9.2.07

Post pessoal

Ok, estou a 4000 metros de altitude, num país estranho, numa hora diferente da que meu corpo estava acostumado, falando uma língua que nao domino lá muito bem e lidando com um dinheiro do qual nao tenho muita nocao. E - onde o bicho mais pega - sozinho de tudo. Nem tudo é tao lindo assim, claro.
     Altitude nao foi problema para mim. Nao tive, como diziam, dor de cabeca, nem meu nariz sangrou e nem ao menos me senti cansado. Só no primeiro dia em Cocha fiquei meio sem fome, mas acho que pode até ser por causa do fuso horário. Quem em conhece, sabe que eu sou muito regrado - chato mesmo - com isso: passou da minha horinha de comer, nao como mais.
     Com o novo fuso horário eu estou quase acostumado. Afinal nao é tanta diferenca assim - 2 horas a menos. Só me deito meio cedo, lá pelas 22h00. Mesmo porque nao tem muito o que fazer depois disso.
     Comida é meio comlicado. Eu ainda nao conheci tudo o que eles tem aqui, entao vou ficando no cardápio mais brasleiro. Aos poucos me aventuro e vou provando as coisas que eles tem aqui. Tudo muito bom, mas ainda falta aquele toquinho brasileiro...
     Ainda nao tive problemas com roupas. As minhas dao para o gasto. Aqui em La Paz é meio friozinho, mas lembra muito o clima de Curitiba. nada a que eu nao esteja acostumado. Só estou repetindo as roupas mais que o habitual, afinal nao tem mamae para lavar minhas coisas aqui. (Ai, que vontade de falar com a minha mae...)
     Cuecas. Trouxe poucas para muitos dias. Como fazer? Eu as lavo no chuveiro, quando tomo banho. Ficam bem cheirosas com sabonete.
     Hoje me barbeei pela primeira vez desde que saí de casa, em Curitiba, no sábado a noite. Sem espuma, tive que resgatar uma técnica que há muito tempo nao usava: barbear-me com sabonete.
     Lembrei-me do capitao Pascarella, que ensinou no CFR que quando o combatente está de moral baixa, a melhor coisa é uma penteada no cabelo. Hoje, antes de sair, tomei um banho quente, fiz a barba, me perfumei, penteei e prendi os cabelos com cuidado e me senti novo em folha. Moral do combantente lá em cima! Aliás, muito do que aprendi no CFR está sendo relembrado aqui. Bons tempos, viu?
     Espanhol nao é muito difícil. Eu tenho o vocabuláro até que bem abrangente, mas em algumas situacoes o bicho pega. Aí o negócio é apontar para o que ser quer, uma linguagem universal. O engracado é que nao adianta falar portugues, eles nao entendem em uma palavra.
     Bolivianos. Demorei um pouco para chegar num cambio legal, e cheguei a conclusao que um boliviano vale 25 centavos de real. Arredondando, claro. A conta mais certa é com o dólar: uma verdinha dá exatamente 8 bolivianos. Alguns deles aqui chamam a moeda de peso, nao sei por que raios.
     Estar sozinho é complicado as vezes. Nao encontrei nenhum brasileiro até agora e sinto falta de falar um pouco de portugues. Sinto falta de conversar também, seja lá em que língua for. mas quanto a isso já estou ficando mais atrevido, vencendo minha timidez e puxando papo com os turistas. As vezes eu invento assunto para puxar papo. eu até sei onde ficam as coisas, mas pergunto no hotel como se faz para chegar, só para conversar um pouquinho.
     A verdade é que eu nao pensei que fosse me sentir tao sozinho. Ontem mesmo eu me senti meio triste, a noitinha. Comecei a ficar com medo de que desse algo errado, que me roubassem o dinheiro ou sei lá que diabos me acontecesse. Mas logo passou. Quando estou na rua, eu me sinto feliz, forte, livre como nunca na vida.
     Cheguei a conclusao de que nao é legal ficar muito tempo de bobeira no hotel. O negócio é estar no meio das pessoas. Quando estou na rua, eu estou sempre feliz. Em alguns momentos me emociono pensando em tudo o que de bom está acontecendo comigo nesta viagem.
     Enfim, nada que eu nao possa vencer. Estou conhecendo melhor a mim mesmo, superando e ampliando meus medos, minhas limitacoes. E se antes eu já me considerava um homem forte, firme, quando terminar esta jornada, sei que nada mais no mundo vai me derrubar fácil. Porque medo todo mundo tem, e cabe a cada um a decisao de enfrentá-los ou render-se a eles. Coragem a gente forja um pouco mais a cada dia.

