27.7.11

A parábola dos porcos

Assim que ele, segurando a respiração, não pôde ouvir mais nada além da coruja no pomar, o menino segurou firme a lanterna e saltou, já de tênis e tudo, de baixo das cobertas. Esqueceu da tábua solta do assoalho e, quando a madeira rangeu alto, ficou ali paralisado, pensando que tinha botado tudo a perder. Mas não: o avô já roncou logo em seguida. Ufa, à missão.
     A missão era nobre, valia o perigo de uma aventura na madrugada –para quem dorme à oito, qualquer dez horas já é madrugada. O menino respirou fundo, girou a maçaneta e saiu correndo de uma vez só, sem olhar para cima –não precisava; nessa noite não havia morcegos nas tábuas do telhado da varanda.
     Eram agora as férias de inverno. Uns dias antes, o pai e a mãe o haviam deixado –junto com a mochila, a lanterna, o telescópio e uma pilha de revistas– no sítio do avô. A irmã teve que ficar na cidade, de recuperação em português.
     A coruja girou a cabeça, curiosa, quando viu a sombra passar pelo galpão, contornar a jaqueira –não é bom passar por baixo dos galhos; vai que uma bomba dessas cai na cabeça?–, e seguir na ponta dos pés em direção do chiqueiro. A lanterna ficou desligada mesmo: era noite de lua cheia. E que lua!
     A porca esparramava-se de lado, os porquinhos aconchegavam-se uns em cima dos outros. O avô dizia que porco é bicho esperto, sabe quando a gente chega com comida na mão e quando chega com a faca escondida debaixo da camisa. Mas o menino chegava com coisa melhor e, por isso, nenhum reclamou quando ele, chegando de mansinho, agachou rente ao cercado.
     Foi ganhando confiança, acariciou primeiro a mãe e depois os filhotes. Esticou os braços no meio das ripas e pegou um dos sete. Subiu o porquinho até em cima da cerquinha e notou, com alívio, que ele não se agitava. E então carregou-o no colo até o meio do terreiro.
     Na roça, onde não há postes que apaguem as estrelas, o céu cintilava cheio de luzinhas:
     — Olha só como é bonito. Tá vendo aquelas bem ali? É o Cruzeiro do Sul, eu aprendi na escola que é só saber achar ele no céu que a gente nunca vai se perder.
     Ficaram os dois ali, um momento meio solene, meio engraçado: um menino com os braços esticados, um porquinho suspenso lá em cima.
     — Aquela grande ali é a lua. Meu vô assistiu uma vez na televisão uns homens que viajaram até lá.
     O garoto repetiu com cada um dos filhotes –a mãe era pesada demais, mas quem sabe quando ele crescesse e ficasse mais forte?– o mesmo ritual. Mostrou a todos o Cruzeiro do Sul –pouco provável que um deles se aventure muito mais longe do que a cerca atrás do chiqueiro, mas enfim–, a lua cheia, as galáxias e até um avião que passava.
     É que, mais cedo, segurando um pedaço de broa de milho numa mão e uma revista dessas de curiosidades na outra, o menino descobrira que os porcos não conseguem olhar para cima. Foi um momento de revelação. Os porcos não podem ver o céu, e lhe pareceu injusto que alguém viva –e justo no campo, onde não há postes que apaguem as estrelas– sem nunca ver o céu. Daí a missão nobre, daí ele estar no meio do terreiro, com os braços cansados de segurar filhotes acima da cabeça.
     Talvez, na ingenuidade, ele nem tenha notado a indiferença dos porquinhos. Arrisco dizer que os bichinhos não deram grande importância, talvez nem se lembrem.
     Mas para o menino fez toda a diferença.

11 comentários:

Leonardo Xavier disse...

Algumas vezes a vida é assim mesmo. Importa mais a intenção do gesto generoso do que como as pessoas o percebem.

Juliana disse...

A história em si é simples...mas a forma como foi contada, a forma como você escreveu...emociona. Em pouco parágrafos visitei o sítio do meu avô...a jaqueira que tinha lá e muitas lembranças. Obrigada!

Letícia disse...

"Os porcos não podem ver o céu, e lhe pareceu injusto que alguém viva –e justo no campo, onde não há postes que apaguem as estrelas– sem nunca ver o céu."

Lindo texto!

Larissa disse...

Sempre leio o seu blog e nunca fiz um comentário. Sou assim, de poucas palavras. Mas, ao ler esse texto, me encantei e não resisti: tive que registrar a emoção. Parabéns por ter o dom de escrever textos singelos e tocantes!

Magnum Opus disse...

Talvez esse menino seja um daqueles que verão a Deus, os chamados "puros de coração"...

Aline C. disse...

Eu precisava comentar que a missão nobre do menino fez sim, toda a diferença :)


Lindo texto. Encantador.

Priscila disse...

Com toda a certeza, nenhuma palavra traduziria em comentário o encanto que tive nos últimos minutos. Reservo esse papel então às minhas lágrimas. Parabéns.

Mercúrio Cromo disse...

Af cara! me arrepiei! que perfeitoooo!!!

Manú disse...

Velho, uma coisa: fantástico. Temo que sete porcos, uma lua e um cruzeiro do sul no céu não possam revelar a singeleza que meus olhos acabaram de ver no seu texto.
Parabéns.
Abraços
http://www.manusoaress.blogspot.com

Claudia disse...

Nossa Bruno ... que texto lindo! E eu que nem sabia que os porcos não conseguem olhar pra cima ...

Mary Jane disse...

Seus textos são demais!! Estou fortemente emocionada com esse texto... um grande presente. Obrigada!