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10.12.12
A primeira carta de um pai
Ontem amanheceu um domingo quieto e fresco depois de dias de calor escaldante. Depois de tomarmos café, eu olhava distraído a neblina se dissipando lá fora e não foi preciso palavras: bastou que sua mãe chamasse meu nome para que eu soubesse que você existia. Bastou que ela me olhasse com olhos de mãe para que eu soubesse que serei pai.
Por um segundo não acreditei na notícia, e então meu coração me convenceu do que meus olhos estavam vendo, do que meus ouvidos não precisaram escutar. Não me lembro de alguma vez ter chorado tanto. Serei seu pai.
Já faz um tempo que a casa parece vazia. Embora sua mãe seja ótima companhia, venho sentindo falta de alguém e, embora seja uma companhia até que esforçada, sei que eu já não sou mais tudo o que ela espera encontrar depois de um dia de trabalho. Mas não é só um vazio, é o seu lugar que já vinha se criando.
Quando primeiro abrir os olhos (sua mãe e eu estaremos lá), não vou mentir: você vai encontrar um mundo difícil de entender. Dizem que os tempos andam complicados, que as coisas não são mais as mesmas, dizem até que é loucura botar filhos neste mundo. Mas não se deixe preocupar muito, não: todos os tempos, cada um a seu modo, foram complicados. A maldade vai se reinventando de época em época, mas a Verdade continua a mesma desde sempre. É um mundo cheio de lugares lindos e pessoas incríveis, você vai ver.
Espera só até conhecer tantos amiguinhos, tanta gente que desde ontem tem emocionado à sua mãe e a mim com tantas demonstrações de carinho. Espera só até pegarmos nossos livros e eu te contar tudo o que aprontaram o Peter Pan e o Capitão Gancho. Espera só -espera só!- até seu avô imitar o urso Baloo num dia em que você dormir na casa dele, e até ouvir o outro avô cantando um samba do Chico Buarque feliz da vida, e as avós fazendo bolos e doces pra comerem escondidos antes que alguém descubra. Espera só, minha criança querida, até passearmos por uma rua todinha tomada de ipês floridos de dourado, sentindo o vento gostoso de um fim de tarde. Espera só até irmos ao zoológico. Espera só até você pegar no sono olhando para aquela imensidão de doçura que são os olhos azuis da sua mãe. É tanta coisa que não cabe em todas cartas do mundo...
Umas semanas atrás, arrumei o presépio aqui em casa. São umas figuras pequenininhas, um burro, uma vaca, dois carneiros, um pastor, três reis, um anjo, um pai, uma mãe e uma manjedoura ainda vazia. Uma chama tem ficado acesa todas as noites, velando pelo Menino que está para chegar. Quis o Menino que também minha casa se tornasse digna de uma espera tão abençoada. Agora, aqui também temos uma manjedoura preparada. Agora, aqui também esperamos uma criança.
Não se precisou de palavras. Bastou que sua mãe me olhasse de um certo jeito para que eu soubesse que minha vida está mudada para sempre.
Amo você desde o seu primeiro momento e amarei até o meu último.
Seu pai.
* * *
Há uns meses atrás, com uma carta, acabei tirando, por preguiça, um tempo do blog. Hoje, outra carta, com um motivo muito mais nobre, me deu motivo para voltar.
31.8.12
Uma carta meio confusa
Tem um conto do Borges -talvez um relato verídico, vai saber- em que ele senta ao lado de um homem a beira do rio e se dá conta de que o outro é ele mesmo, muitos anos mais novo. E então é tomado primeiro de estranhamento, depois de uma vontade urgente de prevenir sobre o futuro e, por fim, da serenidade de que o que há de ser, será, e que seja. Uma boa história, me pego pensando nela.
Se bem me lembro, você deve ser agora um menino tímido, de pouca conversa e muita imaginação. Deve estar relendo alguma parte do Sinbad -se não me engano, é da terceira viagem que gosta mais- ou folheando um volume qualquer da enciclopédia. Um menino meio constrangido por gostar de folhear enciclopédias no tapete da sala.
Já eu estou aqui, ainda tímido e de pouca conversa. Esperei o prédio inteiro ficar quieto para tomar um copo de chá e ouvir um concerto do Beethoven. Meio constrangido por gostar de ouvir música clássica no trabalho. As coisas mudam, mas a gente não.
Daqui a pouco será meia-noite: dia de aniversário. Sendo meio dramático, é o trigésimo inverno. Sentado diante das estantes onde já não cabem mais livros mas se vai dando um jeito de empilhar, posso ouvir minha (nossa?) mulher dormir no quarto em frente. Tenho aprendido a silenciar para ouví-la.
Quando fizer trinta anos, daqui a pouquinho, você será assim: um sujeito meio calado, pensativo talvez além da conta, um homem cheio de "meios" e "talvezes" (com um tanto também de certezas, mas as certezas costumam ser mais silenciosas que as dúvidas).
Veja você. Esses dias mesmo, a família estava toda reunida, umas vinte pessoas, um domingo de inverno sem uma nuvem no céu. Depois da sobremesa, você levou uma cadeira para o jardim e ficou ali, olhando de longe, como quem assiste a um filme bonito. E pensando que nunca mais verá aquilo novamente, que amanhã as coisas já não serão as mesmas, as pessoas serão diferentes, alguém talvez até esteja junto de Deus. E foi ficando tomado de uma ternura tão grande...
É uma carta confusa, absolutamente desnecessária. Uma coisa até meio fútil. Mas, enfim, você será o tipo de sujeito que faz essas sentimentalidades de vez em quando. Talvez, em outra ocasião, eu escreva outra carta, vinte ou trinta anos mais velho, e sorria da minha ingenuidade.
Para que ficar contando tudo se daqui a pouco você vê com seus olhos? A vida é agora, não é mesmo isso que estou tentando dizer?
Pois tem gente que diz que o tempo corre, que mal brindou o novo ano e quando vê já é Natal. Também tem os que reclamam que os dias se arrastam e pedem que tudo passe logo de uma vez. Mas, sei lá, eu diria que durou o que deveria durar. Trinta anos que duraram exatamente o que deveriam durar, nem mais e nem menos. E isso é bom.
De repente me deu uma vontade enorme, urgente, de agradecer. A vida é boa.
Chegou a parte que você mais gosta do concerto. Meia-noite. Feliz aniversário.
Se bem me lembro, você deve ser agora um menino tímido, de pouca conversa e muita imaginação. Deve estar relendo alguma parte do Sinbad -se não me engano, é da terceira viagem que gosta mais- ou folheando um volume qualquer da enciclopédia. Um menino meio constrangido por gostar de folhear enciclopédias no tapete da sala.
Já eu estou aqui, ainda tímido e de pouca conversa. Esperei o prédio inteiro ficar quieto para tomar um copo de chá e ouvir um concerto do Beethoven. Meio constrangido por gostar de ouvir música clássica no trabalho. As coisas mudam, mas a gente não.
Daqui a pouco será meia-noite: dia de aniversário. Sendo meio dramático, é o trigésimo inverno. Sentado diante das estantes onde já não cabem mais livros mas se vai dando um jeito de empilhar, posso ouvir minha (nossa?) mulher dormir no quarto em frente. Tenho aprendido a silenciar para ouví-la.
Quando fizer trinta anos, daqui a pouquinho, você será assim: um sujeito meio calado, pensativo talvez além da conta, um homem cheio de "meios" e "talvezes" (com um tanto também de certezas, mas as certezas costumam ser mais silenciosas que as dúvidas).