* * *

Ah, sim! Estou frustrado: nao vi NENHUMA lhama até agora. Digo, nenhuma lhama viva. Porque no mercado aqui tem uns fetos de lhama secos, umas belezinhas. Posso levar para quem encomendar.

8.2.07

La Paz

Para ser sincero, La Paz não tem muito de paz, não. A cidade é, como dizer?... vibrante. Buzinas, vendedores, ônibus barulhentos, apitos de guardas e gritos dos cobradores de van. Tudo aqui é na base do grito. "Cementerio, helatinas, Fátima, plaza Murillo, um boliviano, choclo, choclo!"
          Acordei hoje meio tarde - 8h00 - e saí para tomar café. Descobri que aqui no café onde eu já virei freguês eles têm buffet pela manhã. Aí, sim, tirei a barriga da miséria: leite, iogurte, cereais, frutas, pão e chá - de coca, claro. Cá entre nós, como as frutas do Brasil não tem igual, mas quebra-se um galho. As deles são meio aguadas, parece. E o abacaxi é azeeedo...
     Andei pela avenida Mariscal Santa Cruz, a principal daqui. É muito bonita, muito agradável. Bem larga, com um canteiro central no meio. Um canteiro que mais parece um parque - eles chamam de prado -, com bancos, jardins e vários monumentos. Vi de tudo, de Burger King a escritório da Varig e um Banco do Brasil.
     Na hora do almoço, voltei para o hostal e decidi me mandar de lá. Nao estava me sentindo bem. Consegui vaga no que eu queria - onde não tinha lugar ontem. Quarto maior, suíte, mais limpo, mais claro e - fiquei feliz da vida - mais barato.
     Decidi almoçar com classe. Entrei no restaurante mais caro que encontrei no guia - abençoado guia que eu decidi comprar no Brasil - e pedi um menu completo, com salada, entrada e prato principal. E não pensei duas vezes, para segundo, como eles dizem, pedi um belo bife de lhama! Olha, cá entre nós de novo, não tem nada de especial. Falando de textura, parece um bife duro. O gosto é até que bom, bem suave, e lembra um pouco fígado. Acho que sou mais uma boa picanha bem suculenta.
     Logo quando saía do restaurante, entrou um rapaz com uma camiseta da bandeira do Brasil, acompanhado de uma menina. Corri atrás, feliz da vida, e perguntei se eram brasileiros. Nada. Não falavam nem espanhol, quem dirá o bom e velho português. Deviam proibir esses gringos de usar nossa bandeira, eles que usem as bandeiras feias e sem cor deles.
     Depois, andei mais pela Mariscal - gostei da avenida - e fui até a Plaza Murillo, o centro político da Bolívia, quintal da casa do presidente Evo. Muito legal lá. O pessoal todo sentado nos bancos ou nas escadas, bem na boa, tomando sorvete, conversando com os guardas - guardas armados de metralhadora, bomba de gás e escudo - ou dando de comer para os pombos. E quantos pombos! Na plaza, não precisa ser lá muito esperto para notar que sao três os prédios importantes: o Palácio Quemado, casa do meu amigo Evo, o Palácio Legislativo, muito bonito, e a catedral, enorme, demorou 150 anos para ficar pronta. O presidente não deu o ar da graça, infelizmente, mas eu tirei fotos da janela dele.
     Ainda no centro, vi a prefeitura de La Paz, um predinho meio europeu, e várias igrejas. Aqui tem uma em cada esquina, e uma mais linda que a outra. Também a cada um quarteirão que se anda, você encontra policiais, com seus uniformes verdinhos. Aqui só tem a Polizia Nacional, que faz tudo, desde cuidar do trânsito até guardar as portas dos bancos. E é incrível como são amistosos, bem diferentes dos nossos PMs.
     Na volta, fiquei notando como eles aqui são exatamente iguais aos brasileiros. Gente como todo mundo, sabe? Vi roqueiros, hippies, rappers, cabeludos, emos, criancas de uniforme escolar - um charme os uniformes deles, de sainha e gravatinha - e até o pessoal da maromba com seus pit bulls. Um grupinho de estudantes brincava de jogar bexigas de água nas meninas. Parecia divertido. A vida aqui, aliás, parece divertida, despreocupada.
     Um parágrafo à parte merecem os americanos. Hay muchos aqui, e eles não têm vergonha nenhuma de serem ridículos. Vi uma menina com um colete salva-vida laranja - detalhe que a Bolívia nem tem mar -, altos gringos bicho-grilo, um rapaz de pantalonas amarelas com bolinhas roxas e um tiozinho de conjunto safári completo - chapeuzinho, colete de pescador, bermudinha, sapato e meias esticadas até as canelas. É como diz o seu Zé Mauro: "dá trabalho criar um bobo, mas depois de criado, dá gosto!"
     Já noitinha, encontrei um grupo que me pareceu de japoneses. Como tem uns bolivianos de olhos puxados que enganam a gente, andei bem devagar para escutá-los. Eram japoneses! Não resisti e tasquei meu nihongo neles. Tinha que ver a felicidade deles. E eu saí mais feliz ainda, por ter conseguido conversar uns dez minutos em japonês, com japoneses de verdade. A Miyoko sensei vai ficar tão feliz quando eu contar...

