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8.4.11

Castanhas noir

Outro dia que me apareceu essa ideia de escrever um roteiro. Pensei num negócio meio noir, uma história de detetive. Ou, de repente, uma trama de mafiosos ou, quem sabe, de contrabandistas de joias ou, também pode, de passageiros do Expresso do Oriente. Qualquer coisa misteriosa que tenha uma mulher de sotaque sexy.
     Também só tenho uma cena até agora. Um diálogo, na verdade.
     Dois sujeitos de sobretudo –turcos ou gregos, talvez italianos– perseguem um outro, sem sobretudo –um romeno disfarçado de russo, ou vice-versa. Encurralam o coitado num beco sem saída em Istambul. Ou em Bucareste.
     O maior dos dois de sobretudo –tem cara de quem nunca aprendeu a tabuada do quatro–, fica na penumbra enquanto o menor –cara de quem trocou a mãe por uma espingarda aos onze anos–, saca uma arma e acende um cigarro. Começa:
     — Você sabe, minha mãe fazia biscoitos quando eu era garoto. Biscoitos de castanha. Já comeu biscoitos de castanha?
     (É um monólogo, na verdade.) O tunisiano disfarçado de egípcio sem sobretudo vai caindo pela parede até sentar, resignado. O azerbaijano de sobretudo que vendeu a mãe continua:
     — Nós juntávamos castanhas durante todo o inverno até que tivéssemos o suficiente. Ela preparava a massa, alisava tudo com um rolo de madeira, cortava em quadrados e punha uma castanha em cima de cada um, para enfeitar. Assim, uma castanha inteira. Eu e meu irmão ficávamos feito cachorros em frente do forno. E então ela fazia dois pacotes e guardava todo o resto num grande pote na despensa. Eu pegava meu pacotinho, me sentava debaixo de uma boa árvore e mordia as beiradas até que sobrasse só a castanha. Teve uma vez que comi todos os biscoitos e deixei só as castanhas para comer depois. Só que quando voltei, não encontrei minhas castanhas. Eu era um garoto esquentado.
     Encostado na parede, o irmão que só sabe até a tabuada do três sorri, mostrando uma cicatriz que vai do lábio até a orelha direita –ou a esquerda, tanto faz.
     — Acho que no fundo do que eu gostava mesmo era das castanhas. As pequenas e quebradas ela triturava e misturava na massa. Mas as graúdas, as mais bonitas, ela reservava para colocar em cima dos biscoitos. Volta e meia, encontrava uma dessas no fundo do meu pacotinho. Assim, uma castanha solta, inteirinha. Então eu olhava para aquela joia e comia deliciado, dando mordidas bem pequenas. Mas depois vinha o preço, e eu achava um biscoito sem castanha em cima. Só a massa, pura. Porque era só uma castanha por biscoito, entende? De algum lugar ela tinha de ter caído.
     O grandalhão cipriota continua de braços cruzados na sombra. O hondurenho parece rezar baixinho.
     — Então eu aprendi que a vida é assim: você pode comer as castanhas do fundo do pacote, mas depois terá de comer os biscoitos de onde elas caíram. E aí, nada de castanhas.
     Só um tiro, seco.
     Algo mais ou menos assim, ainda não sei.

16.6.10

O príncipe

Não vou ficar contando como se conheceram, como começaram a sair juntos, como ela o achara um fofo, o candidato a namorado perfeito, essas coisas, porque não é essa a parte da história que me interessa. A história para valer começa quando ela recebeu uma ligação. "Esteja no parque hoje, tal lugar, tal banco, tal horas; tenho uma coisa importante pra te dizer". Assim, decidido, deu nem tempo para ela responder. Pronto!, o final feliz estava perto.
     Todo aquele ritual. Umas duas horas para escolher colocar trocar destrocar roupa, fazer desfazer refazer maquiagem, insegurança, euforia, ansiedade. Ai, meu Deus, é hoje. Na hora combinada, mãos molhadas e boca seca, ela estava lá, sentada no banco.
     Só que nada do rapaz.
     Dez minutos e nada, quinze minutos e nada. Então ela pensou que o cara talvez não fosse perfeito, enfim. Ficou com vontade de chorar. Mas não, ele não faria isso, não ele.
     Até que então.
     Então ele saiu do meio do bosque, de trás de uma árvore. Pelo jeito, estava ali o tempo todo, observando. Ensaiando o que falaria, como andaria, para onde olharia, em que momento a beijaria, essas coisas.
     E então ele saiu do meio do bosque, de trás de uma árvore e veio andando em direção dela. Fantasiado de príncipe. Com aquelas calças que vão só até metade das canelas e colã branco por baixo, sapatinhos de tecido de bico fino, capa vermelha, chapéu com pluma, camisa de babado no colarinho. Fantasiado de príncipe, indumentária completa. Domingo, parque cheio. Fantasiado de príncipe.
     Talvez o rapaz tenha pensado que a expressão de choque da moça foi por causa da emoção, porque ele continuou com a performance. Puxou de trás de uma outra árvore um cavalinho de pau no qual montou e veio trotando pocotó pocotó pocotó na direção da garota. Então o pretendente parou diante da amada e, sem apear do cavalo, fez a proposta:
     — Eu sou seu príncipe. Quer ser minha princesa?
     E o mundo, que até então vinha se movimentando em câmera lenta, parou.
     O mundo parou para ver a cena. Quem estava fazendo cooper parou, quem estava andando de bicicleta parou, quem estava fofocando parou, quem estava namorando parou, quem estava tomando um caldo de cana parou, quem estava comprando pipoca parou, quem estava correndo atrás das crianças parou, quem estava correndo atrás da bolinha parou, quem estava ouvindo Latino no último volume do som do carro parou.
     Stop.
     Fantasiado de príncipe.
     Ela ficou em silêncio coisa de meio segundo, sem reação, mas foi praticamente meio minuto. Meio século. O príncipe estava ali, uma mão no cavalo e a outra –de luvas brancas, note-se– estendida em direção da princesa. Mais meio segundo passou, meio milênio, até que ela conseguisse articular resposta:
     — Não.
     Deu as costas e foi embora chorando. E o príncipe ficou lá, com cara de sapo.