Veja você. Esses dias mesmo, a família estava toda reunida, umas vinte pessoas, um domingo de inverno sem uma nuvem no céu. Depois da sobremesa, você levou uma cadeira para o jardim e ficou ali, olhando de longe, como quem assiste a um filme bonito. E pensando que nunca mais verá aquilo novamente, que amanhã as coisas já não serão as mesmas, as pessoas serão diferentes, alguém talvez até esteja junto de Deus. E foi ficando tomado de uma ternura tão grande...
É uma carta confusa, absolutamente desnecessária. Uma coisa até meio fútil. Mas, enfim, você será o tipo de sujeito que faz essas sentimentalidades de vez em quando. Talvez, em outra ocasião, eu escreva outra carta, vinte ou trinta anos mais velho, e sorria da minha ingenuidade.
Para que ficar contando tudo se daqui a pouco você vê com seus olhos? A vida é agora, não é mesmo isso que estou tentando dizer?
Pois tem gente que diz que o tempo corre, que mal brindou o novo ano e quando vê já é Natal. Também tem os que reclamam que os dias se arrastam e pedem que tudo passe logo de uma vez. Mas, sei lá, eu diria que durou o que deveria durar. Trinta anos que duraram exatamente o que deveriam durar, nem mais e nem menos. E isso é bom.
De repente me deu uma vontade enorme, urgente, de agradecer. A vida é boa.
Chegou a parte que você mais gosta do concerto. Meia-noite. Feliz aniversário.
21.8.12
Peixe dourado
Lembro de ter lido uma vez, coisa dessas com que se esbarra por aí, que um peixe dourado deixado num aquário sem luz perde a cor, acaba só um vulto esbranquiçado e sem brilho. Lembro de ter pensado que tem algo de trágico e muito profundo nisso.
Se um peixe dourado deixa de ser dourado, o que resta dele?
No entanto, não me lembro se li ou inventei que, se devolvido ao antigo aquário iluminado, o peixe retoma sua cor, torna-se de novo o que nasceu para ser: dourado.
Assim são os peixes, assim somos nós.
Se um peixe dourado deixa de ser dourado, o que resta dele?
No entanto, não me lembro se li ou inventei que, se devolvido ao antigo aquário iluminado, o peixe retoma sua cor, torna-se de novo o que nasceu para ser: dourado.
Assim são os peixes, assim somos nós.
10.6.12
São essas vezes
A vez em que cheguei em casa, empolgado com um mundo novo que se abria diante dos meus olhos de menino, e tirei da minha mochila a cartilha ainda cheirando a nova e abri na primeira lição e li para minha mãe, encantada, as primeiras palavras da minha vida, que tinha acabado de aprender naquela tarde de verão.
A vez quando, entre os raios de sol que pendiam dos galhos de uma araucária, eu vi uma gralha azul e me senti abençoado e, quando duvidaram de que eu tinha visto em plena cidade algo tão raro a ponto de se tornar só uma história que se ensina nas escolas, tive a segurança de responder simplesmente "eu senti que era".
A vez em que primeiro subi na minha moto e fomos para a estrada e senti a fragilidade da minha vida e a liberdade de não estar somente passando pela paisagem, mas fazendo parte dela, sendo filho do vento, gritando de excitação dentro do capacete debaixo da chuva leve que caía.
A vez quando, numa quarta-feira sem nada de especial, andando pela rua num final de dia eu me senti subitamente feliz de uma felicidade tranquila e serena, subitamente consciente, e sorri, sem uma testemunha sequer, o sorriso mais satisfeito que lembro de ter dado em minha vida e que desde então, ainda esse mesmo sorriso, volta ao meu rosto em certas ocasiões.
A vez na qual, depois de ter resistido a uma tentativa de assassinato numa viagem solitária, corri meio continente de volta para casa e encontrei minha mãe na ainda de pijama, com um bule de café fumegante no fogão e, sentado à mesa, no silêncio de quem não sabe ou não quer dizer nada, senti como nunca a força delicada do amor de quem nos cria para entregar ao mundo.
A vez em que eu, entre amedrontado e ansioso, diante dos meus amigos e da minha família, olhava para as portas da igreja que se tinham acabado de abrir e ela caminhou em minha direção e eu soube que não desejaria da vida, daquele em momento em diante, nada mais que não seja dedicar àquela mulher até o último suspiro que Deus me permitir dar neste mundo.
A vez em que, mesmo depois de já ter ouvido várias vezes, eu realmente ouvi a Nona Sinfonia de Beethoven e senti o corpo arrepiado e chorei e agradeci em silêncio Àquele que deu ao Homem a capacidade e a sensibilidade para criar coisas tão maravilhosas.
A vez numa manhã nublada e um pouco fria em que encontramos um casco de tartaruga entre os galhos que o mar arrastou para a praia numa noite de tempestade e pensei em quanto não havia vivido aquele animal, em que segredos submarinos não guardava aquele casco silencioso, até que viera morrer nas areias perto da casa de meu pai.
A vez, depois de meses longe da escrita, anestesiado por falta de tempo, de inspiração ou mesmo de vontade, em que resolvi checar, num gesto meio mecânico, as redes sociais e chorei ao encontrar uma mensagem de que uma pessoa, uma mãe de família que me leu e lembrou-se de um sonho e começou ela também a escrever.
São essas vezes, essas pequenas ocasiões luminosas, muito mais que os grandes intervalos entre elas, que nos fazem quem somos. São essas vezes, e ainda muitas outras de que não me lembro agora e umas tantas sobre as quais, de tão sublimes e fugidias, não conseguirei jamais escrever.
São essas vezes.
26.9.11
Mamões e casamento
Faz um tempo, minha esposa tomou a missão de colocar frutas no meu café da manhã.
Outro dia, uma tarde chuvosa, saí do trabalho e passei no mercado para comprar alguns mamões. Na banquinha, achei só uns poucos, e todos meio feios. Garimpei, escolhi os mais apresentáveis e acabei conseguindo três, cada um com algum defeito pequeno.
Na manhã seguinte, cortei o primeiro em dois: uma metade com umas marcas de batida na casca e a outra perfeita. Comi a parte pior –tive que jogar uma colherada no lixo– e deixei a melhor sobre o balcão da cozinha. Mesma coisa fiz na segunda manhã, com o segundo. O último que sobrou na geladeira tinha uns pontos pretos; virei-o na prateleira de um jeito que escondesse as manchas.
Pois hoje, dia do último mamão, minha mulher acordou mais cedo –normalmente eu me levanto meia hora antes– e, quando eu saí do banho, ela já tinha tomado café da manhã e cantarolava no quarto. Fui para a cozinha e estava lá meu cereal, o leite, o pão, os frios e uma metade de mamão. Na hora, lembrei dos pontinhos podres e virei o bendito para ver: imaculado. Minha esposa acabara de ficar com o pedaço ruim.
Pegando a colher, me senti meio culpado por não ter ido à cozinha antes que ela. Mas, no segundo seguinte, pensei que isso seria negar que ela também pudesse fazer algo por mim. Imagino que tenha ficado feliz por ter saído da cama mais cedo para descobrir a parte ruim do mamão e escondê-la de mim, a mesma alegria silenciosa que eu tivera nos dois dias anteriores. Porque, no fundo, um casamento é isso: oferecer ao outro sempre a melhor metade.
