9.7.10

Digital

Dia desses, fui visitar minha avó e ela veio me mostrar, orgulhosa, as últimas fotos que tirou. A orquídea florida –dez ramos!–, o pessoal do grupo da terceira idade da igreja, o bisneto que foi visitar. Tudo direitinho, bem focadinho, bem enquadradinho. Tudo no visor da máquina digital.
     Sim, da máquina digital.
     Primeiro foi a televisão a cabo. Toda semana, algum neto tinha que relembrar de novo e de novo que botões apertar para ligar, desligar, assistir a novela, o Raul Gil ou o Silvio Santos. Até que um dia fui lá e ela esnobou, zapeou por tudo quanto é canal, mostrou um tal "reloginho que desliga a tevê sozinho" depois que ela já dormiu no sofá e coisa e tal.
     Depois chegou o celular. Toda semana era ir até lá deletar as mensagens de propaganda da operadora e sumir com "aquela cartinha que fica piscando na tela". Até que dia desses eu recebi um SMS. Vocês têm noção do que é receber um SMS da própria avó?
     Então veio o DVD –que ela insiste em chamar de dedevê, isso não tem jeito. Mesma coisa. Até o dia que cheguei lá e ela perguntou se eu não queria assistir um show do Sérgio Reis. Eu quis, claro. (Agora tem também o disco das fotos das férias com meu tio, obrigatório.)
     A boa da vez –voltamos ao começo da história– é a máquina digital, presente de aniversário para uma adolescente de setenta e três anos. Está tirando de letra.
     E agora eu chego à parte que interessa da coisa toda: minha vó era, até poucos anos atrás, analfabeta. Sabia assinar o nome, reconhecer o ônibus, ver o preço dos produtos, mas era analfabeta. Nasceu e cresceu na roça, aprendeu a colher e plantar, aprendeu a vida na cidade grande, aprendeu a criar os filhos e netos, aprendeu a vida, mas demorou para aprender as letras.
     Pois aprendeu. Porque –essa parte da história faltou– antes da televisão a cabo lá do terceiro parágrafo, eu ia à casa dela levar lápis novos, ensinar como se faz o "A" maiúsculo, olhar se a letra estava bonita e passar um ou outro ditado.
     E agora recebo SMS reclamando que demoro para aparecer, assisto o dedevê do Serjão Reis e vejo fotos digitais. Não demora muito, aparece um comentário aqui no blog.
     Essa juventude aprende as coisas rápido demais, meu Deus do Céu...

9 comentários:

Grasi disse...

Qdo vai ensiná-la a comentar aqui?! Talvez ainda nem tenha comentado por não saber da existência do blog...
Vou adorar saber que ela comentou aqui :)
Bjão e uma sexta super iluminada.

Casa de Mariah disse...

História fantástica. Eu, aos 38, já estou desanimada de começar qualquer coisa que seja.
Lição de vida!

poetriz disse...

Essas pessoas sabem aproveitar bem o tempo e a vida.

Bjs!

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Emocionante a cada linha Brunão, como sempre!

Nathalia disse...

Eu acho incrível as pessoas de idade que gostam de se atualizar nas coisas. Belo exemplo.

Ana Lu disse...

Hahaha, eu amei o post!
Acho que não demora pra ela aprender a comentar aqui, hein?
^^
Bjoss

Anne disse...

Ahhh, que coisa mais fofa isso, menino do acepipes! Adorei conhecer um pouco mais da tua nona... Sinto uma mega saudade da minha, que tb era simples como a sua, mas dona de um coração maior que o mundo! Adorei esse texto e parabéns pra ela!!! E da-lhe dedevê agora...rs.

Aliás, obrigada pela visita... te vejo a cada 65 anos, mas sempre me deixa alegre q vc use seu tempo lendo minhas palavrinhas! Obrigada!

Beijosss

Magnum Opus disse...

Vou contar essa história pro meu pai! Quem sabe assim ele se anima em aprender algo sobre esse tal de computador!

Anônimo disse...

bom comeco