          (Baseada em fatos reais, infelizmente.
          Amiga de um amigo meu.)

20.2.10

Manoelcarleanas

(Ou "Dos clichês de novela das oito")

Abertura.
Música do Tom Jobim.
Nascer do sol em Copacabana. Pessoas caminhando no calçadão. Jovens jogando futvôlei.


Washington Cleyson correu para pegar o primeiro trem saindo do subúrbio. Tomou um esbarrão de um trombadinha que quase levou a mochila. Deus me livre, os livros da faculdade, que ele conseguiu com tanto esforço. Um dia vou ser doutor, ele pensava. Ser doutor e ajudar minha mãe.
     O vagão estava tão cheio que ele nem precisava se segurar. Cochilou em pé mesmo e sonhou com a moça rica que entrou no bar do clube uns dias atrás. Ah, se um dia ela me desse bola...

* * *
O sol brilhava alto e Cíntia Patrícia, a moça rica, caminhava pelo calçadão. Rebolava e balançava bem os braços em suas roupas de ginástica compradas em Miami. Os homens viravam para olhar.
     No caminho, encontrou o ex-namorado carregando a prancha, ainda molhado do mar. Balançou, mas ficou firme quando ele disse que estava com saudade. Colocou o óculos escuro, esnobou, disse que agora estava bem, saindo com um homem de verdade. E rico. Humpf.
     Saiu balançando ainda mais os braços.

* * *
A caminho da padaria, dona Teresa Cristina, mulata bonitona, cumprimentava os conhecidos na rua. Toda a rua, na verdade. Como todos os dias, ganhou cantada do malandro desempregado e riu, divertida. Era mulher batalhadora, conhecida na comunidade.
     No balcão, encontrou com a amiga cartomante e comentou que Washington Cleyson tinha vindo de novo com o papo de querer saber quem era seu pai. Queixou-se de que era jovem e boba, como é que foi cair na conversa de patrãozinho? Ficaram de ler as cartas mais tarde.

* * *
Música internacional.
Carros passando no Leblon. Pão de Açúcar. Crianças brincando no parquinho.


Helena almoçou entre papéis do escritório. Mulher independente, vivida, divorciada, cuida dos filhos, sustenta a mãe idosa e ainda tem tempo para cuidar da pele e dos cabelos.
     Telefone. Era sua melhor amiga, para confirmar o fim de semana em Búzios e avisar o bonitão dono da livraria estaria lá também. O som do restaurante começou a tocar uma música conhecida e Helena suspirou ao lembrar de Rodolfo Augusto, o antigo amor de sua juventude. Por onde andava?
     Aliás, melhor desmarcar Búzios. O que ela precisava mesmo é de uns dias calmos em Petrópolis.

* * *
Enquanto o sol baixava no Leblon, Rodolfo Augusto pensava nas mulheres de sua vida. Possuíra muitas, sussurrara ao lado de muitas, mas só uma o fez suspirar: Helena, o amor de sua juventude. Helena, que o deixara quando soube que ele havia engravidado uma antiga empregada da mansão.
     A luz tingia o apartamento de tons dourados. Por trás das persianas meio fechadas, o mundo lá fora parecia longe demais de seu flat. O celular tocou: era Cíntia Patrícia, a lolita inconveniente. Desligou o aparelho. Hoje não.
     A música suave de fundo e o barulho das pedras de gelo no copo de uísque o deixavam mais calmo. Melhor subir para Petrópolis no fim de semana, pensou. Uns dias calmos em Petrópolis bem que fariam bem.

* * *
Ofendida, Cíntia Patricia jogou o celular na piscina do clube e pediu seu drinque favorito. As amigas pediram só uma aguinha de coco.
     Deve estar com aquela mulher de novo, aquela mocreia velha, bufou de raiva. As amigas elegantemente aconselharam a pagar na mesma moeda e Cíntia Patricia disse que era isso mesmo, que ia traí-lo com o primeiro homem que aparecesse na frente. Ajeitou os óculos escuros.
     Nisso, chegou Washington Cleyson, o garçom, trazendo as bebidas.

Música do Vinícius.
Pôr-do-sol no Arpoador. Cristo Redentor iluminado. Carros passando.
Créditos.