Outro dia, uma tarde chuvosa, saí do trabalho e passei no mercado para comprar alguns mamões. Na banquinha, achei só uns poucos, e todos meio feios. Garimpei, escolhi os mais apresentáveis e acabei conseguindo três, cada um com algum defeito pequeno.
Na manhã seguinte, cortei o primeiro em dois: uma metade com umas marcas de batida na casca e a outra perfeita. Comi a parte pior –tive que jogar uma colherada no lixo– e deixei a melhor sobre o balcão da cozinha. Mesma coisa fiz na segunda manhã, com o segundo. O último que sobrou na geladeira tinha uns pontos pretos; virei-o na prateleira de um jeito que escondesse as manchas.
Pois hoje, dia do último mamão, minha mulher acordou mais cedo –normalmente eu me levanto meia hora antes– e, quando eu saí do banho, ela já tinha tomado café da manhã e cantarolava no quarto. Fui para a cozinha e estava lá meu cereal, o leite, o pão, os frios e uma metade de mamão. Na hora, lembrei dos pontinhos podres e virei o bendito para ver: imaculado. Minha esposa acabara de ficar com o pedaço ruim.
Pegando a colher, me senti meio culpado por não ter ido à cozinha antes que ela. Mas, no segundo seguinte, pensei que isso seria negar que ela também pudesse fazer algo por mim. Imagino que tenha ficado feliz por ter saído da cama mais cedo para descobrir a parte ruim do mamão e escondê-la de mim, a mesma alegria silenciosa que eu tivera nos dois dias anteriores. Porque, no fundo, um casamento é isso: oferecer ao outro sempre a melhor metade.
13.9.11
Voltar
E tem essa coisa de voltar. Quando era pequeno, entrava em casa e tinha a sensação de que, apesar de ter sido só um Sete de Setembro para a gente, ali dentro tinham corrido meses. Como aquelas contas de cachorro: um ano nosso equivale a sete para as poltronas e por aí vai.
Corria na frente de todos para ser o primeiro a ver a cozinha, os quartos, o banheiro. Ia olhando aquelas pétalas caídas ao redor do vaso, o relógio do micro-ondas piscando zerado, um pano de chão esturricado no varal, as pias sem nem uma gotinha de água. Como um mundo recém-descoberto.
É uma sensação que dura pouco, logo abre-se as cortinas e vai-se retomando tudo de novo. Ali está a partezinha amassada do sofá, a marca de panela quente na mesa, o lado da janela que não fecha direito.
* * *
Hoje eu vinha pensando em Deus enquanto fazia meu caminho de todos os dias. Engraçado como comento pouco sobre isso, mas é assim: penso em Deus enquanto caminho.
De longe reconheci um bem-te-vi; é fácil saber pela cabecinha listrada de preto. Mas de longe pensei que, embora sem dúvida nenhuma fosse um, bem-te-vis são maiores e mais bravos. Só quando passei a uns poucos centímetros e ele não fez menção de fugir foi que me ocorreu a ideia de que era um filhote. Já grandinho, mas um filhote.
Foi preciso que eu desse mais uns passos até me dar conta de mais: era um bem-te-vi, um filhotinho que ainda mal sabia voar, no meio de um cruzamento onde dali quinze minutos começaria o vai e vem de crianças chegando à escola.
E então voltei. Não sei de quem era o maior medo, se o meu de machucá-lo ou o dele de ser machucado, mas peguei-o nas mãos. Fechei bem a concha para que ele não caísse; pareceu não ter nada fora de ordem, talvez estivesse só cansado do primeiro voo. O coraçãozinho acelerado. Convenhamos, amiguinho, que um cruzamento não é um bom lugar para descansar. Pensei em colocá-lo dentro do bolso da jaqueta, mas também pensei que a natureza sabe fazer seu papel melhor que eu.
Ficou ali, entre os galhos floridos de uma glicínia.
* * *
Ontem à noite fui buscar água e a geladeira vazia me lembrou que hoje é dia de mercado. Desde pequeno adoro dia de mercado.
Corria na frente de todos para ser o primeiro a ver a cozinha, os quartos, o banheiro. Ia olhando aquelas pétalas caídas ao redor do vaso, o relógio do micro-ondas piscando zerado, um pano de chão esturricado no varal, as pias sem nem uma gotinha de água. Como um mundo recém-descoberto.
É uma sensação que dura pouco, logo abre-se as cortinas e vai-se retomando tudo de novo. Ali está a partezinha amassada do sofá, a marca de panela quente na mesa, o lado da janela que não fecha direito.
* * *
Hoje eu vinha pensando em Deus enquanto fazia meu caminho de todos os dias. Engraçado como comento pouco sobre isso, mas é assim: penso em Deus enquanto caminho.
De longe reconheci um bem-te-vi; é fácil saber pela cabecinha listrada de preto. Mas de longe pensei que, embora sem dúvida nenhuma fosse um, bem-te-vis são maiores e mais bravos. Só quando passei a uns poucos centímetros e ele não fez menção de fugir foi que me ocorreu a ideia de que era um filhote. Já grandinho, mas um filhote.
Foi preciso que eu desse mais uns passos até me dar conta de mais: era um bem-te-vi, um filhotinho que ainda mal sabia voar, no meio de um cruzamento onde dali quinze minutos começaria o vai e vem de crianças chegando à escola.
E então voltei. Não sei de quem era o maior medo, se o meu de machucá-lo ou o dele de ser machucado, mas peguei-o nas mãos. Fechei bem a concha para que ele não caísse; pareceu não ter nada fora de ordem, talvez estivesse só cansado do primeiro voo. O coraçãozinho acelerado. Convenhamos, amiguinho, que um cruzamento não é um bom lugar para descansar. Pensei em colocá-lo dentro do bolso da jaqueta, mas também pensei que a natureza sabe fazer seu papel melhor que eu.
Ficou ali, entre os galhos floridos de uma glicínia.
* * *
Ontem à noite fui buscar água e a geladeira vazia me lembrou que hoje é dia de mercado. Desde pequeno adoro dia de mercado.
8.7.11
Caminho para casa
Ontem, enquanto voltava do trabalho, passei por uma casa que meu nariz acusou de estar assando bolo, uma outra que cheirava a sopa –presumo que de músculo– e uma terceira a manjericão. Uma senhora sorriu quando cruzou comigo, puxada por um cocker spaniel que carregava, orgulhoso, um pão fresquinho na boca. Também sorriu a que plantava flores no final da rua sem saída. No que abri a porta do meu apartamento, dei com o sol se pondo entre as cortinas da sala e pensei que, olha, a vida é uma coisa boa.
* * *
As pessoas me acusam de ser meio bobo, de achar que tudo é sempre bonito e coisa e tal. Outro dia chovia, minhas botas estava molhadas, eu tinha uma dor de cabeça danada, um sujeito quis me assaltar –no que se deu muito mal– e dei com um vazamento de esgoto no prédio. Mas aí é que está: sobre qual caminhada vale a pena escrever?
* * *
As pessoas me acusam de ser meio bobo, de achar que tudo é sempre bonito e coisa e tal. Outro dia chovia, minhas botas estava molhadas, eu tinha uma dor de cabeça danada, um sujeito quis me assaltar –no que se deu muito mal– e dei com um vazamento de esgoto no prédio. Mas aí é que está: sobre qual caminhada vale a pena escrever?
