro de 2010, eu me ver no meio de quase setenta mil pessoas num estádio, olhando o relógio a cada minuto, ansioso como poucas vezes na vida.
     Antes de começar, o James Hetfield perguntou, em bom português, se estávamos prontos. Não precisava perguntar, todos estavam prontos. Eu estava pronto. Há anos eu estava pronto. Desde o dia que o De Niro se encheu e me emprestou aquele CD.
     E então começou.
     Creeping death, For whom the bell tolls, The four horsemen, Harvester of sorrow, Fade to black, That was just your life, The day that never comes, Sad but true, Broken, beat and scarred.
     Quando vi a lua cheia subindo por trás das arquibancadas, pensei que seria perfeito ouvir Of wolf and man. Coisa minha. Sei lá, eu tenho alguma coisa com lobos, vai ver por causa da história do Mogli que meu pai me contava todo dia antes de dormir, todo santo dia antes de dormir. E também foi a primeira música que tocou –nem fui eu que escolhi, estava no shuffle– quando liguei o iPod para tentar me distrair logo depois de ter sobrevivido a uma tentativa de assassinato e que me fez sentir forte de novo na hora mais difícil da minha vida. "I hunt, therefore I am". Mas enfim, não é dos grandes sucessos deles, entendo a ausência no setlist.
     Não tocou Of wolf and man, mas tocou One, a música que me fez mudar de ideia catorze anos atrás. A música do CD que meu amigo me emprestou, o primeiro sucesso do Metallica na minha vida. Os olhos marejaram.
     Master of puppets, Blackened.
     Então, aos primeiro acordes de Nothing else matters, eu desabei. Chorei mesmo, de escorrer pelo rosto, e não me envergonho. "Couldn't be much more from the heart". Acho que é a música da vida de muito metaleiro por aí, e vendo a letra é fácil entender o porquê. "Never care for what they do".
     Enter Sandman, Stone cold crazy –Queen!–, Motorbreath e Seek and destroy.
     No final, o James mostrou o braço arrepiado. Sei lá, era eu e mais sessenta e oito mil fãs ali, mas eu também me senti responsável por aquilo, por ter deixado arrepiado um músico com tantos anos de praia, um sujeito calejado da estrada. Devem fazer isso em todo lugar que vão, mas foi legal ver os caras com a bandeira do Brasil, dizendo que se arrependeram por terem demorado tanto para voltar. Senti sinceridade, senti a emoção dos quatro, the four horseman. Porque terminaram o show, tocaram o bis -e que bis!- e ficaram ali no palco, Hetfield, Ulrich, Hammett e Trujillo, meio bobos, não acreditando numa recepção daquelas. E eu estava lá.
     (Acho que nunca escrevi palavrão aqui, sempre vem a primeira vez, então...) Foi do caralho, resumo assim.
     Foi do caralho.
     Valeu a espera de anos, valeu a ansiedade desde o dia do anúncio do show –pessoal do Twitter não devia me aguentar mais–, valeu cada minuto de viagem, valeu cada centavo investido, valeu ter aporrinhado, anos atrás, meu melhor amigo até que ele resolvesse me fazer provar do que eu ria sem conhecer.
     E, meu amigo, foi uma honra estar ao seu lado lá. Uma honra.

          "Fiquem juntos sempre, e tudo estará bem."
          -James Hetfield, 30 de janeiro de 2010
          

11 comentários:

Diego disse...

Não tem como comentar aqui sem começar a chorar. Minutos atrás eu fechei o navegador e mudei as musicas que estavam tocando para não começar tudo de volta.

Não tenho vergonha de dizer isso, mas foi a realização do maior sonho da minha vida. Quem acha que é um sonho bobo, que vá se lascar. Era o maior sonho da minha vida e ponto.

E não tenho como descrever a alegria de ter ao meu lado não um, ou dois, mas uma penca dos meus melhores amigos. Sim, melhores amigos, sem aspas. Daqueles que são para vida toda.

