16.6.10

O príncipe

Não vou ficar contando como se conheceram, como começaram a sair juntos, como ela o achara um fofo, o candidato a namorado perfeito, essas coisas, porque não é essa a parte da história que me interessa. A história para valer começa quando ela recebeu uma ligação. "Esteja no parque hoje, tal lugar, tal banco, tal horas; tenho uma coisa importante pra te dizer". Assim, decidido, deu nem tempo para ela responder. Pronto!, o final feliz estava perto.
     Todo aquele ritual. Umas duas horas para escolher colocar trocar destrocar roupa, fazer desfazer refazer maquiagem, insegurança, euforia, ansiedade. Ai, meu Deus, é hoje. Na hora combinada, mãos molhadas e boca seca, ela estava lá, sentada no banco.
     Só que nada do rapaz.
     Dez minutos e nada, quinze minutos e nada. Então ela pensou que o cara talvez não fosse perfeito, enfim. Ficou com vontade de chorar. Mas não, ele não faria isso, não ele.
     Até que então.
     Então ele saiu do meio do bosque, de trás de uma árvore. Pelo jeito, estava ali o tempo todo, observando. Ensaiando o que falaria, como andaria, para onde olharia, em que momento a beijaria, essas coisas.
     E então ele saiu do meio do bosque, de trás de uma árvore e veio andando em direção dela. Fantasiado de príncipe. Com aquelas calças que vão só até metade das canelas e colã branco por baixo, sapatinhos de tecido de bico fino, capa vermelha, chapéu com pluma, camisa de babado no colarinho. Fantasiado de príncipe, indumentária completa. Domingo, parque cheio. Fantasiado de príncipe.
     Talvez o rapaz tenha pensado que a expressão de choque da moça foi por causa da emoção, porque ele continuou com a performance. Puxou de trás de uma outra árvore um cavalinho de pau no qual montou e veio trotando pocotó pocotó pocotó na direção da garota. Então o pretendente parou diante da amada e, sem apear do cavalo, fez a proposta:
     — Eu sou seu príncipe. Quer ser minha princesa?
     E o mundo, que até então vinha se movimentando em câmera lenta, parou.
     O mundo parou para ver a cena. Quem estava fazendo cooper parou, quem estava andando de bicicleta parou, quem estava fofocando parou, quem estava namorando parou, quem estava tomando um caldo de cana parou, quem estava comprando pipoca parou, quem estava correndo atrás das crianças parou, quem estava correndo atrás da bolinha parou, quem estava ouvindo Latino no último volume do som do carro parou.
     Stop.
     Fantasiado de príncipe.
     Ela ficou em silêncio coisa de meio segundo, sem reação, mas foi praticamente meio minuto. Meio século. O príncipe estava ali, uma mão no cavalo e a outra –de luvas brancas, note-se– estendida em direção da princesa. Mais meio segundo passou, meio milênio, até que ela conseguisse articular resposta:
     — Não.
     Deu as costas e foi embora chorando. E o príncipe ficou lá, com cara de sapo.

          (Baseada em fatos reais, infelizmente.
          Amiga de um amigo meu.)

12 comentários:

Guguis disse...

Po, faltou um espírito esportivo aí!

Carolina disse...

ai coitado do príncipe!! q insensível!! hahahah

Magnum Opus disse...

Pior que foi real... esse que é o pior... E o príncipe deve estar até hoje se perguntando "Onde foi que eu errei".

R. disse...

Eu conheci alguns sapos...
E não sei não... esse aí com essa bandeira toda, só podia ser um sapo mesmo.

**

Leonardo Xavier disse...

Se isso tiver sido só corrobora com a minha teoria de que a vida consegue ser em alguns momentos mais surreal do que a arte.

Marina disse...

Não sei por que ela chorou. Eu ia rir muito.

Stephanie disse...

bom, acho que as meninas espertas (que sabem que não são perfeitas e sabem que vida real pode ter mais graça do que contos de fadas) preferem homens de verdade aos príncipes.

agora, numa boa, tirando o mico que esse sujeito se propôs a pagar e que assustaria qualquer mulher que nãos e acha a própria cinderela - acho que ele mereceu esse não pra deixar de ser pretensioso. Se príncipes existem, ele vêm disfarçados de caça jeans e camiseta - jamais fariam uma coisa dessas, porque é só lembrar do conto do príncipe e do mendigo.

beijo

Nathalia disse...

é... acho que alguém leu muitos contos de fadas na infância e levou a coisa a sério demais...

Crispi. disse...

Coitado do cara! Depois que um cara desse vira galinha, a mulherada reclama. Mas príncipe está tão, hm, demodê - como diria vovó.

Beijos.

Alyne disse...

kkkk eu rilitros...seu blog é legal..kando der da uma passadinha no meu blog e comenta o ulitmo post...
Seguindo segue o meu tbm...
http://princesinha-aline.blogspot.com/

Jullia A. disse...

cafona, com todo o respeito.

Camila disse...

Eu fiquei chocada e envergonhada ao mesmo tempo. Eu imaginei ela saindo correndo e ele lá parado olhando pro banco onde ela estava sentada, paralisado.
Se eu gostasse dele eu aceitaria, mas diria pra ele ir correndo, o mais rápido que puder trocar essa maldita roupa.