20.6.11
Passarinhos pretos
São uns passarinhos pretos, bem pretos. Não sei como se chamam.
Caminho todos os dias até o trabalho. Saio cedo, gosto de chegar na empresa já no primeiro horário –assim saio mais cedo também. Coisa de meia hora, o sol ainda se espreguiçando, ruas tranquilas, uma ou outra casinha de madeira, muitas árvores, uma praça, uma gangue de vira-latas simpáticos, um casal de velhinhos que sempre me acenam vindo no sentido oposto e os passarinhos. Bem-te-vis, rolinhas, sabiás, joões de barro, canários, quero-queros, pardais, uns periquitinhos. As corujas eu só ouço. E tem esses pretinhos misteriosos.
Já consultei minha avó, o avô da minha esposa, meu pai; ninguém soube me dizer. Também eu não sei explicar muito bem.
Sou autodidata, meio naïf, nesse negócio de passarinhos. Acho que meus avôs teriam sido bons professores. De uns sei só o canto, de outros só o nome, de outros só a aparência. Aos poucos vou juntando conclusões e aprendendo a apontar qual é qual. Esses pretinhos, porém, ainda são um mistério.
Não é todo dia que os vejo, tenho a impressão de que são poucos. Não são de bando exclusivo, andam numa boa no meio da turma toda. Maiores que um pardal, menores que um sabiá. Não sei se cantam. Gostam especialmente de um álamo numa das ruas do meu caminho, e vendo a árvore é fácil entender o porquê.
Lembrei da minha falecida avó e o curió que ela alimentava com giló (quanto "ó"), mas, se não me falha, ele tinha peito marrom; esses meus amiguinhos não têm sequer uma peninha que não seja preta. Cheguei a cogitar que fossem chopins –outros de que só sabia o nome e a fama, mas não fazia ideia de como fossem–, mas meia dúzia de fotos no Google derrubaram minha dedução.
Esses dias atrás, passei um final de semana no campo com minha esposa. Um bando de canários voava de árvore em árvore conforme nós andávamos pela estradinha, um pica pau martelava um pinus, os quero-queros gritavam do outro lado do lago e juro que eu pensei que fosse morrer naquela hora mesmo, de tanta paz que senti.
E teve a vez que, entre os raios de sol que caiam dos galhos de uma araucária, vi uma gralha azul. Uma coisa maravilhosa. A visão foi só um segundinho, mas a memória vai durar o quanto Deus quiser que dure a minha vida. Quando fizeram cara de desconfiança e me perguntaram se eu sabia como era uma gralha azul, eu respondi: "não sei, mas na hora eu soube".
Já esses são uns passarinhos pretos, bem pretos, brilhantes, maiores que um pardal e menores que um sabiá, andam no meio dos outros, fogem antes de eu chegar perto e gostam de um álamo em especial, no que os apoio totalmente.
Não sei como se chamam.
Já me sugeriram tirar fotos, mas não comprei a ideia. Primeiro que não sou desses de apontar câmera para tudo o tempo todo –já escrever uma crônica, tudo bem. Depois que, no fundo, acho que não preciso saber, não.
Caminho todos os dias até o trabalho. Saio cedo, gosto de chegar na empresa já no primeiro horário –assim saio mais cedo também. Coisa de meia hora, o sol ainda se espreguiçando, ruas tranquilas, uma ou outra casinha de madeira, muitas árvores, uma praça, uma gangue de vira-latas simpáticos, um casal de velhinhos que sempre me acenam vindo no sentido oposto e os passarinhos. Bem-te-vis, rolinhas, sabiás, joões de barro, canários, quero-queros, pardais, uns periquitinhos. As corujas eu só ouço. E tem esses pretinhos misteriosos.
Já consultei minha avó, o avô da minha esposa, meu pai; ninguém soube me dizer. Também eu não sei explicar muito bem.
Sou autodidata, meio naïf, nesse negócio de passarinhos. Acho que meus avôs teriam sido bons professores. De uns sei só o canto, de outros só o nome, de outros só a aparência. Aos poucos vou juntando conclusões e aprendendo a apontar qual é qual. Esses pretinhos, porém, ainda são um mistério.
Não é todo dia que os vejo, tenho a impressão de que são poucos. Não são de bando exclusivo, andam numa boa no meio da turma toda. Maiores que um pardal, menores que um sabiá. Não sei se cantam. Gostam especialmente de um álamo numa das ruas do meu caminho, e vendo a árvore é fácil entender o porquê.
Lembrei da minha falecida avó e o curió que ela alimentava com giló (quanto "ó"), mas, se não me falha, ele tinha peito marrom; esses meus amiguinhos não têm sequer uma peninha que não seja preta. Cheguei a cogitar que fossem chopins –outros de que só sabia o nome e a fama, mas não fazia ideia de como fossem–, mas meia dúzia de fotos no Google derrubaram minha dedução.
Esses dias atrás, passei um final de semana no campo com minha esposa. Um bando de canários voava de árvore em árvore conforme nós andávamos pela estradinha, um pica pau martelava um pinus, os quero-queros gritavam do outro lado do lago e juro que eu pensei que fosse morrer naquela hora mesmo, de tanta paz que senti.
E teve a vez que, entre os raios de sol que caiam dos galhos de uma araucária, vi uma gralha azul. Uma coisa maravilhosa. A visão foi só um segundinho, mas a memória vai durar o quanto Deus quiser que dure a minha vida. Quando fizeram cara de desconfiança e me perguntaram se eu sabia como era uma gralha azul, eu respondi: "não sei, mas na hora eu soube".
Já esses são uns passarinhos pretos, bem pretos, brilhantes, maiores que um pardal e menores que um sabiá, andam no meio dos outros, fogem antes de eu chegar perto e gostam de um álamo em especial, no que os apoio totalmente.
Não sei como se chamam.
Já me sugeriram tirar fotos, mas não comprei a ideia. Primeiro que não sou desses de apontar câmera para tudo o tempo todo –já escrever uma crônica, tudo bem. Depois que, no fundo, acho que não preciso saber, não.
16.6.11
Tardes no café
O termo correto é "colegas de trabalho", mas não é isso que vou contar aos meus netos. Sobre o Denis Tanaami vou falar das piadas e imitações, das conversas sobre música, da paixão por Fuscas. Era de lei o nosso espresso à tarde, coincidentemente na hora da ginástica laboral. Para não dar briga entre as duas cafeterias preferidas, seguíamos uma escala simples: um dia em uma, outro dia em outra.
Teve a vez, quando saíamos de uma delas, uma que serve um Sul de Minas maravilhoso, que eu estranhei:
— Ei, Denis, notou que estava faltando a tia do caixa?
"Tia do caixa" era uma velhinha, uma avózinha simpática que sempre pedia ajuda para passar o cartão de débito e desejava "obrigada de novo, uma boa tarde, meninos". E o Denis tinha notado.
Como no dia seguinte era vez da outra cafeteria, a que serve Alta Mogiana, foi só dois dias depois que voltamos lá e, de novo, nada da velhinha do caixa. Nem no outro dia, nem no outro.
Seguimos num silêncio constrangido –os dois preocupados, mas os dois sem jeito de perguntar– até o dia em que demos com as portas de vidro fechadas, um aviso improvisado. "Motivos familiares", dizia.
Caramba.