* * *

Hoje comprei láminas para afeitarme. Entrei numa farmácia e encontrei as mesmas que eu uso no Brasil: Gillete Sensor Excel descartável - olha a propaganda. Importadas daí do Brasil. Hecho en Brasil, como se dise aqui.
     No Brasil, um pacote com 4 não sai por menos de R$ 6,00. Adivinhem quanto eu paguei? 8 bolivianos, menos de R$ 2,10. As mesmíssimas giletes. Viver no país dos impostos é fogo. Quando voltar, vou virar traficante de produtos de higiene pessoal e ficar milionário.

Cocha - La Paz

A viagem de Cocha para la Paz merece um post exclusivo. Bela aventura.
     Na rodoviária, dezenas de adolescentes barulhentos ficam tentando pescar clientes para a companhia deles. Gritam todos sem parar e ao mesmo tempo. "La Paz, La Paz, Sucre, Potosí, La Paz..."
     Seguindo meus instintos, fui direto ao guichê da companhia que me pareceu mais legal. O Expreso El Dorado.
     Embarquei às 9h30 e admito que fiquei aliviado porque quem sentou ao meu lado não foi uma chola, mas uma vovozinha simpática. Educada, limpa e coisa e tal. Gente normal, na minha concepção meio preconceituosa.
     Antes de sair, entram pessoas no ônibus para vender coisas. Igualzinho nos filmes. É choclo para cá, pollo para lá - imaginem frango dentro do onibus! - e mais umas coisas que não consegui entender, todas muito coloridas. Fiquei impressionado com a solidariedade das pessoas quando entrou um cego pedindo esmolas. Todas as pessoas, até mesmo as cholas mais pobres, lhe deram uma moeda. Logo depois, entrou um rapazinho simpático, dsempregado, que canta para ganhar a vida. Dei a ele cinco bolivianos só porque cantou uma do Rei Roberto. En español, claro. "Usted es mi amigo de fe..."
     A viagem é bem monótona. O ônibus vai serpenteando entre as montanhas, é curva que não acaba mais. Tudo muito marrom, senti falta do nosso verde brasileiro. E dá-lhe subida, parece que a gente vai chegar no céu. E muita gente parece que chega: ao longo da estrada, tem muitas cruzes, mas muitas mesmo. Estrada perigosa, carros velhos e motoristas bolivianos não parece ser uma combinação lá muito boa.
     Todas as vezes que o ônibus pára, seja para embarcarem passageiros ou pagar pedágio, dezenas de mulheres correm - correm literalmente - para vender comida. E vendem de tudo que se possa imaginar, sempre, claro, gritando sem parar, ao mesmo tempo e desesperadamente. Reparei que o choclo é um preferido por aqui.