27.9.09

Crônica erótica

Já dizia o Cortázar, contradizendo esse pessoal mais saidinho, que se um autor não se interessa pela literatura erótica está tudo resolvido, e dá o exemplo do Borges. Vai ver eu, como fã do Borjão, acabei incorporando isso e deu que nunca escrevi nada assim mais picante. Só que hoje eu tive uma ideia, uma história proibida para menores.
     É hora de deitar no quarto de um casal. A mulher está terminando a sessão de cremes essências óleos géis máscaras sprays tratamentos de fim de dia. Rosto, mãos, pernas, pés, pescoço, cotovelos, pálpebras, dedo mindinho esquerdo: tudo tem produto próprio, cada qual com seu cada um.
     O marido sai do banho e vai para a cama. Sente o cheiro na suíte:
     — Cheiro bom, que é?
     A mulher, rosto azul da máscara revitalizante, responde, enquanto ajeita uma rodela de pepino sobre o olho esquerdo:
     — Erva-doce.
     O marido reclina-se ao lado da mulher, que agora troca a rodela de pepino do olho direito por uma compressa de camomila. Passa ao marido a rodela para que ele jogue no lixo. Ele, tentado pelo cheiro bom daquela meleca azul, passa a fatia no creme e prova. Fala baixinho:
     — Não, não. Acho que fica melhor com alguma coisa mais picante.
     Ela, ouvindo o comentário, levanta a compressa de um dos olhos e vê a cena. Acha divertido, decide entrar no jogo:
     — Tenta com esse aqui, ó. Gengibre com especiarias.
     — Ah, bem melhor.
     O marido sente, então, um aroma que vem de baixo dos lençóis, algo bem feminino. A esposa explica, oferecendo o braço:
     — Morango. Com champanhe nos cotovelos e com baunilha nas mãos.
     — Bom. E isso aqui, o que é?
     — Pitanga. Mas depois eu passei amêndoas por cima.
     — E nas pernas? Peraí, não fala, não fala! Vou descobrir...
     — ...
     — Chocolate?
     — Mais ou menos. É cacau, na verdade.
     Ele agora mergulha os saquinhos de camomila na água quente que ela usou para o escalda-pés.
     — Você não passa mais aquela mistura de ovos no cabelo? Acho que cairia bem.
     — Hoje eu não mexi com cabelo, não deu tempo. Mas tem maracujá nos calcanhares.
     O marido avança, é louco por maracujá. Pensa um pouco, hesita um pouco, e pede:
     — Sabe que eu tava querendo algo assim mais... mais...
     A mulher se arrepia:
     — Mais...?
     — ... selvagem! Isso, algo selvagem! Exótico.
     — Planta dos pés. Cupuaçu e frutas da Amazônia.
     — Isso! Isso!
     O marido tomba, então, exausto, ao lado da mulher. Vira para o lado e, no minuto seguinte, ronca feito um anjinho. Ela espirra um negocinho refrescante de guaraná e apaga o abajur.

31.3.09

Conversa de adulto

Quem diria que um dia eu me renderia à sabedoria do Pequeno príncipe, eu, que achava tão piegas. Redondamente enganado.
     Cresci e a vida ficou chata. Aliás, corrijo: não foi a vida –que eu absolutamente não tenho do que reclamar—, foram as conversas que ficaram chatas. Lembro que quando tinha lá meus quatro ou cinco anos de idade, conhecia amigos com quase sempre as mesmas perguntas básicas.
     — Qual sua comida preferida?
     — Você gosta de andar de bicicleta?
     — Quantos irmãos você tem?
     — Qual é o nome da sua mãe?
     — Você tem cachorro?
     Depois de um questionário assim, eu já conhecia tudo o que precisava sobre o sujeito. Já sabia se era confiável ou não, se podia entrar na brincadeira ou não. Se podia pegar emprestado meus bonecos do He-Man e dos Thundercats ou não. Essas coisas.
     Abre parênteses, que um flash de memória me veio agora. Morena, charmosa, olhos grandes, quase selvagens. Estávamos os dois sentados displicentemente numa escada e o papo girou basicamente em torno de nossos pontos em comum: não gostávamos de remédio, tínhamos irmãos mais novos e ambos tínhamos quatro anos. Acho que foi minha primeira conversa mais longa e aí é que começou a derrocada. Fecha parênteses.
     Hoje em dia as coisas são diferentes, não posso mais fazer isso. A não ser que queira, deliberadamente, que as pessoas pensem que eu sou autista –o que pode até ser útil em certas ocasiões. Como quero que me levem a sério, eu tenho agora que conversar assim:
     — Parece que pegou mal o Papa ter readmitido o tal do bispo lá.
     — E a taxa de juro que o Copom quer propor? Ridículo, impossível enfrentarmos a crise assim.
     — Diz que a Companhia das Letras vai aproveitar o embalo do Nobel e publicar toda a obra do Le Clézio.
     — Não vejo com bons olhos esse novo premiê de Israel...
     Não se pode mais perguntar as coisas que realmente eram legais de se saber. Tente só perguntar para um marmanjo que chega no primeiro dia no setor se ele tem algum bonequinho do Comandos em Ação, ou contar para o recrutador daquela vaga de emprego que você sabe tudo sobre Caverna do dragão. E vá perguntar para uma mulher quantos anos ela tem!
     É fogo.