Desobedecemos a escala –o caso era urgente– e, no dia seguinte, ufa!, vimos de longe as portas abertas. Nada, porém, da nossa amiga. Nem no outro dia, nem no outro. Nem na outra semana, nem na outra.
Caramba.
Juro que cheguei a ensaiar, cheguei a prender o ar para perguntar e na hora não consegui. Medo de que alguém se ressentisse, sei lá. Eu e minha covardia –e o Denis e a covardia dele também. Ficou aquele silêncio do luto, os dois amigos de café meio órfãos e, fazer o quê?, a escala seguiu. A vida sempre segue.
Até o dia em que demos com uma das mesas agitada, mulheres em volta, gritinhos de fofura. E, um sorriso só, sentada com um bebê no colo –nova netinha?– estava nossa amiga, a velhinha do caixa.
Acabou que saí do emprego e já faz uns anos que não estendo mais o cartão e indico os botões na maquininha para pagar um espresso naquele caixa.
As pessoas deviam saber mais da importância que têm na vida das outras. Engraçado que nunca passou disso, do "boa tarde, meninos" dia sim, dia não; nunca soube dela mais que isso. Ainda assim, tivemos que esconder as risadas –de contentamento, de alívio– atrás das folhas do jornal. Minha vontade era levantar da mesa e pedir licença, perguntar por onde andou, contar como estava feliz por vê-la bem, dar uma bronca de leve por ter assustado daquele jeito. Quem sabe até um abraço acanhado.
Me arrependo por não ter feito.
Teve a vez, quando saíamos de uma delas, uma que serve um Sul de Minas maravilhoso, que eu estranhei:
— Ei, Denis, notou que estava faltando a tia do caixa?
"Tia do caixa" era uma velhinha, uma avózinha simpática que sempre pedia ajuda para passar o cartão de débito e desejava "obrigada de novo, uma boa tarde, meninos". E o Denis tinha notado.
Como no dia seguinte era vez da outra cafeteria, a que serve Alta Mogiana, foi só dois dias depois que voltamos lá e, de novo, nada da velhinha do caixa. Nem no outro dia, nem no outro.
Seguimos num silêncio constrangido –os dois preocupados, mas os dois sem jeito de perguntar– até o dia em que demos com as portas de vidro fechadas, um aviso improvisado. "Motivos familiares", dizia.
Caramba.
Desobedecemos a escala –o caso era urgente– e, no dia seguinte, ufa!, vimos de longe as portas abertas. Nada, porém, da nossa amiga. Nem no outro dia, nem no outro. Nem na outra semana, nem na outra.
Caramba.
Juro que cheguei a ensaiar, cheguei a prender o ar para perguntar e na hora não consegui. Medo de que alguém se ressentisse, sei lá. Eu e minha covardia –e o Denis e a covardia dele também. Ficou aquele silêncio do luto, os dois amigos de café meio órfãos e, fazer o quê?, a escala seguiu. A vida sempre segue.
Até o dia em que demos com uma das mesas agitada, mulheres em volta, gritinhos de fofura. E, um sorriso só, sentada com um bebê no colo –nova netinha?– estava nossa amiga, a velhinha do caixa.
Acabou que saí do emprego e já faz uns anos que não estendo mais o cartão e indico os botões na maquininha para pagar um espresso naquele caixa.
As pessoas deviam saber mais da importância que têm na vida das outras. Engraçado que nunca passou disso, do "boa tarde, meninos" dia sim, dia não; nunca soube dela mais que isso. Ainda assim, tivemos que esconder as risadas –de contentamento, de alívio– atrás das folhas do jornal. Minha vontade era levantar da mesa e pedir licença, perguntar por onde andou, contar como estava feliz por vê-la bem, dar uma bronca de leve por ter assustado daquele jeito. Quem sabe até um abraço acanhado.
Me arrependo por não ter feito.
20.5.11
Ontem
Ontem você esteve doente. Coisa pouca, mas o suficiente para me deixar ansioso e preocupado, o coração suspenso por um fio, sentado impotente na minha poltrona enquanto te observava, finalmente, dormir tranquila.
Ontem fizemos três meses de casados e eu não consigo mais lembrar da minha vida sem você. É como se você estivesse desde sempre ali, o sorriso pronto para assim que eu abrir os olhos de manhã.
Ontem, um dia frio, te servi no sofá, debaixo do cobertor, uma tigelinha de feijão branco com pouco tempero que pode parecer só uma coisinha de nada, mas que, naquela hora, era tudo que eu podia fazer: te confortar e te dizer que nunca te deixarei faltar cuidado.
Ontem fizemos três meses de casados e eu não consigo mais lembrar da minha vida sem você. É como se você estivesse desde sempre ali, o sorriso pronto para assim que eu abrir os olhos de manhã.
Ontem, um dia frio, te servi no sofá, debaixo do cobertor, uma tigelinha de feijão branco com pouco tempero que pode parecer só uma coisinha de nada, mas que, naquela hora, era tudo que eu podia fazer: te confortar e te dizer que nunca te deixarei faltar cuidado.
18.3.11
... e a nova rotina
Da minha casa nova, venho caminhando até o trabalho. São vinte e cinco minutos por ruas arborizadas, sabiás, uma praça, meia dúzia de vira-latas amistosos, uma velhinha regando margaridas e duas entradas de escolinha infantil.
Hoje –só o intervalo entre um passo e o próximo–, vi o sol se levantando entre dois pinheiros no quintal de uma casinha de madeira. E acabo de me dar conta de que isso é tudo o que precisava escrever neste post.
Hoje –só o intervalo entre um passo e o próximo–, vi o sol se levantando entre dois pinheiros no quintal de uma casinha de madeira. E acabo de me dar conta de que isso é tudo o que precisava escrever neste post.
17.2.11
Dois dias
Faltam dois dias para o nosso casamento.
Faltam dois dias para o nosso casamento e eu estou aqui, uma furadeira na mão, uma chave de fenda na outra e mil pensamentos martelando na cabeça.
E enquanto eu vejo minha vida, esta minha vida como eu vivi até agora, acabar, eu tento enganar o tempo e adivinhar pedaços dessa vida nova que vem pela frente. Essa vida que começa daqui a dois dias.
E, olha, eu te vejo chegando meio assim para contar que quebrou um dos meus copos de chá, aqueles. E me vejo mal humorado porque bati seu carro naquela vaguinha minúscula na garagem do prédio. Te vejo oferecendo carona num dia de chuva e me vejo turrão saindo de moto mesmo assim. Te vejo chorando com cada surpresinha que eu aprontar, essas besteirinhas que eu invento e que você é generosa o suficiente para enxergar como grandes coisas. Me vejo deliciado com cada jantar especial –e saiba que já estou esperando, porque também não é de graça que quis casar com uma chef de cozinha– que você nos fizer.
Mil pensamentos, coisas boas, coisas difíceis, um monte, e desejo que eu seja o que você espera de mim. Não tenho vergonha de dizer que tenho, sim, um pouco de medo. Medo de te decepcionar. Às vezes me olho e penso que não sou mais que um menino crescido, com uma furadeira na mão, uma chave de fenda na outra e mil pensamentos martelando na cabeça.
E então eu respiro mais uma vez, olho no fundo desses olhos azuis e sei que tudo isso é bobagem minha. E que é só deixar a vida acontecer e deixar que venha aquela parte do "e eles viveram felizes para sempre".
Porque já está vindo.
Faltam dois dias para o nosso casamento e eu estou aqui, uma furadeira na mão, uma chave de fenda na outra e mil pensamentos martelando na cabeça.