     Paramos para o almoço no lugar mais imundo que eu já vi na minha vida. E fedido - e olha que aqui eu já vi muita sujeira, viu? Desci mais para esticar as pernas mesmo. Não tinha nada industrializado, no pacotinho fechado e não tive coragem de pedir nada. Fiquei meio decepcionado comigo mesmo. Entrei de novo no ônibus e a senhorinha tirou duas maçãs da bolsa. Na hora eu pensei: "meu Deus, como iria bem uma frutinha agora". E então ela me ofereceu uma! Eu fiquei tão feliz que até exagerei no agradecimento:
     - Muchisimas gracias, señora. Díos la bendiga!
     Todos de barriga cheia, saímos e o motorista colocou na TV, então, um filme mexicano sobre um padre. Chato. Dormi.
     Na beira da estrada, passamos por várias vilas e fiquei triste com o que vi. Umas casinhas que fariam qualquer barraco de favela brasileira parecer um palácio. Nunca vi tanta pobreza na minha vida. Miséria absoluta mesmo.
     Chegando em La Paz, o episódio mais engraçado até agora - mas que bem poderia ter sido triste. O ônibus vinha a milhào por hora, e, numa curva, apareceu um caminhão atravessado na pista, saindo de uma obra. Bela freada! E adivinhem? Nosso motorista desceu na hora, abriu a porta do caminhào, puxou o sujeito para fora e sentou-lhe a porrada! Dois belos diretos de direita. Ficamos parados, todos os passageiros na janela xingando o pobre - inclusive minha amiga vovozinha -, até que chegou a polícia. E dá-lhe carajo e putamierda!
     Chegamos com chuva em la Paz e eu já pulei dentro de um táxi. O trânsito estava uma mierda, com o perdão da palavra. Devia estar acontecendo alguma coisa no centro, porque várias ruas estavam fechadas e ouvia-se tiros de canhão e gritos do povo. Quem sabe um pronunciamento do presidente Evo e eu perdi?
     O hostal que eu tinha escolhido - aleatoriamente - no guia não tinha quartos. Uma pena porque era muito bonito. Acabei ficando num outro perto. Meio moquifo, quando entrei me bateu até uma tristeza.
     Saí para jantar na calle Sagárnaga, carinhosamente chamada pelos paceños de "alameda dos gringos". Entrei num café muito bonito e pedi o famoso mate de coca e um belo sanduíche para matar a fome acumulada da viagem. Decepção: o chá tem gosto de mato, nada diferente do chá verde. Tomei só de curiosidade mesmo, porque - fiquei muito feliz com isso - não senti efeito nenhum do soroche. Subi umas ladeiras enormes com a mochila - pesada em 15,4 kg no aeroporto - nas costas e nada. Estou inteirão!
     Voltei para o hostal e ouvi gente falando inglês na cozinha. Corri para ver. Eram quatro americanas simpáticas. Uma delas morou um ano em Campinas e outra, meio coroa, dez anos na Argentina. Conversamos um pouco, trocamos figurinhas, eu fiz um chá de coca e fui deitar. E no cansaço que estava, o quarto nem me pareceu mais tão mal assim.

