11.6.07

O sino

II
(Parte anterior: I)

Quando voltou do jantar, o sr. D. foi surpreendido pelo sino ao abrir a porta. Ainda não estava habituado a ele e, para um homem já tão acostumado à vida solitária, ter algo agora que o saudasse era uma novidade. Mas não deixava de ser agradável, um som até bastante simpático.
     O sr. D. deixou o paletó no cabideiro e sentou-se na sua poltrona preferida, à meia-luz, para apreciar um vinho que estava guardando há alguns dias para uma noite bela como esta. Era nestes momentos que lhe agradava morar sozinho, sem ninguém que perturbasse sua paz. Bebeu com prazer, deixou a taça na mesinha e fechou os olhos numa satisfação tranqüila. Acabou cochilando não mais que alguns segundos e ouviu, abafado, o badalar de um sino distante.
     Acordou tomado de uma sensação estranha, como a que tinha ao ficar muito tempo junto de alguém. Para o sr. D, afeiçoado durante anos à solidão, a presença de outra pessoa sempre causava um certo desconforto, como se lhe invadissem a intimidade. Então, súbito, foi tomado de uma certeza: havia mais alguém ali! O sr. D. explodiu num gesto brusco, girando a cabeça, certo de que ia dar de cara com um visitante inesperado, ali ao seu lado. Olhou em volta e não viu ninguém.
     Contendo-se, ele inclinou a cabeça e aguçou os ouvidos. Exceto pela sua respiração um pouco alterada e pelo pêndulo do relógio no corredor, tudo era o mais absoluto silêncio. Não se via nada, não se ouvia nada. Certificou-se de que a porta continuava trancada como ele a havia deixado. Deu com o pequeno sino imóvel, quase inocente e, claro —o sr. D era um homem racional—, que se a porta tivesse se aberto, a campainha ainda estaria agitada.
     Por um segundo, quando o sr. D. olhou pelo corredor, pareceu-lhe que as luminárias esverdeadas tinham uma brilho diferente, lúgubre. O que ele achou ser uma ilusão tola, pois, quando piscou de novo, tudo já lhe parecia absolutamente normal. Olhou pelos outros cômodos e só deu com as mesmas vistas a que já estava acostumado por tantos anos. Não havia ninguém no apartamento, o sr. D. continuava como sempre esteve: sozinho.

(próximo capítulo)

16 comentários:

zana disse...

quando vc irá lançar um livro para nós? adorooo vir aki!!!

Aline Ribeiro disse...

Eu tb tou escrevendo contos!
Dpois publico e quero tua opinião viu?
Por ora voltei ao bagaça, por ora...

Bjo queridão, valeu pela força

Pathaua Brasil disse...

saco, adoro suspense, mas odeio esperar por outros capítulos!
humpf :(
será que entrou alguém ou o solitário sr D. tá pirando de solidão?

Mariliza Silva disse...

Ah solidçao que faz voar o coração, querendo acreditar que não estamos sozinhos...e realmente não estamos né, estamos com uma nuvem de testemunhas!

Querido, adoro quando você me visita! o que escrevo as vezes é fácil de imaginar porque até pra sonhar sou realista! E o que escrevo é realmente o que quero que aconteça! (pena que nem sempre é assim...)

Beijão

Mariliza

Garota Enxaqueca disse...

Gostei!
Mas também não gosto de suspense...

=/

Volto em breve para ver a continuação...


=)

Jeniffer Santos disse...

opa...continuação logo..rs!
gostei daki,parabéns!


=*

dän disse...

sumi, senti saudades, voltei.

Adrian Masella disse...

Puuutz
adoro contos de terror....
achei seu blog nos comentários de um outro blog e vim xeretar!!
e olha só, gostei
asuehasueashe

visitarei com frequencia, mas AGILIZA O FINAL AI!!!!

Abraços!!!

Jana disse...

e eu que agarro o mouse na hora de ir lendo, com medo da próxima palavra...

Moço, fiquei super honrado com seus elogios, ainda mais vindo de alguém com espacinho tão bonito!

Peço permissão para te linkar.

Beijos,
Jana

Mônica Montone disse...

deve ter sido o vento, rs*

beijos, querido

MM

Anônimo disse...

Não está parecendo terror...suspense eu diria.
Efelis

Criiis ;) disse...

Não, ainda não li. To com muita vontade de ler, mais meu tempo ta acabando aqui. Passei mesmo só para deixar um beijo!

Caroline Bigarel disse...

Eu gosto de suspenses... o unico ruim é que fica sensação esquisita, depois.

rs.

ou seria, eu?

beijos!

*Clara* disse...

Eu amo a forma como vc descreve as situações em seus contos. Posso entrar dentro deles e fazer parte da história...de tão real que fica...

Beijo...

Lari Nakao disse...

Achei a parte II muito triste...até imaginei o rosto dele.

Claudia Lis disse...

“Olhou em volta e não viu ninguém.”

Minha nossa! O que seria isso??? Espíritos malévolos da floresta? Um ataque alienígena discreto? Alguém usando capa élfica ou da invisibilidade? E o detalhe é que essas coisas ou seres só aparecem de noite.

Ah, eu é que não vou mais ficar em casa sozinha (assim como o sr. D.) até esse caso se resolver.

Até breve, O Sino III