E enquanto eu vejo minha vida, esta minha vida como eu vivi até agora, acabar, eu tento enganar o tempo e adivinhar pedaços dessa vida nova que vem pela frente. Essa vida que começa daqui a dois dias.
E, olha, eu te vejo chegando meio assim para contar que quebrou um dos meus copos de chá, aqueles. E me vejo mal humorado porque bati seu carro naquela vaguinha minúscula na garagem do prédio. Te vejo oferecendo carona num dia de chuva e me vejo turrão saindo de moto mesmo assim. Te vejo chorando com cada surpresinha que eu aprontar, essas besteirinhas que eu invento e que você é generosa o suficiente para enxergar como grandes coisas. Me vejo deliciado com cada jantar especial –e saiba que já estou esperando, porque também não é de graça que quis casar com uma chef de cozinha– que você nos fizer.
Mil pensamentos, coisas boas, coisas difíceis, um monte, e desejo que eu seja o que você espera de mim. Não tenho vergonha de dizer que tenho, sim, um pouco de medo. Medo de te decepcionar. Às vezes me olho e penso que não sou mais que um menino crescido, com uma furadeira na mão, uma chave de fenda na outra e mil pensamentos martelando na cabeça.
E então eu respiro mais uma vez, olho no fundo desses olhos azuis e sei que tudo isso é bobagem minha. E que é só deixar a vida acontecer e deixar que venha aquela parte do "e eles viveram felizes para sempre".
Porque já está vindo.
1.1.11
Dois mil e onze
Gosto de escrever datas por extenso, assim parecem mais importantes. Dois mil e dez foi um bom ano. Não sou de fazer retrospectivas, de fechar para balanço aos trinta e um de dezembro, mas se for para dizer algo, digo isso: dois mil e dez Anno Domini foi um bom ano.
Sei lá, não gosto de fazer listas de compromissos; igualmente, não acho justo exigir nada. Mas, se fosse para pedir algo a dois mil e onze, esse que acaba de nascer e não tem culpa das nossas frustrações passadas, pediria que o sol nascesse trezentas e sessenta e cinco vezes.
Que termine o verão, que passe o outono, que chegue o inverno e venha a primavera.
Também me basta que em dois mil e onze os bebês continuem aprendendo a dar risada, que as crianças continuem tentando andar de bicicleta sem rodinhas, que as donas de casa continuem correndo para tirar as roupas do varal num dia de chuva, que os agricultores sigam plantando e colhendo com generosidade, que os trabalhadores prossigam descansando a cada fim de dia.
Que o amor ainda seja a força mais frágil e mais poderosa do mundo.
E, se pudesse pedir mais um um pouquinho, pediria também que os canários continuem cantando nas janelas logo cedinho. Que os gatos miem nos telhados para avisar como está bonita a lua cheia e que os cachorros façam festa a cada volta dos donos. E, ah!, que os ipês floresçam.
Com o resto eu me arranjo.
Um mestre caminhava à beira de um rio onde a água, correndo entre as pedras, fazia nascer uma infinidade de bolhas. Lá pelas tantas, ele perguntou às bolhas: "quem são vocês?", e elas, quase todas elas, responderam: "eu sou uma bolha!", e havia raiva e indignação –como é que ele pode fazer uma pergunta óbvia dessas?– em suas vozes. Porém, aqui e ali, uma ou outra bolha respondeu: "nós somos este rio", e não havia raiva nem indignação em suas vozes.
Pois que o rio continue fluindo, que o Mestre olhe por suas bolhas, que a resposta brote em nossos lábios. E dois mil e onze será um bom ano.
Sei lá, não gosto de fazer listas de compromissos; igualmente, não acho justo exigir nada. Mas, se fosse para pedir algo a dois mil e onze, esse que acaba de nascer e não tem culpa das nossas frustrações passadas, pediria que o sol nascesse trezentas e sessenta e cinco vezes.
Que termine o verão, que passe o outono, que chegue o inverno e venha a primavera.
Também me basta que em dois mil e onze os bebês continuem aprendendo a dar risada, que as crianças continuem tentando andar de bicicleta sem rodinhas, que as donas de casa continuem correndo para tirar as roupas do varal num dia de chuva, que os agricultores sigam plantando e colhendo com generosidade, que os trabalhadores prossigam descansando a cada fim de dia.
Que o amor ainda seja a força mais frágil e mais poderosa do mundo.
E, se pudesse pedir mais um um pouquinho, pediria também que os canários continuem cantando nas janelas logo cedinho. Que os gatos miem nos telhados para avisar como está bonita a lua cheia e que os cachorros façam festa a cada volta dos donos. E, ah!, que os ipês floresçam.
Com o resto eu me arranjo.
Um mestre caminhava à beira de um rio onde a água, correndo entre as pedras, fazia nascer uma infinidade de bolhas. Lá pelas tantas, ele perguntou às bolhas: "quem são vocês?", e elas, quase todas elas, responderam: "eu sou uma bolha!", e havia raiva e indignação –como é que ele pode fazer uma pergunta óbvia dessas?– em suas vozes. Porém, aqui e ali, uma ou outra bolha respondeu: "nós somos este rio", e não havia raiva nem indignação em suas vozes.
Pois que o rio continue fluindo, que o Mestre olhe por suas bolhas, que a resposta brote em nossos lábios. E dois mil e onze será um bom ano.
20.10.10
Horário de verão
O sol brilhava bonito já indo deitar no meio dos prédios, mas umas poças aqui e ali no campinho de areia lembravam a gente da chuva que havia caído de manhã. Eu passava em frente à praça, subia a ladeira em direção do centro da cidade, quando vi um homem com seus dois cachorros. Soltos.
Só a visão de cachorros já me basta para abrir um sorriso, sou desses de dar bom-dia para os vira-latas na rua. "Bom dia, amigo, que dia bonito, hein?". "Bom dia, amigo, hoje o frio tá bravo, hein?". Às vezes fico pensando como é que pode um bicho ter chegado a esse ponto de ser tão assim.
O cachorro branco, grandão com cara de filhote, rodeava corria pulava saltitava latia fazia festa. O preto, barbinha branca despontando no focinho, andava sossegado, meditando sobre como esses jovens têm energia para gastar.
Segunda-feira –porque domingo não conta, domingo é café-com-leite– começou o horário de verão. Minha cachorrinha dorme na cozinha, abrigada do frio das madrugadas de Curitiba e, quando acendi a luz para tomar café da manhã, ela me olhou com uns olhinhos preguiçosos e ressentidos de "que é que você está fazendo aqui a essa hora?". Não existe horário de verão para os cachorros.
Eu subia a ladeira resmungando atrapalhado com o guarda-chuva numa mão, o livro do James Bond e as blusas que insistiam em ficar caindo na outra. E o filhotão pulava de uma alegria tão pura que me pegou desprevenido. Uma alegria tão canina. Passou numa poça, a água subiu e virou festa, porque o mais velho agora corria e pulava também.
O dono, caminhando com as mãos para trás, não brigou, não xingou, não praguejou. Deixou que os cachorros fossem cachorros. Acho que não viu que, do outro lado da rua, eu sorria também. Aproveitava o horário de verão, o dia até mais tarde para passear na praça e deixar que seus cachorros fossem cachorros.
Não existe horário de verão para os cachorros. Para eles é sempre agora.