7.2.07

Cocha, para os íntimos

Já no avião, o piloto avisou: 40 graus em Cochabamba, e um céu de dar inveja a Curitiba. Claro que meu amigo niño berrou para comemorar. Descobri mais tarde que ela é conhecida por ciudad de la primavera eterna. Título justo.
    Peguei o táxi no aeroporto e fui direto para um hostal que tinha escolhido no guia da Folha. A escolha foi aleatória, mas não poderia ter sido melhor. Quarto limpo e muito barato - o equivalente a uns 4 dólares. Aliás, tudo aqui é barato. Muito barato mesmo.
     A cidade é... como explicar? Sabe aquelas partes do centro velho que voce nem gosta de passar porque é perigoso, com ruinhas estreitas e muita gente suspeita? Pois é. Agora coloquem mais um monte de carros, um monte mesmo, todos buzinando ao mesmo tempo e nenhum respeitando nenhuma lei de trânsito. Multiplique por cinco e isso é o centro de Cochabamba.
     O povo é muito simpático - mais uma coisa de fazer inveja a Curitiba. É incrível como você olha para uma pessoa na rua e ela te sorri e cumprimenta. Nos locais em que entrei, todos fizeram o possível para entender meu espanhol. Fica aqui até uma dica: abre portas entrar num lugar e pedir na língua deles, pagar com dinheiro deles. Mesmo que você fale errado, as pessoas entendem e ficam felizes em ver seu esforço de ser como elas, e te tratam mil vezes melhor.
     Mas, se por um lado, eles sao simpáticos, por outro são meio boca-suja. Bocas que minha mãe lavaria todas com sabão. O que se ouve de carajo, mierda e putamierda não está no gibi. Mas é só stress de trânsito. Que é, diga-se de passagem, simplesmente caótico. Primeiro que nunca eu vi tanta Pajero na vida - aliás, Montero, o nome é diferente porque pajero aqui é palavrão, não que isso fizesse muita diferença. Depois que os ônibus sao um capítulo à parte. São quase todos daqueles ônibus escolares americanos amarelos sucateados. Só que não são amarelos, são verdes, brancos, vermelhos, azuis e amarelos. Tudo junto, em padrões meio psicodélicos. Foram ótimas as lições que eu tomei com meu grande amigo De Niro, atravessar a rua aqui é sempre uma aventura. Eu me senti a própria Mulata Globeleza com um monte de carros buzinando para mim.
     Voltando ao povo, eles são ótimos. É fácil ver que hay dos tipos de cochabambinos: os bolivianos, digamos, e o aymarás, descendentes de índios. As mulheres aymará sao facílimas de indentificar: usam umas saias que o pessoal da Máfia já conhece - piadinha interna -, chapéu coco no alto da cabeça e sempre carregam um tipo de um xale colorido nas costas. Dentro dos xales, que viram umas mochilinhas, vai de tudo, desde roupas e comida até crianças. Muito prático, só não comprei um para mim porque nao descobri como se amarra. Já os homens aymará são todos iguais ao presidente Evo. E o resto dos bolivianos são exatamente iguais aos brasileiros. Teve horas que me senti andando no centro de São Paulo. Até emo eu vi aqui!
     Fora isso, em Cocha - já virei íntimo - não há muito o que ver. A plaza principal é muito bonita, mas uma volta já basta. Tinha um pessoal acampado lá, da reforma agrária, com ovelhas, galinhas e tudo, e eu não quis tirar muitas fotos para não atrair olhares furiosos e acabar virando refém de campesinos revoltados. Consegui entrar na catedral e me emocionei, é linda, "riquisima" como se diz aqui. Andando um pouco mais, chega-se a um parque, mas nada espetacular. Há outros lugares, como o Cristo da Concordia e o Monumiento a las heroinas, mas acabei não vendo nenhum dos dois. O dono do hostal me disse que es peligroso, ainda mais sozinho. Cara muito gente fina, aliás, me deu várias dicas de como sobreviver na Bolívia.
     Nao senti efeito nenhum do soroche, o mal de altitude. Tirando que passei o dia inteiro sem nenhum apetite. Comi só um pão com zumo de naranja, meio empurrado. Bom, porque assim eu economizo um pouco. Aliás, comer aqui é complicado. Não encontrei nada parecido com a concepção de mercado que nos temos no Brasil. E sabe aqueles botecos imundos que sua mãe ensinou que não servem nem para tomar um copo de água? Pois é, 95% dos lugares aqui são assim. E olha que quem me conhece sabe que eu nao sou lá muito exigente com isso...

