24.8.07

O escultor

V
(leia as partes anteriores: I, II, III e IV)

Dias depois, feita a ceia, o escultor surpreendeu o padre J. com um pedido: queria se confessar. A mão ferida estava piorando, era agora um inchaço de pus e sangue coagulado. Embora o homem ainda mostrasse disposição para trabalhar, o padre temia por sua sanidade. Ele ardia em febre por quase todo o tempo e esculpia por longos períodos sem parar, de modo que o último painel, o inferno, estava agora quase pronto.
     A hora não era apropriada, mas o padre J. não questionou o pedido. A qualquer hora que fosse, ele cumpriria seu dever de pastor. Colocou a estola roxa, tomou uma luz e mancou até a igreja, onde sentou-se no confessionário. O escultor ajoelhou-se com dificuldade e começou seu relato. Contou da infância difícil, do pai que nunca conheceu, da mãe prostituta morta de febre, da casa dos tios cruéis, das surras que tomou, do dia em que fugiu e de quando, quase morto de fome, foi acolhido por seu mestre.
     O homem, que começara balbuciando as palavras, foi erguendo a voz, num delírio febril. O padre se esforçava para entender o porque daquilo tudo, até que chegou a parte que lhe dizia respeito: "e então o senhor me chamou para trabalhar, padre, e eu não poderia perder esta oportunidade".
     O chamado do padre fora a oportunidade para sair da vida medíocre que levara. Numa igreja como aquela, uma obra-prima da arquitetura, ele poderia escrever seu nome na História. Mas, quando iniciou o trabalho, ele viu que suas figuras não tinham emoção suficiente, não estavam à altura da missão que ele mesmo se impusera. Como esculpir o doce deleite do paraíso? Ou o êxtase de esperança do purgatório? Ou a agonia dolorosa do inferno?
     Então ele descobriu a resposta. Encontrara inspiração, conseguira as expressões de que precisava e as eternizara no mármore da igreja. Agora falava rápido, absolutamente seguro de si, como se terminasse de desenhar diante do padre um quadro grandioso, que justificava todos os seus atos. "Fui eu, padre, quem matou aquelas pessoas".
     Como era seu dever, o padre J. rezou pelo perdão dos pecados do homem embora não conseguisse articular nenhuma palavra. Quando saiu do confessionário, o escultor estava de volta sentado diante dos seus instrumentos de trabalho, no escuro. Faltava somente uma figura no painel.
     O padre arrastou-se para a sacristia, oprimido pelo segredo que tinha de carregar. Passou a noite remexendo-se na cama, pensando atormentado sobre o que deveria fazer. E na igreja soava o bater do cinzel na pedra.

9 comentários:

Inhame Filosofante disse...

uia... rapaz... eu já imaginava algo assim... mas fiquei pensando como ele proporcionou cada uma dessas emoções as suas vítimas.... muito bom

Paulo Bono disse...

Yeah. Keep walking.
abraço

Lorita disse...

Oi queridão, mais um conto em capítulos? ai q dpois passo pra ler tu-doooooo

Bjm

Adrian Masella disse...

Nosssaa....sinceramente, eu pensei em dois finais!

Aquele que o escultor realmente estava matando as pessoas!
E aquele que o autor [vc mesmo safado], nos fazia crer que fosse ele, e no final seria outra pessoa!

Mas eu nunca imaginei que ele fizesse aquilo por amor à arte! Para tentar fazer o melhor que pudesse, e deixar seu nome gravado pra sempre na história!!!

Muito bom o conto Bruno!!
parabens cara!

Mariliza Silva disse...

Uauuuu

Não é que temos um escritor de primeira aqui conosco, heim!!! Escondendo leite, né!rsrsrsrsrs

Parabéns!!!! Estou encantada com seus textos!

Beijão
Mariliza

Luana disse...

;OOOO
meninooo, eu pensei em tudo menos nisso! mt bom viuuuu?
:**

Alf. disse...

asiusahsaiuhsa cara, eu sou teu fan... aiushasiuashasiu po#*@ que historia rox cara! pu*&#@ me#*&$&@!!!!

poh no inicio eu pensei que o cara fosse um vampiro, dia teve a parte em que ele saiu de dia... dai vi que não tinha lógica, mas que talvez ele pudesse usar um protetor solar fator 50... mas creio que não seja o caso...

flw ae brow! fica na paz!

Rob Gordon disse...

Cara, mais uma indicação para vc para o Blog 5 estrelas. passa lá no Champ e confere :-)

Bia Ferreira disse...

É engraçado, eu já sabia, mas ao mesmo tempo me surpriendeu...
Muito bom!