Engraçado como tantas vezes são pessoas desconhecidas que me dão os momentos de felicidade mais pura. Que me perdoem os parentes e amigos. É a felicidade inesperada, que vem enquanto subo ladeiras atrapalhado com as mãos cheias de mais coisas que consigo carregar. Como na vez em que demorei na cafeteria e me atrasei para um encontro só para ficar vigiando de canto de olho uma senhora que tomava meia garrafa de vinho e lia, deliciada, um livro do qual, para minha frustração, não consegui ver a capa.
Na terça não acendi a luz e preparei meu café da manhã no escuro.
Só a visão de cachorros já me basta para abrir um sorriso, sou desses de dar bom-dia para os vira-latas na rua. "Bom dia, amigo, que dia bonito, hein?". "Bom dia, amigo, hoje o frio tá bravo, hein?". Às vezes fico pensando como é que pode um bicho ter chegado a esse ponto de ser tão assim.
O cachorro branco, grandão com cara de filhote, rodeava corria pulava saltitava latia fazia festa. O preto, barbinha branca despontando no focinho, andava sossegado, meditando sobre como esses jovens têm energia para gastar.
Segunda-feira –porque domingo não conta, domingo é café-com-leite– começou o horário de verão. Minha cachorrinha dorme na cozinha, abrigada do frio das madrugadas de Curitiba e, quando acendi a luz para tomar café da manhã, ela me olhou com uns olhinhos preguiçosos e ressentidos de "que é que você está fazendo aqui a essa hora?". Não existe horário de verão para os cachorros.
Eu subia a ladeira resmungando atrapalhado com o guarda-chuva numa mão, o livro do James Bond e as blusas que insistiam em ficar caindo na outra. E o filhotão pulava de uma alegria tão pura que me pegou desprevenido. Uma alegria tão canina. Passou numa poça, a água subiu e virou festa, porque o mais velho agora corria e pulava também.
O dono, caminhando com as mãos para trás, não brigou, não xingou, não praguejou. Deixou que os cachorros fossem cachorros. Acho que não viu que, do outro lado da rua, eu sorria também. Aproveitava o horário de verão, o dia até mais tarde para passear na praça e deixar que seus cachorros fossem cachorros.
Não existe horário de verão para os cachorros. Para eles é sempre agora.
Engraçado como tantas vezes são pessoas desconhecidas que me dão os momentos de felicidade mais pura. Que me perdoem os parentes e amigos. É a felicidade inesperada, que vem enquanto subo ladeiras atrapalhado com as mãos cheias de mais coisas que consigo carregar. Como na vez em que demorei na cafeteria e me atrasei para um encontro só para ficar vigiando de canto de olho uma senhora que tomava meia garrafa de vinho e lia, deliciada, um livro do qual, para minha frustração, não consegui ver a capa.
Na terça não acendi a luz e preparei meu café da manhã no escuro.
6.10.10
Titicaca
Sentado à janela do ônibus –uma van velha, lotada de camponeses e com três ovelhas amarradas no bagageiro em cima do teto–, eu apertava os olhos para descobrir até onde ia a paisagem seca e sem cor. O altiplano boliviano, encravado nos Andes. Como se Deus tivesse pisado ali, bem no meio das montanhas, e aplainado com Sua pegada gigantesca um bocado de terra que ia muito além do que meus olhos míopes alcançavam.
Quando era menino, ficava horas fuçando num grande baú de gibis antigos no porão da casa da minha avó. Meus favoritos eram os do tio Patinhas e foi num deles que li o nome pela primeira vez. Não me lembro da história; lembro, para ser bem sincero, de um quadrinho só: um barco de palha sumindo no meio da neblina. Era um lago de água e de nuvens, o lago Titicaca.
O sol brilhava, o motorista xingava o motor velho e barulhento, uma senhora se compadecia –"¡ay, pobrecitas!"– toda vez que as ovelhas amarradas lá em cima baliam, e eu viajava atrás de um sonho de menino. Sozinho. Minha vida havia desabado meses antes e eu tentava procurar nos escombros um resto de mim.
A paisagem custava a mudar mas, aos poucos, o marrom do deserto ia sendo salpicado por um verde tímido aqui e ali. Chegávamos perto. Notei, de repente, num susto, que lá não havia pássaros. Não me lembro de ter visto nenhum nessa viagem.
Quando dei por mim, todos os rostos me olhavam. Eu pensava em pássaros e não notei que estávamos parados e que o motorista berrava. Hora de saltar. Um garoto trepou na escadinha e me arremessou a mochila lá do alto. Puxei uma moeda do bolso e ganhei um sorriso sem dentes quando ele viu que era das graúdas. A van continuou viagem pela estrada poeirenta e sem fim e eu tive dó das ovelhas.
Uma brisa salgada me inflou as narinas e então eu soube que havia chegado. Andei pela rua principal do povoado, entre índias de saias coloridas e toldos de armazéns baratos, até chegar numa subida suave que acabava logo ali adiante. Eu sabia o que me esperava. Corri. A mochila não pesava nada nas costas, o peso nos ombros havia sumido. Travei bem os dentes para que o coração não saltasse para fora. Subi mais um declive leve e então.
Magnífico.
Acho que nunca tinha falado essa palavra. Deixei escapar em voz alta, "magnífico", porque era o que eu via. Um azul profundo. Um azul sagrado, antigo. Ondas suaves lambiam as pedras na margem. Não tinha fim. E ali não era mais a paisagem seca e sem cor, tudo era verde e vicejante. Um azul generoso.
O lago Titicaca. Puxado por mágica de um baú da minha infância, no porão da casa da minha avó.
Contra a luz, vi a silhueta escura de um menino que atirava pedras. O lago parecia não se ofender com a brincadeira, como um pai paciente.
E o sol se punha.
Quando era menino, ficava horas fuçando num grande baú de gibis antigos no porão da casa da minha avó. Meus favoritos eram os do tio Patinhas e foi num deles que li o nome pela primeira vez. Não me lembro da história; lembro, para ser bem sincero, de um quadrinho só: um barco de palha sumindo no meio da neblina. Era um lago de água e de nuvens, o lago Titicaca.
O sol brilhava, o motorista xingava o motor velho e barulhento, uma senhora se compadecia –"¡ay, pobrecitas!"– toda vez que as ovelhas amarradas lá em cima baliam, e eu viajava atrás de um sonho de menino. Sozinho. Minha vida havia desabado meses antes e eu tentava procurar nos escombros um resto de mim.
A paisagem custava a mudar mas, aos poucos, o marrom do deserto ia sendo salpicado por um verde tímido aqui e ali. Chegávamos perto. Notei, de repente, num susto, que lá não havia pássaros. Não me lembro de ter visto nenhum nessa viagem.
Quando dei por mim, todos os rostos me olhavam. Eu pensava em pássaros e não notei que estávamos parados e que o motorista berrava. Hora de saltar. Um garoto trepou na escadinha e me arremessou a mochila lá do alto. Puxei uma moeda do bolso e ganhei um sorriso sem dentes quando ele viu que era das graúdas. A van continuou viagem pela estrada poeirenta e sem fim e eu tive dó das ovelhas.
Uma brisa salgada me inflou as narinas e então eu soube que havia chegado. Andei pela rua principal do povoado, entre índias de saias coloridas e toldos de armazéns baratos, até chegar numa subida suave que acabava logo ali adiante. Eu sabia o que me esperava. Corri. A mochila não pesava nada nas costas, o peso nos ombros havia sumido. Travei bem os dentes para que o coração não saltasse para fora. Subi mais um declive leve e então.