* * *

Acordei no meio da noite com trovões. Choveu pra dedéu. Quando dormi de novo, acordei com a campainha do hostal e alguém batendo na porta. Se bem que "batendo" é eufemismo meu, o cara quase trouxe o lugar abaixo. Olhei no relógio - meu celular só serve pra relógio - e eram cinco para as seis da manhã. O pessoal acorda cedo por aqui.
     Tomei meu desayuno e me mandei para a rodoviária para ir para La Paz. Tempinho feio. Mas isso é o próximo capítulo.

6.2.07

E começa a aventura

A aventura começou para chegar ao aeroporto. Cheguei no Terminal da Barra Funda para pegar um ônibus especial que vai para Guarulhos. Isso eram 6:50 da manha. E o ônibus saía às 6:55!
    Eu nao sabia nem onde pegar o tal, mas ainda consegui a tempo comprar a passagem e embarcar.
    Chovia forte desde a madrugada - um tempinho ótimo para eu ter ficado debaixo das cobertas - mas lá estava eu, saindo rumo à maior aventura da minha vida. No rádio do ônibus, tocava Here comes the sun, dos Beatles. Um bom sinal.

* * *

Peguei o vôo para Assunción, no Paraguai, onde faria conexão para Cochabamba. Um pessoal resolveu se estressar quando o avião demorou, mas eu mantive a calma, mesmo quando um boliviano veio e me perguntou um monte de coisas ao mesmo tempo, finalizando com carajo no final. Eles nao têm muita paciência para as coisas, mas são muito boa gente. Virei hermano já.
    No avião, veio um niño gritando e chorando o tempo todo. "Jugando", como disse a mãe dele. E adivinhem do lado de quem? Pois é. Consegui dormir uns dez minutos só quando o pestinha resolveu fazer a siesta dele também.
    Mas foi tudo certo, consegui fazer a conexão sem problemas, apesar do atraso. E quando procurei meu assento no avião para Cochabamba, adivinhem quem estava bem do meu lado, já gritando a plenos pulmões? Certas coisas só acontecem comigo...

2.2.07

Diário de viagem - prefácio

De hoje em diante, o Acepipes vai ser um blog convencional. Vou usar o espaço gentilmente cedido pelo Google - eles ainda dominarão o mundo! - para contar que horas acordei, o que comi e coisa e tal. Quem sabe até fotos!
     Mas calma, eu explico. Estou saindo de férias hoje. Mas nada de ficar o dia inteiro de pijama morcegando em casa. Desta vez eu resolvi encarar uma aventura. Uma aventura de verdade. Na próxima terça-feira, eu me empirulito para os Andes, lá em cima, e fico por lá até dia 26.
     O plano é simples: desembarco em Cochabamba, na Bolívia, e vou viajando até Machu Picchu, no Peru. Agora como se faz isso eu vou descobrir na hora. O pessoal achou meio loucura quando soube que eu vou sozinho, mas, cá entre nós, para mim esta parece ser a parte mais legal da história toda.
     Vou comer empanadas, beber chá de coca, ver as lhamas, descansar no lago Titicaca, andar em ônibus cheio de galinhas, rezar para Nuestra Señora de Copacabana, falar portunhol - o meu é fluentíssimo - e ouvir discurso do Evo Morales. Quem sabe até encontre uns pedaços meus que eu andei perdendo aí pelo ano passado.
     Enfim, meu blog vai virar um diário de viagem durante este tempo. Afinal de contas, mamãe precisa de notícias. E para quem acha loucura, esperem só até eu voltar com as fotos. Vocês vão babar de inveja!
     Prometo trazer um CD especial com as mais belas canções de flauta boliviana a todos que comentarem aqui.

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p.s. Se for baratinho, eu compro umas lhamas e fico por lá. Eu sempre quis ter uma lhama.