15.7.07

A metamorfose

Ah!, ser campeão. Ah!, ser campeão ganhando da Argentina. Ah!, ser campeão ganhando da Argentina de três a zero. Ah!, ser campeão ganhando da Argentina de três a zero com um time de guris que mal saíram das fraldas. Com esses pensamentos, e ainda ouvindo as cornetas do vizinho de baixo, seu Clicério se deitou. Dormiu. Amanhã é outro dia.

* * *
Hoje é outro dia. Já o estamos observando quando seu Glicério acorda, mas não é mais seu Glicério: é señor Glicerio –e com aquele som de “ce” no meio dos dentes que só um legítimo argentino sabe fazer. Señora Eulália já levantou e podemos ouvi-la, ao fundo, cantando Mercedes Sosa enquanto prepara o café da manhã, digo, el desayuno.
     Señor Glicerio levanta-se e coça a axila esquerda, bem em cima do escudo amarelo da sua camisa de la seleccion nacional. Vai até a janela. Uma mulata passa na rua, toda meneios e melindres. Ele assobia em elogio, muy hermosa, riquisima.
     É triste ver um amigo querido assim transformado, mas esta é a minha história e eu estou sádico hoje. E digo mais: enquanto toma banho, señor Glicerio canta Mi Buenos Aires querido, seu tango favorito. "Mi Buenos Querido, cuando yo te vuelva a ver, no habra mas penas ni olvido" etc.
     Nosotros viramos de costas quando se abre a cortininha azul e branca e ele tateia o suporte atrás de algo para se secar. Sai de baixo do chuveiro e se enxuga com sua toalha de banho preferida: a vermelha, com o brasão do River Plate. Chegamos até a tapar os ouvidos quando ele, todo disposição matinal, brada:
     — Aguante, Riverplate, el campeon inalcanzable!
     Ah, bons tempos em que ele era brasileiríssimo e comia pão com mortadela no café da manhã, enquanto lia o caderno de esportes no jornal. Nada disso. Muito menos do hábito de comer, na ponta da faca –o que era o horror de dona Eulália há trinta anos–, um naco da goiabada que a irmã trazia de Minas. Porque hoje nosso herói degusta facturas e alfajores. Nada do Henfil, hoje é Quino -en español, por supuesto.
     Antes de empezar suas atividades de todo dia, señor Glicerio (não esqueçam do “ce” entre os dentes, por gentileza) dá algum dinheiro para que señora Eulalia vá à peluqueria. Suspira ao lembrar de que, nos velhos tempos, ella costumava ser bela como Evita Perón, la presidenta.
     Enfim, passou o dia fazendo coisas de argentino, revivendo as façanhas do maestro Fangio, relendo Jorge Luis Borges. Não ouviu o Adoniran nem o Ataulfo no radinho de pilha, só uns tangos do Gardel. Suspirou ao lembrar-se do sol poente sobre o Rio da Plata (já era tão argentino que tinha saudades da terra natal). Foi à padaria lá pelas três da tarde, não para tomar uma média e contar piadas lusitanas, mas para lembrar aos brasileños -e ao português, de quebra– que Maradona é o maior jogador de fútbol que jamais pisou na face da Terra.
     Ao volver para casa, fez questão de contar ao porteiro –não pela primeira vez hoje– que foi o valoroso povo de sua pátria que inventou a caneta esferográfica e o autobus. Ensinou ao vizinho que el español es una lengua dulce e musical. E, não esquecendo a devoção, rezou, antes de dormir, a Nuestra Señora de Luján, patrona del pueblo argentino.

15 comentários:

Bruno disse...

Meus leitores argentinos que me perdoem. Mas futebol não é campo para sermos politicamente corretos.

:P

MA disse...

putz... voc~e falando de futebol... ai, ai...

E pensar que o Gardel nem é argentino.... hehehehe...

Felipe Dib disse...

valeu pela visita no mmeu blog ;D
gostei bastante do seu
voltarei com frequencia

parabéns

Lorita disse...

Como vc consegue ser tão criativo, heim moço?

Sou tua fã =]

Bjm

Adrian Masella disse...

Pobre Señor Glicério [com o ce entre dentes]!!

Mas eu acho que você não deveria pedir desculpas, afinal ganhar da argentina por três a zero, com aquele time de moleques, foi algo LINDO!!! Tirando o fato é claro, que foi um jogo de cumadres, não sendo tipico de Brasil X Argentina!!!

Alf. disse...

aaiuhaiauhaiauh isso eh o pior castigo que um mortal pode ter (os argentinos que me desculpem tambem)

mui bueno hã, mui bueno! (ops!)

Jana disse...

o som de "c" entre os dentes é sexy.

Quase tão sexy qto ver um argentino fazer um gol contra e ter um outro gol impedido

Diva disse...

parabens! Assisti o jogo. iam como zebra e bateram por 3 hehehe. Gosto do texto.
Bjs meus

Bia Ferreira disse...

"Meus leitores argentinos que me perdoem. Mas futebol não é campo para sermos politicamente corretos.

:P"
nem ligo muito pra isso, mas me pegou de surpresa essa vitória.. caraca com gol contra e tudo, devia ter assistido o jogo, mas estava tão empolgada com um Cd novo da Billie que não podia esperar...
Belo texto!!!!!!!!
(deu até inveja, no bom sentido!)

Elza disse...

Ganhar da Argentina é como ganhar sempre em 1º lugar!
rsrs..**
to passando para parabenizar pela indicação ao prêmio blog 5 estrelas!
=]

Carlos qualquer coisa disse...

Prefiro transformar-me numa barata a acordar com sotaque de língua presa. Hehehe...

Os textos do seu Glicério são os melhores. Você devia juntar os textos dele depois de ter uma boa quantidade e montar um livro: As Crônicas de seu Glicério.

Seria um bom livro de bolso ou de cabeceira.

Até mais!

Juliana Marchioretto disse...

adorei o jogo.
suspirei como não fazia há tempos...


beijo

Jô Beckman disse...

Essa copa américa foi tudo!!!

Claudia Lis disse...

Oi Bruno,

Metamorfose é isso aí mesmo! Virar folha acaba também fazendo parte da natureza humana. Seria exigir demais do seu Glicério que ele vivesse até o fim da sua vida totalmente fiel a um passado que pode já não ser mais a sua realidade.

Ah, e no coração do seu Glicério cabe Brasil, Argentina, Portugal, Espanha... Todos!

Yo tengo tantos hermanos
Que no los puedo contar


Beijos

Fernando J. Pimenta disse...

Virou a casaca e vestiu... ulalá!