29.8.08

Algodão doce

Território perigoso é o da, digamos..., massa corpórea feminina. Duvido que haja um homem na face da Terra —tirando-se cabelereiros, maquiadores e estilistas— que saiba como lidar com um assunto tão delicado.
     É um belo dia de verão e vocês decidem passear no parque. Sol, céu azul, cachorros e crianças de bicicleta. Tudo corre muito bem até que você, na maior ingenuidade, só querendo ser gentil, oferece um algodão doce, ou uma maçã do amor, ou uma Coca, sei lá. Ficamos com o algodão doce, para o exemplo ficar bem dramático. Ela vai sair com algo do tipo:
     — Comecei regime ontem.
     E, pronto, acabou tudo. Você, meu amigo, acaba de armar para si mesmo uma cilada. Das grandes. Das grandes mesmo.
     O sol se enfia atrás de alguma nuvem preta, o céu acinzenta, o cachorro engasga com a bolinha e as criançada cai das bicicletas. Neste momento você desejará que tivesse nascido surdo. Mas não, você não nasceu surdo: ouviu muito bem e ela te olha, esperando um comentário. Você constrói um diálogo imaginário em sua cabeça. Opção 1:
     — Ah, é? Que legal!
     — Que legal? Que legal? Quer dizer que todo esse tempo você me achava gorda e não dizia nada? Eu sabia: você não me ama do jeito que eu sou. Você tem vergonha de mim! Até regime eu tenho que fazer para ver se você me aceita, seu cachorro!
     Não, melhor não responder assim. Ela estranha seu silêncio, logo você que estava tão falante até cinco segundo atrás. Enquanto o vendedor pergunta se você vai querer mesmo o algodão doce, você constrói um outro diálogo. Segunda opção:
     — Regime pra quê? Você está ótima!
     — Ótima? Eu estou gorda! G-o-r-d-a! Mas pelo visto você quer que continue assim. Sim, porque você se acha o meninão bonitão saradão e eu sou a gorda baranga mocréia. "Olha como ele é bonzinho, levando a gorda para passear..." Você só pensa em você, seu cachorro!
     Antes que ela comece a chorar no seu diálogo imaginário, você parte rápido para outra alternativa. O vendedor está esperando e ela começa a pensar que você talvez seja autista, logo você que estava tão falante dez segundos atrás. Resposta número três:
     — Ah, mas vamos comer um algodão doce, benzinho. Só hoje...
     — Ah, é? Só hoje? E você sabe quantas calorias tem num algodãozinho desses? Sabe? É uma máquina de fazer gordas! Mas você não se preocupa comigo mesmo. Porque eu estou gorda e você nem se incomoda. Mas se a vizinha engordar 50 gramas, você repara. Ah, se repara! Seu cachorro!
     O vendedor já está impaciente. Ela pensa em chamar a APAE, que você deve ser autista mesmo. Já se passaram quinze segundos: é agora ou nunca. Melhor que fosse nunca, mas tem que ser agora. Dezesseis segundos. Só há uma saída: a pela tangente.
     Você aponta para cima e sai correndo, a toda velocidade, atrás do elefante rosa que está caindo do céu lá na outra esquina. Quer dizer, elefante não, que ela vai levar para o lado pessoal: você corre atrás do bando de rinocerontes de pijama de bolinha lá na outra esquina.
     É que, já que você não nasceu surdo, é melhor passar por bobo, que o estrago é menor.

* * *
p.s. decidi republicar esse, enquanto termino uns outros que tenho por aqui.

8.5.08

Tarot

Há meses eu tento escrever uma história de suspense com cartas de tarot. O Calvino escreveu um livro só com isso e ficou genial; eu nem tenho tanta pretensão, só queria uma história curtinha mesmo. Mas deparo-me sempre com dois problemas: nem eu acredito muito e nem eu entendo nada de tarot. O negócio é que acho as cartas muito charmosas, vejo nelas uma possibilidade literária muito grande, sem contar que aumentaria minha popularidade escrever sobre coisas assim esotéricas —vejam só o Paulo Coelho.
     Pensei talvez numa coisa assim: uma mulher de roupão de seda cai do décimo terceiro andar de um hotel no centro da cidade. Aquela comoção, os populares fazem roda para olhar, os bombeiros chegam tarde demais, o IML é chamado. Então um rapaz repara que ela tem na mão esquerda uma carta. Num gesto meio impensado, ele a pega e esconde debaixo das blusas. Não sabe por quê fez isso, mas sentiu que devia, as teias invisíveis do destino o moveram. Sai andando, as mãos suando de nervosismo pelo que acabou de fazer. Entra, ofegante, numa cabine telefônica e olha para a carta que escondeu sob a jaqueta: é a rainha de copas.
     Ou assim: um sujeito entra num pub. O lugar é meio escuro, quase vazio, o neon atrás do balcão pisca de tempos em tempos, no fundo toca um blues. Num dos cantos, um cara meio estranho, encapuzado, dispõe um baralho na mesa. Nosso sujeito senta no balcão e pede um uísque duplo, cowboy. Passou por um dia muito difícil, precisa de um bom trago para pensar na vida, nas teias invisíveis do destino. O barman erra no pedido e serve rum com duas pedras de gelo. Porém, quando nosso amigo levanta os olhos para reclamar, vê que o barman sumiu. Então o homem do capuz vem na sua direção e lhe entrega uma carta: é o enforcado.
     Ou então: um contador solteirão resolve comemorar a aposentadoria com uma viagem no Expresso do Oriente. Numa noite, enquanto toma uma sopa no vagão restaurante, ele é abordado por um sujeito visivelmente transtornado que fala algo sobre as teias invisíveis do destino, entrega-lhe um envelope e sai, apressado. Em seguida, passa por ali um russo albino enorme, mais parece um urso polar, com uma cicatriz que vai de fora a fora no rosto, e toma o mesmo rumo. Ouve-se um estampido lá fora. Mais tarde, na sua cabine, o contador abre o envelope: dentro há uma carta de tarot, o arcano do usurpador.
     E aí é que entram mais problemas: não sei como terminar nenhuma das possibilidades, suspeito que minha interpretação das cartas esteja errada e acho que nem deve existir um arcano —se é que é mesmo essa a palavra, "arcano"— do usurpador.
     Melhor deixar para lá, viu?