Dias atrás figurou numa revista sobre o metallica a capa com a frase: Nós sobrevivemos.

E acho que não tem frase melhor do que essa.

Inclusive, a sensação agora é a mesma do Frodo e do Sam, ao final da jornada. Sim, voltamos para casa, mas as coisas não são mais como antes. Desnecessário dizer, mas meu mundo mudou depois do que eu vi sábado, depois do que eu passei para chegar até lá, todos esses anos, desde aquele dia que um safado sumiu com meu discman. Mas por mais coisas que tenham acontecido nesse interlúdio de quase 15 anos, uma coisa não mudou: Nós sobrevivemos. Nós continuamos.

E vocês não sabem a minha felicidade ao ver o show do Metallica. Mas mais do que isso: Ver o show do Metallica com meus amigos. Puta merda, foi do caralho.

Diego disse...

E desculpe. Não consigo fazer melhor do que isso, agora. Ainda não me recuperei direito ;)

Bruno disse...

Acho que tudo já foi dito, eu também estava ansioso demais antes, e super cansado e feliz depois. Acabara de ver classicos que me fizeram gritar que nem doido, falar palavrões, e sentir arrepios daqueles aos escutar os primeiros acordes, e os refrões então foi de gozar litros. Ficava calado porque não conseguia expressar o momento. Vi os amigos de longe pela primeira vez, e mesmo se perdendo ali antes do show principal, o maradona conseguiu me ver e pronto: estavamos destinados a ver o show juntos mesmo.

Só tenho agradecer a parceria de bruno palma, diego de niro e os amigos presentes lá.

O Mineiro voltou pra terrinha sorrindo de orelha a orelha.

E QUE VENHA O PRÓXIMO!

Rob Gordon disse...

Me sinto honrado de ter feito parte dessa emoção sua e dos meus novos camaradas de shows, mesmo que isso tenha envolvido Paulo Ricardo no Altas Horas, Fresno e o garçom toupeira do Habib's.

Marlon disse...

Fááááála Bruno!

Assim é o rock! Arrastando multidões pelos corações. Depois que vi Pearl Jam, aqui mesmo em Curitiba, pensei: "Como é bom estar vivo." Deve estar sentindo a mesma coisa...

Recka disse...

e não é que se tal "de Niro" tinha uma fitinha inteira só com Enter Sandman, Nothing Else Matters e Unforgiven. Lembro muito bem quando a ouvi pela primeira vez.
A noite de sábado seria especial se fosse apenas o show do Metallica, mas não era só isso. A noite de sábado foi a celebração da história da nossa amizade.

Obrigado por esses 15 anos

Elga Arantes disse...

Adooooro Metállica e invejo vcs por terem ido ao show.

As músicas deles, quase todas, me trazem a tona lembranças fortes. Boas ou ruins.

Um beijo.

Fernando J. Pimenta disse...

Mesmo eu conhecendo pouco da banda, e tendo gostado sobretudo de Nothing Else Matters (do pouco que escutei), o texto está tão bom que dá pra captar nele o espírito do show, o clima ali na hora. E eu deduzo que foi fantástico.

ex-amnésico from hell disse...

"Seek and Destroy"! Essa mudou um pouco o meu conceito de speed metal. Mas senti falta de "Bathory" no set list. ;)
Pena que na hora de caçar o P2P, Hetfield & Cia se esqueçam de seus Garage Days...


Eu sei, eu sou chato mesmo. Ficando velho. The rust never sleeps!

Lubi disse...

Adorei essa história.
;)

Beijos.

Magnum Opus disse...

Nos últimos tempos editoriais eu ouvia constantemente – por tabela – a música "Of Wolf and Man", vinda dos seus fones de ouvido! No fim acabava ouvindo um album inteiro do Metallica. É tipo quando alguém lhe oferece alguma coisa pra comer e vc acaba querendo mais hehehe