20.8.10

Batatas

Um dia, não lembro quando, me servi num restaurante, um desses buffets por quilo do centro da cidade. Não lembro se foi essa a primeira vez em que estive lá. Não lembro do que peguei –meio prato de salada, uma colher de arroz, provavelmente–, só lembro das duas metades de batata.
     Eu estava sozinho na mesa, de frente para uma vidraça que dava para a rua. Lá fora era um dia ensolarado, não lembro se de inverno ou verão. As pessoas faziam fila para pagar no caixa, uma menina dessas estudantes de cursinho esbarrou com a bolsa de livros em mim –o que normalmente eu levaria como ofensa pessoal–, mas eu nem tomei muito conhecimento.
     Talvez eu esteja adivinhando ou inventando essas coisas mais do que lembrando realmente.
     Só o que lembro com certeza, com absoluta certeza, é das duas metades de batata. Benditas batatas. Lembro, também com certeza, de ter mastigado cada pedaço delas sorrindo de uma satisfação tranquila, esperando que tão logo não acabassem.
     Não saberei descrever. Tinham uma casca fina e dourada por fora, um queimadinho da assadeira quente na parte de baixo. Por dentro eram macias, úmidas.
     No fundo, era batata e só. Batata e mais nada.
     Quem me conhece sabe do prazer que tenho em comer. É o luxo que me permito. Não coleciono, não junto nada. Não dou a mínima para carro roupa perfume eletrônico equipamento o que quer que seja. Mas gosto de comer bem. Não muito, mas bem. E nada nunca me tocou tanto quanto aquelas duas metades de batata.
     Terminei de comer e fiquei ainda um pouco na mesa. Levantei, paguei a comanda e saí. Na rua, me arrependi de não ter beijado as mãos da cozinheira.
     Por anos eu voltei ao mesmo restaurante duas ou três vezes por semana depois disso, mas nunca mais almocei batatas como aquelas.
     É uma história meio ridícula, um segredo meu.
     Mas, sei lá, fiquei com vontade de contar isso hoje.

13 comentários:

Magnum Opus disse...

Quando quiser sair pra comer batatas ou qualquer outra coisa, estamos aí...

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Não sabia dessa sua faceta... Se algum dia vier almoçar aqui em casa, farei Badejo (ou Haddock) fritos no azeite com manteiga de alcaparras para nós.

Comer é um dos maiores prazeres da vida, sem dúvida nenhuma. Eu tenho muito respeito por quem gosta de comer bem.

gabi disse...

Ah! Eu achei divertido você falar das batatas dessa forma. Mas adorei a forma como você descreveu cada pedacinho desse post :)

Me lembrou um lugar em que eu almoçava quando estava no cursinho, que as vezes tinha comidas deliciosas, mas era tãotão as vezes que acho que deveria ser uma cozinheira substituta :'((

Adoro seu blog :**

Ana Lu disse...

Hahaha, adorei!
Eu tbm sou apaixonada por algumas comidas, e tem realmente aquela que vc come uma vez, e por mais que coma de novo, nunca vai ser igual..
hehe, espero que um dia vc reencontre essas batatas!
Beijos!

Marina disse...

Desde pequena adoro batatas. De qualquer tipo. Quase senti o gosto das que você descreveu. Só não está sendo muito bom ficar com vontade de comer batatas a essa hora da madrugada.

Ana disse...

Eu tenho uma memória dessas com uns croissants que vendiam na lanchonete de uma escola onde eu estudei quando era adolescente.
Comer bem é uma das melhores coisas da vida.

Nathalia disse...

Com certeza da pra contar nos dedos as coisas que sao tao boas quanto ou melhores que uma boa comida.
E mais uma prova de que nao precisa de muito pra um texto bom.

Dani disse...

Pois é, tem dias em que acontecem umas coisas boas na vida da gente, que depois não se repetem. Fazer o que, né?

Crispi. disse...

Todo mundo tem um segredo meio 'batatas' pra contar né? Eu também tenho um, mas conto não, não por ora :)
Beijos, adorei!

Pai do Pedro disse...

Essa coisa de comer pouco logo muda. É só continuar andando com os gordos....

Katiane disse...

Por acaso esse restaurante era o da "Nhonha" e a estudante era do positivo?
Boas lembrança daquele lugar.

... disse...

Antes de mais nada, quero lhe dizer que sua capacidade de expressão é incrível. O Leitor consegue imaginar detalhe por detalhe, como se fosse você próprio lembrando da cena. Parabéns pela sua capacidade de descrição, é uma capacidade admirável, não impossível, mas admirável, pelo fato das pessoas quererem tanto chegar ao fim do post, chegar ao resultado logo, que acabam esquecendo de descrever o que marcou a sua vida, mesmo que seja duas metades de batas :D Parabéns !

ex-amnésico disse...

Muito, muito bom — isso de um cara nem tão ligado em comida assim, mas que também sabe reconhecer esses momentos! Pena que nunca nos permitimos beijar as mãos das cozinheiras, né?


Mas ficarão na lembrança... ;)