18.2.08

A prova

O professor já havia separado os alunos pela sala, carteira sim, carteira não. Ninguém via ninguém. Ninguém conversava com ninguém. Ninguém entrava, ninguém saía. Em seu estado de espírito normal, o Zequinha faria piada comparando a sala com a solitária do Bangu II. Mas o espírito do Zequinha não estava ali, tinha ficado em casa dormindo até mais tarde.
     Ele olhou para o professor, que, sentado na sua mesa, lia um livro meio mofado a poucos centímetros da página, o nariz longe do papel só o suficiente para respirar. Os óculos grossos na certa não adiantavam muita coisa. O Zequinha arriscou:
     — Professor?
     Os óculos nem se mexeram do lugar para responder:
     — Hum?
     — Posso tirar uma dúvida?
     — Só se for sobre alguma parte mal impressa.
     O xerox estava horrível mesmo, uma parte já havia sumido depois de o Zequinha apagar umas cinco vezes com a borracha. Mas não era bem este o problema.
     — É que eu não me lembro muito bem da fórmula...
     — Faz parte do conteúdo. Não posso entregar a prova.
     E então agitou o pulso para conferir o relógio, puxou o colarinho da camisa —fora de moda já há uns bons vinte anos— e voltou à leitura outra vez. Protestos da turma, "aahhs" generalizados: os outros alunos resolveram comprar a causa do Zequinha. Alguém chegou a aproveitar-se do anonimato e jogar uma bola de papel que, por sorte, não atingiu o alvo.
     O professor largou o volume amarelado e mirou a turma com os olhos apertados: todos em silêncio, com a melhor cara de cachorro caído do caminhão de mudança. A Mi deu uma piscadinha. Então ele acabou cedendo, levantou-se da cadeira, puxou a calça mais para cima da cintura e foi até o quadro. Escreveu a fórmula a giz —uma briga de letras, números e vírgulas— e disse, como quem mostra uma banana ao macaco, a coisa mais natural do mundo:
     — Pronto. Agora é só substituir.
     Depois arrumou a franjinha engomada com gel —puxada de modo a esconder as entradas no cabelo— e afundou-se no livro de novo, dizendo sem levantar os olhos:
     — Ah, sim, vocês têm mais dez minutos.
     O problema era que o Zequinha não sabia substituir. Bom, agora fica para a prova de recuperação.

12.9.07

Conto de fadas brasileiro

Era uma vez um país que vivia de brincadeira. Gostavam de uma brincadeira que só eles. E, depois do futebol, a brincadeira que eles mais gostavam era a da mentira. Era como se vivesse num eterno primeiro de abril, o país.
     A coisa toda era muito simples: ganhava quem mentisse mais. Mas não bastava só mentir, tinha de mentir e fazer os outros acreditarem. Como todo jogo, tinha lá uma meia dúzia de craques, macacos velhos já, não tremiam a voz e nem davam risada enquanto brincavam, juravam pela mãezinha que era tudo verdade.
     E, de tempos em tempos, o país se mobilizava em organizar os campeonatos. Era meio como nos jogos de colégio: concursos municipais, estaduais e um grande campeonato federal. Times eles tinham vários, e para todos os gostos, de todas as cores e com vários mascotes.
     E o povo tanto gostava da brincadeira que colocava os participantes para aparecer na tevê e no rádio, no melhor horário disponível, em todas as emissoras. E todo mundo parava de ver a novela só para ouvir, boquiaberto, as melhores mentiras do país.
     Alguns diziam:
     — Eu vou acabar com a fome neste país.
     E o povo aplaudia e ia ao delírio. E outros falavam:
     — Nenhuma criança vai ficar fora da escola.
     E o povo achava o máximo e corria e levava as crianças para ganharem beijos quando os concorrentes passeavam nas cidades.
     E, na brincadeira, se um prometia um milhão de alguma coisa, o outro corria para prometer dois e um outro ainda dizia que ele sozinho já tinha criado três. E um chamava o outro de mentiroso, mas o outro negava e jurava que isso era uma calúnia, minha Nossa Senhora. E tudo era só alegria. E o povo acreditava em tudo.
     Quando chegava a época do grande concurso, lá para outubro, o povo se perdia em meio a sorrisos e não sabia em que mentira acreditar, porque todas elas eram sedutoras. E o povo ganhava papéis e bandeiras e favores e até dentaduras porque nessa brincadeira, competir não valia nada, o que valia mesmo é ganhar.
     E então chegava o grande dia e o povo todo corria para escolher seus favoritos. O mais bonito, o mais inteligente, o mais simpático, cada um escolhia o seu. Chegaram até a criar um enorme sistema informatizado para saber o resultado no mesmo dia, tanta pressa que tinham para saber quem era o novo campeão.
     E com o resultado nas mãos, o povo corria e carregava os vencedores, entre vivas, para salinhas com secretária, ar condicionado e motorista. Porque, de tanto que o povo gostava da brincadeira, eram os vencedores que mandavam no país.
     E, de vez em quando, mesmo depois de acabado o campeonato, os esportistas apareciam na tevê e diziam alguma mentirinha, assim só para não perder a forma. Às vezes, algum acusava o outro de roubar na brincadeira e, oh!, o país parava para ver a briga dos sujeitos. Mas, no fim das contas, todo mundo se abraçava, pedia uma pizza pelo telefone e vivia feliz para sempre.

