12.12.11

Dez Negrinhos

(os livros e eu, cap. iv)

          Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
          Um deles se engasgou e então ficaram nove.
          -Agatha Christie


Eu devia ter, sei lá, uns dez anos e, depois do almoço, peguei um livro antigo do meu pai, daqueles amarelados e com as páginas meio caindo. Vou admitir que tinha um certo preconceito com aqueles livros porque eram amarelados e tinham páginas caindo, mas estava cansado dos meus de sempre –Gulliver, Sinbad, Mogli– e resolvi arriscar. A capa era feia. Chamava-se O caso dos dez negrinhos. Comecei a ler, como quem não quer nada.
     Eletrizante, essa é a palavra: eletrizante.
     Uma mansão numa ilha. Dez pessoas estranhas. Assassinato. Sobram, então, nove pessoas. Depois, oito e sete e seis.
     Era época de aula de manhã e nada para fazer à tarde –a lição de casa eu copiava, rapidinho antes de entrar na sala, de uma menina apaixonada por mim, que com dez anos eu era meio cafajeste, depois tomei jeito–, então pude me dar a um luxo que hoje em dia é raro: li tudo de uma sentada só. O dia já estava escurecendo quando fui chegando ao final do mistério, fervendo a cabeça com um monte de soluções e vislumbrando uma promissora carreira de detetive particular.
     Cinco pessoas. Quatro. Três.
     Mas eis que. Eis que.
     Quando virei uma página, dei com um trecho que, ué, pareceu meio familiar. Virei mais a próxima e mais outra: já tinha lido. Então notei que o livro tinha um defeito: trocaram na gráfica os últimos cadernos de impressão. Então, ao invés das últimas páginas, eu tinha umas repetidas da metade. Necas de final.
     Como o bendito devia ter sido comprado há uns vinte anos, era tarde demais para ir à livraria e pedir para trocar. Quando meu pai chegou em casa, corri para perguntar e ele me respondeu só uma risada divertida. Também não sabia o final.
     Até hoje não sei quem é o assassino. Ficou esse trauma na minha vida de leitor.
     E enquanto eu escrevia isso me veio à cabeça a ideia de guardar o livro para pregar a mesma peça no meu filho.

* * *
Este já foi publicado aqui faz um tempo, mas é que entra certinho nesta série...

7 comentários:

Juliana Correia disse...

A resolução do mistério é surpreendente. Vale a pena baixar na internet e ler independente da pegadinha que você aplicará no seu filho..

Ana Luísa disse...

Quando cheguei na parte do seu post que fala que o final era um pedaço da metade, pensei: - Já li isso no blog de outra pessoa, gente, será que todos os livros são assim???
Aí quando você colocou que esse post já foi publicado.. só posso ter lido isso aqui mesmo, hahaha.

Magnum Opus disse...

haha puta sacanagem! Mas o Google deve saber o final da história...

Leitora secreta disse...

Eu acompanho seu blog escondidinha desde 2007. Às vezes eu sumo, mas sempre volto pra ler suas coisas e adoro!!!

SUPER PARABÉNS!
Desejo sucesso e que ele sempre venha naturalmente.

gabi four disse...

eu li esse livro faz alguns anos. nem lembro o nome do assassino, maslembro que é o quarto ou quinto 'morto'. uhsauhsuha já sabe o final? desculpe o spoiler. haha

Alessandra Caroline disse...

Cooooooooomo assim nã terminou?
Deve procurar o livro e ler o final.
é muito bom, sério!

ex-amnésico disse...

HAHAHAHAHAHAHA! Adorei essa história!

Pelo meu lado, amo livros mofados, caindo aos pedaços e cheirando a... bem, livro velho. Sei lá, cada com sua mania...


... e quanto ao mistério... eu sei (li aos sete anos e não descobri o autor até o final)...

... deixo pro teu moleque descobrir!

;)