13.9.11

Voltar

E tem essa coisa de voltar. Quando era pequeno, entrava em casa e tinha a sensação de que, apesar de ter sido só um Sete de Setembro para a gente, ali dentro tinham corrido meses. Como aquelas contas de cachorro: um ano nosso equivale a sete para as poltronas e por aí vai.
     Corria na frente de todos para ser o primeiro a ver a cozinha, os quartos, o banheiro. Ia olhando aquelas pétalas caídas ao redor do vaso, o relógio do micro-ondas piscando zerado, um pano de chão esturricado no varal, as pias sem nem uma gotinha de água. Como um mundo recém-descoberto.
     É uma sensação que dura pouco, logo abre-se as cortinas e vai-se retomando tudo de novo. Ali está a partezinha amassada do sofá, a marca de panela quente na mesa, o lado da janela que não fecha direito.

* * *
Hoje eu vinha pensando em Deus enquanto fazia meu caminho de todos os dias. Engraçado como comento pouco sobre isso, mas é assim: penso em Deus enquanto caminho.
     De longe reconheci um bem-te-vi; é fácil saber pela cabecinha listrada de preto. Mas de longe pensei que, embora sem dúvida nenhuma fosse um, bem-te-vis são maiores e mais bravos. Só quando passei a uns poucos centímetros e ele não fez menção de fugir foi que me ocorreu a ideia de que era um filhote. Já grandinho, mas um filhote.
     Foi preciso que eu desse mais uns passos até me dar conta de mais: era um bem-te-vi, um filhotinho que ainda mal sabia voar, no meio de um cruzamento onde dali quinze minutos começaria o vai e vem de crianças chegando à escola.
     E então voltei. Não sei de quem era o maior medo, se o meu de machucá-lo ou o dele de ser machucado, mas peguei-o nas mãos. Fechei bem a concha para que ele não caísse; pareceu não ter nada fora de ordem, talvez estivesse só cansado do primeiro voo. O coraçãozinho acelerado. Convenhamos, amiguinho, que um cruzamento não é um bom lugar para descansar. Pensei em colocá-lo dentro do bolso da jaqueta, mas também pensei que a natureza sabe fazer seu papel melhor que eu.
     Ficou ali, entre os galhos floridos de uma glicínia.

* * *
Ontem à noite fui buscar água e a geladeira vazia me lembrou que hoje é dia de mercado. Desde pequeno adoro dia de mercado.

10 comentários:

Natalia Máximo disse...

Amo, amo o dia de mercado. Quando era criança, adorava ir com meus pais (:

Ana Lu disse...

Que bom que você teve sucesso na sua operação de resgate de passarinho. Eu contei uma história dessas no meu blog uma vez, mas o meu final não foi um sucesso. O bichinho tava manco na calçada, andando e caindo. Me deu muito desespero, eu e minha irmã resolvemos pegar pra cuidar dele em casa, só que quando fomos devagarinho pegar ele correu pro meio da rua, de medo, e DEITOU no meio da rua. Os carros passavam do lado e as peninhas dele arrepiavam. Nós não conseguimos ir pra rua buscar, porque não parava de vir carro, e se nos ajoelhássemos para pegar certamente éramos nós que seríamos arremessadas. Enfim, não sei que fim teve. Enquanto escrevo esse comentário rezo pra que ele tenha saído de lá. Voltei pra casa chorando aquele dia, e já tá me subindo o choro só de escrever esse comentário, ai meu Deus! hahaha
Beijos!

Marina disse...

Mais um texto que eu fiquei com a sensação de que eu queria ter escrito. Mas falta um pouco...

Eder Fabricio disse...

Ótimo texto. Gostei muito.
Parabéns.
Ao abrir a janela da minha sala me deparo com um ninho de rolinha. Acompanhei desde a eclosão até o primeiro vôo.
A mãe ensinava os dois a baterem asa. Um não batia... ela foi e bicou a cabeça dele (acho que dizia: -Acorde pro mundo meu filho, você precisa voar!).
A natureza realmente é muito bela. E presenciar esses fatos, no mínimo são presentes de Deus.
Abraços.

Crispi. disse...

Ah que leitura gostosa... me lembrei dessa sensação de voltar pra casa, que coisa maluca, achei que só eu me sentia assim..

ps. também salvo passarinhos, ou eles é que o fazem, talvez.

Magnum Opus disse...

Em tempos de inflação a gente fazia a compra do mês, as vezes com dois carrinhos... Hoje eu vou no supermercado pra comprar uma cenoura, um tomate, uma lata de milho...
E eu voltei... a correr no parque...

Charlie Dalton disse...

Um belo texto sobre o corriqueiro.

Anônimo disse...

Um dia vou te contar uma história feliz sobre idas ao mercado e passarinhos no chão. Promessa.

Anônimo disse...

Muito bom entrar no blg e ver um texto novo... Gostoso de ler como sempre! Giovana/Ddos/MS

Luri Barbosa disse...

Gente do céu... Você tem o dom de transformar tudo o que escreve em encanto.