27.7.07

Pergunta

— Posso te fazer uma pergunta?
     — Não.
     — Credo. Por que?
     — Porque não. Você perguntou se pode, não posso responder "não"?
     — Mas...
     — Porque quando você vem com esse papo, é que vai perguntar coisa chata. E eu não quero responder.
     — Quê que custa?
     — Não sei o quê que custa. Mas eu vou ficar sem graça, no mínimo.
     — Então da próxima vez eu já pergunto direto.
     — É até melhor mesmo. Pergunta e pronto. Mas "posso te fazer uma pergunta?" é fogo.
     — Ah, não é tão mau...
     — É mau sim, senhor. Ninguém fala "posso te perguntar uma coisa?" para saber que horas são, ou se o Brasil ganhou o jogo de ontem. É para perguntar coisa cabeluda.
     — Ué, de repente eu só ia perguntar sobre sua família.
     — Aí você perguntaria direto: "oi, tudo bem?, e a família, como vai?". Mas quando o perguntador vem com esses papos, é porque vai colocar o perguntado em má situação.
     — É. Acho que você até que tem razão. Meio que assusta a pessoa mesmo.
     — Eu acho que quando você vai fazer uma pergunta que exija permissão antes, é melhor nem fazer. Vai ser chato.
     — É verdade. E se tiver que perguntar mesmo, que seja de uma vez, sem "posso te fazer uma pergunta?"
     — E não é?
     — Então está combinado. Agora, sobre aquela minha pergunta...
     — Não!

29.5.07

Sobre mulheres e sombrinhas

Elas têm que dar o braço a torcer: se fizessem uma pesquisa para saber quais os melhores amigos da mulher, o guarda-chuva apareceria em posição de destaque. A sombrinha, como elas costumam dizer —se bem que hoje em dia só as velhinhas ainda usam para fazer sombra.
     Os fabricantes de bolsas —outro objeto que entraria na lista— sabem disso e já desenham os modelos para que acomodem uma sombrinha dentro. Só não valem aquelas bolsinhas de festa, porque nelas cabem no máximo umas moedinhas. Mas é tiro e queda: bolsa grande carrega um guarda-chuva —sombrinha— dentro.
     Caiu uma gota do céu, pronto!, elas sacam suas armas de dentro da bolsa; caiu a segunda, elas disparam os gatilhos sem nenhuma piedade, Billy the Kid ficaria com inveja. Um dia, quero alugar um helicóptero para ver o espetáculo lá de cima, deve ser legal: milhares de bolinhas coloridas pipocando pela cidade.
     E logo elas começam a andar apressadas, porque —é só observar— mulher de sombrinha é sempre apressada. Aí, se no caminho encontram uma marquise de prédio, ponto de ônibus ou toldo de loja, elas correm a passar lá em baixo. Gostam tanto das sombrinhas que não querem molhá-las.
     Uma coisa chata é que as sombrinhas gostam de pregar peças na mulheres. Isso porque elas sempre são maiores do que a dona imagina. Então as danadas, com suas varinhas, vão esbarrando em paredes, agarrando postes, enganchando em roupas, puxando cabelos. Que levante a mão o homem que nunca temeu a cegueira quando passou ao lado de uma mulher armada com sua fiel companheira.
     E quando pára de chover, ou ficam só aquelas gotinhas enquanto São Pedro torce as nuvens, as sombrinhas desfilam abertas por um tempo ainda. Mulheres são precavidas, pode ter alguma chuva escondida lá em cima. Ou talvez estejam só secando um pouquinho antes de, enfiadas numa sacolinha —um saquinho de supermercado sempre acompanha a sombrinha—, voltarem para a bolsa.
     Mais tarde, chegando em casa, direto para a área de serviço: as sombrinhas dormem abertas, lembrando as aventuras do dia.

* * *
Nota: desculpem, meninas, sei que parece machismo, mas eu não pude resistir. É que eu acho tão engraçado mulher atrapalhada andando de sombrinha...

9.5.07

O destino do pobre Yun Fang

Sentei-me na pastelaria e pedi um pastel especial com refresco. De abacaxi, que a cor do de laranja não estava lá muito convidativa. Na televisão, num canal chinês, o que me pareceu ser uma novela. Claro que não entendi lhufas —uma legendinha cairia bem—, mas fiquei tão envolvido no drama que criei minha própria interpretação.
     Tsai Chang estava à beira da morte no leito do hospital provincial de Hubei. A enfermeira o medicou e saiu do quarto, deixando-o a sós com um delegado com cara de canastrão, o sub-oficial Leng Lo. Silêncio por um momento. Então, lentamente, o homem da lei virou-se, revelando uma cicatriz medonha no lado direito do rosto.
     Logo matei a charada, a mim eles não enganam: o delegado Leng Lo é, na verdade, o mafioso Guang Yu, chefe do submundo de Hong Kong. Tsai é um homem bonachão, leva uma vida pacata numa propriedade rural com sua única filha, a bela Lien Ching, mas vive atormentado pelos fantasmas do passado: ele foi ninguém mais, ninguém menos que o lendário líder da cruel tríade de Mu Giang.
     Amparado por Guang Yu está o pequeno Yun Fang, um menino de cabelos espetados e expressão desamparada, cujo segredo somente Tsai Chang conhece. E, depois de anos de silêncio, o moribundo está prestes a revelar o futuro do pobre garoto. A pergunta é: por que raios ele chamou justo Guang, seu maior inimigo?
     Quase xinguei —e em bom português mesmo— quando perdemos o sinal. Logo agora! A chinesinha do balcão também mostrou nervosismo, dando a entender que minha interpretação estava certa: seja lá o que fosse, estávamos presenciando um momento decisivo na trama.
     Parei de comer. Segundos de tensão. Yun Fang, seja forte!
     Quando a imagem voltou, Tsai jazia morto e a jovem Lien Ching chorava, desesperada, a morte do pai. Então, friamente, o mafioso em pele de advogado tomou a mão do menino e o conduziu para fora do quarto, rumo ao seu destino. Passaram os créditos.
     Paguei a conta, contrariado, e fui embora, sem saber o que foi feito do pequeno Yun Fang. Será que ele voltou para a casa da doce vovó em Beijing? Foi para o orfanato do severo educador Mao? Teria sido adotado como herdeiro do império mafioso de Mu Giang? E já pensou se venderam seus órgãos no mercado negro de Lin Feng Hu?
     Nunca vou saber. Ai, como eu queria falar chinês...

19.4.07

Ciência

Desde a época da tia Terezinha, na segunda série, eu calhei de achar ciência uma chatice. Isso porque tudo tem que ser provado, refutado, explicado, refutado. É tudo muito respeitoso, tudo muito engomadinho.
     Seria tão mais interessante se fosse algo mais caloroso, mais passional. Imaginem Charles Darwin discursando sobre sua teoria da evolução num clube inglês. Todos fumando cachimbos, pernas cruzadas, terninho marrom. Tratando-se por "sir" e "milorde", uma falsidade que só. Então levanta-se um bispo anglicano e aponta o dedo para o Charles:
     — Não é só porque sua mãe tem pêlos nas costas que todo mundo é descendente de macacos!
     Então o Darwin parte para cima do pulha e resolve à moda antiga: com os punhos. Enfia-lhe a teoria da evolução goela abaixo. Não seria muito mais legal?
     Visualizem Einstein, apresentando sua teoria da relatividade numa reunião com os maiores gênios científicos da época. E todos com cara de interrogação. Ele vira para o lado, balança a cabeça e comenta para si mesmo, baixinho:
     — Eu não tenho culpa se vocês são imbecis demais para entender. Tsc, tsc, cretinos...
     Só que o microfone ainda estava ligado. O pau come no lugar.
     Ou o Galileu num discurso inflamado:
     — Vou provar que a Terra não é o centro do universo
     — Ah, vai? Você e mais quantos?
     Ou o Newton:
     — ... e então, os dois corpos chegam juntos ao solo.
     — Ah, é? E se jogarmos a senhora sua mãe, ela cai com que velocidade?
     Talvez até o Nietzsche, que não era cientista, tomasse um corretivo no mesmo estilo:
     — ... por isso eu declaro, senhores: Deus está morto.
     — Vai ver quem está morto, seu canalha!
     Mas não. Ficam naquele papo de prova, refuta, prova, refuta. E aula de ciências é sempre a mesma coisa. Depois reclamam que as crianças não se interessam.
     Prefiro ficar com a minha imagem de Clyde Tombaugh, que descobriu Plutão —ok, pesquisei o nome no Google—, depois de ver sua descoberta ser rebaixada a "planeta-anão", cortando os freios do carro do presidente da Academia de Astronomia, rindo baixinho:
     — Anão, é? Tudo bem, tudo bem. Quem ri por último, ri melhor...

26.3.07

Algodão doce

Território perigoso é o da, digamos, massa corpórea feminina. Duvido que haja um homem na face da Terra —tirando-se cabelereiros, maquiadores e estilistas— que saiba como lidar com um assunto tão delicado.
     É um belo dia de verão e vocês decidem passear no parque. Sol, céu azul, cachorros e crianças de bicicleta. Tudo corre muito bem até que você, na maior ingenuidade, só querendo ser gentil, oferece um algodão doce, ou uma maçã do amor, ou uma Coca, sei lá. Ficamos com o algodão doce, para o exemplo ficar mais dramático. Ela vai sair com algo do tipo:
     — Comecei regime ontem.
     E, pronto, acabou tudo.
     O sol se enfiou atrás de alguma nuvem preta, o céu acinzentou, o cachorro engasgou com a bolinha e as criançada caiu das bicicletas. Neste momento você desejará que tivesse nascido surdo. Mas não, você não nasceu surdo: ouviu muito bem e ela te olha, esperando um comentário. Claro que você, como todo homem, não sabe o que responder, e constrói um diálogo imaginário em sua cabeça. Opção 1:
     — Ah, é? Que legal!
     — Que legal? Que legal? Quer dizer que todo esse tempo você me achava gorda e não dizia nada? Eu sabia: você não me ama do jeito que eu sou. Você tem vergonha de mim! Até regime eu tenho que fazer para ver se você me aceita, seu insensível!
     Não, melhor não responder assim. Ela estranha seu silêncio, logo você que estava tão falante até cinco segundo atrás. Enquanto o vendedor pergunta se você vai querer mesmo o algodão doce, você constrói um outro diálogo. Segunda opção:
     — Regime pra quê? Você está ótima!
     — Ótima? Eu estou gorda! G-o-r-d-a! Mas pelo visto você quer que continue assim. Sim, porque você é o meninão bonitão, saradão e eu, a gorda mocréia. “Olha como ele é bonzinho, levando a gorda para passear...” Você só pensa em você, seu insensível!
     Antes que ela comece a chorar no seu diálogo imaginário, você parte rápido para outra. O vendedor está esperando e ela começa a pensar que você talvez seja autista, logo você que estava tão falante dez segundos atrás. Resposta número três:
     — Ah, mas vamos comer um algodão doce, benzinho. Só hoje...
     — Ah, é? E você sabe quantas calorias tem num algodãozinho desses? Sabe? É uma máquina de fazer gordas! Mas você não se preocupa comigo mesmo. Porque eu estou gorda e você nem se incomoda. Mas se a vizinha engordar 500 gramas, você repara. Ah, se repara! Seu insensível!
     O vendedor já está impaciente. Ela pensa em chamar a APAE, que você deve ser autista mesmo. Já se passaram quinze segundos: é agora ou nunca. Melhor que fosse nunca, mas tem que ser agora. Dezesseis segundos. Só há uma saída: a pela tangente.
     Você aponta para cima e sai correndo, a toda velocidade, atrás do elefante rosa que está caindo do céu lá na outra esquina. Quer dizer, elefante não, que ela vai levar para o lado pessoal. Mas já que você não nasceu surdo, é melhor passar por bobo, que o estrago é menor.

22.3.07

Bingo!

— Número 13. Azar para uns, sorte para outros. Marquem aí o 13!
     E as velhinhas procuravam, excitadas, nas cartelinhas do bingo da igreja. Quem marcava, batia palmas de satisfação. O cantador sabia muito bem como fazer seu show.
     — Número 15! Quinze, a idade da dona Idalina.
     E a dona Idalina —que na verdade tinha lá seus 70 anos— mexia no cabelo, envaidecida pelo elogio. Era festa da padroeira, vinha gente de todo a região, mas quem gostava mesmo de um bingo eram as velhinhas. E como gostavam!
     — Pedra 38. O calibre do revólver do padre.
     Durante o sábado o carro de som já percorrera o bairro, com o mesmo aviso de sempre: missa festiva com presença do bispo, grandioso churrasco e tradicional bingo com valiosos prêmios. Tudo como sempre, inclusive as piadas do cantador, mas quem liga para isso?
     — Olha o 33, idade de Nosso Senhor.
     — Marquem o número 6. Se não tiver na cartela, serve meia dúzia também.
     — 22, os dois patinhos na lagoa.
     — 51, uma boa idéia.
     — É agora que o Zé se entrega: 24, veado na cabeça!
     — Saiu aqui o 69. Hum... deixa para lá, né, padre?
     A mais concorrida era a rodada extra, quando só ganhava a televisão quem marcasse cartela cheia. Lá pelas tantas, quando as velhinhas todas estavam no ápice da empolgação, ele soltava:
     — Pessoal, a dona Terezinha lá atrás desmarcou a cartela. Só um minutinho que eu vou repetir todos os números mais uma vez!
     Balde de água gelada nas velhinhas. Protestos. Vaias. Imagina, parar de tirar os números justo agora! Mas era tudo encenação do cantador, só para fazer graça.
     — Quem está esperando a boa?
     E as velhinhas todas levantavam a mão, divertidas. E então vinha o grito, esperado grito, lá do fundo do salão:
     — Bingo!
     Era a dona Idalina, a septuagenária de quinze anos, e as velhinhas todas olhavam com cara de despeito, cara de quem estava por uma só. Quinze rodadas depois, no fim da tarde, convite para assistir um filme na casa da ganhadora da tevê, desabafos de quem ficou esperando a pedra que não veio e broncas de quem quase morreu do coração. E elogios. Ele era o melhor cantador da paróquia, literalmente.