Magnífico.
Acho que nunca tinha falado essa palavra. Deixei escapar em voz alta, "magnífico", porque era o que eu via. Um azul profundo. Um azul sagrado, antigo. Ondas suaves lambiam as pedras na margem. Não tinha fim. E ali não era mais a paisagem seca e sem cor, tudo era verde e vicejante. Um azul generoso.
O lago Titicaca. Puxado por mágica de um baú da minha infância, no porão da casa da minha avó.
Contra a luz, vi a silhueta escura de um menino que atirava pedras. O lago parecia não se ofender com a brincadeira, como um pai paciente.
E o sol se punha.
15.9.10
Dez negrinhos
Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
-Agatha Christie
Eu tinha, sei lá, uns dez anos e, depois do almoço, peguei um livro antigo do meu pai, daqueles amarelados e com as páginas meio caindo. Eu tinha certo preconceito com aqueles livros porque eram amarelados e tinham páginas caindo, mas estava cansado dos meus de sempre –Gulliver, Sinbad, Mogli– e resolvi arriscar. A capa era feia. Chamava-se O caso dos dez negrinhos. Comecei a ler, como quem não quer nada.
Eletrizante, essa é a palavra: eletrizante.
Uma mansão numa ilha. Dez pessoas estranhas. Assassinato. Sobram, então, nove pessoas. Depois, oito e sete e seis.
Era época de aula de manhã e nada para fazer à tarde –a lição de casa eu copiava, rapidinho antes de entrar na sala, de uma menina apaixonada por mim, que eu com dez anos era meio cafajeste, depois tomei jeito–, então pude me dar a um luxo que hoje em dia é raro: li tudo de uma sentada só. O dia já estava escurecendo quando fui chegando ao final do mistério, fervendo a cabeça com um monte de soluções e vislumbrando uma promissora carreira de detetive particular.
Cinco pessoas. Quatro. Três.
Mas eis que. Eis que.
Quando virei uma página, dei com um trecho que, ué, pareceu meio familiar. Virei mais a próxima e mais outra: já tinha lido. Então notei que o livro tinha um defeito: trocaram na gráfica os últimos cadernos de impressão. Então, ao invés das últimas páginas, eu tinha umas repetidas da metade. Necas de final.
Como o bendito devia ter sido comprado há uns vinte anos, era tarde demais para ir à livraria e pedir para trocar. Quando meu pai chegou em casa, corri para perguntar e ele me respondeu só uma risada divertida. Também não sabia o final.
Até hoje não sei quem é o assassino. Ficou esse trauma na minha vida de leitor.
E enquanto eu escrevia isso me veio à cabeça a ideia de guardar o livro para pregar a mesma peça no meu filho.
* * *
120° aniversário da Dama do Suspense, minha singela homenagem.
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
-Agatha Christie
Eu tinha, sei lá, uns dez anos e, depois do almoço, peguei um livro antigo do meu pai, daqueles amarelados e com as páginas meio caindo. Eu tinha certo preconceito com aqueles livros porque eram amarelados e tinham páginas caindo, mas estava cansado dos meus de sempre –Gulliver, Sinbad, Mogli– e resolvi arriscar. A capa era feia. Chamava-se O caso dos dez negrinhos. Comecei a ler, como quem não quer nada.
Eletrizante, essa é a palavra: eletrizante.
Uma mansão numa ilha. Dez pessoas estranhas. Assassinato. Sobram, então, nove pessoas. Depois, oito e sete e seis.
Era época de aula de manhã e nada para fazer à tarde –a lição de casa eu copiava, rapidinho antes de entrar na sala, de uma menina apaixonada por mim, que eu com dez anos era meio cafajeste, depois tomei jeito–, então pude me dar a um luxo que hoje em dia é raro: li tudo de uma sentada só. O dia já estava escurecendo quando fui chegando ao final do mistério, fervendo a cabeça com um monte de soluções e vislumbrando uma promissora carreira de detetive particular.
Cinco pessoas. Quatro. Três.
Mas eis que. Eis que.
Quando virei uma página, dei com um trecho que, ué, pareceu meio familiar. Virei mais a próxima e mais outra: já tinha lido. Então notei que o livro tinha um defeito: trocaram na gráfica os últimos cadernos de impressão. Então, ao invés das últimas páginas, eu tinha umas repetidas da metade. Necas de final.
Como o bendito devia ter sido comprado há uns vinte anos, era tarde demais para ir à livraria e pedir para trocar. Quando meu pai chegou em casa, corri para perguntar e ele me respondeu só uma risada divertida. Também não sabia o final.
Até hoje não sei quem é o assassino. Ficou esse trauma na minha vida de leitor.
E enquanto eu escrevia isso me veio à cabeça a ideia de guardar o livro para pregar a mesma peça no meu filho.
* * *
120° aniversário da Dama do Suspense, minha singela homenagem.
2.9.10
Aos pedaços
Volta e meia me pegam olhando para um banco de praça, um tufo de grama que brotou no meio do asfalto e me puxam as orelhas porque fiquei mudo e me perdi na conversa. O pessoal costuma não entender.
Sei lá quando começou; sei que é de menino. Uma vez me mudei de cidade, de estado, e tive de começar tudo do zero, foi uma barra. Agora, anos depois, já estou bem estabelecido e sigo firme no meu ofício: eu me aproprio de pedaços da cidade.
É impossível amar uma cidade inteira, o que me interessa são só uns pedacinhos. É de pedacinhos que se faz uma cidade e alguns me agradam em especial, então eu os tomo para mim.
Meu inventário é repleto de árvores: tenho, por exemplo, uma meia dúzia de paineiras, dois pessegueiros e três figueiras. Araucárias são oito, desde que uma foi derrubada semana passada, vítima de gente incomodada com os galhos caídos no quintal. Sou dono também de uma cerejeira, mas infelizmente não dela toda: são meus só os galhos do lado de cá. Tenho quase certeza de que um senhor japonês que volta e meia encontro caminhando pela praça com os braços para trás é o dono da outra parte. Mas temos convivido pacificamente.
Não chego ao ponto de tomar casas inteiras, não sou assim pretensioso. Mas sou o dono, por exemplo, do telhadinho em forma de cone na entrada de um casarão, assim como da janela rodeada de trepadeiras no segundo andar de um predinho e dos lambrequins na varanda de uma casinha de madeira. O relógio sem ponteiros na fachada de um sobrado colonial meio caindo aos pedaços: é meu.
Uma vez cheguei a ter um anjo de túmulo, um querubim magnífico de asas abertas e espada em punho que aparecia por cima do muro do cemitério, mas o acabei trocando por um metro e meio do caminho de pedras em frente da capela.
De algumas coisas eu sou dono só em certos horário do dia. Aquele trechinho da alameda só me interessa às quatro e quinze da tarde, quando a luz passa entre os galhos dos álamos e tinge a fachada da charutaria de um tom esverdeado. Já o chafariz só é meu pela manhã, quando os sabiás vão tomar banho por lá; depois pode ser de quem quiser.
Já outros bens são mais difíceis de listar. Sou o feliz proprietário do cheiro de café que se sente quando se atravessa uma certa rua numa certa altura, do raio de luz vermelho –só do vermelho– que passa pelo vitral lateral da basílica numa certa época do ano, do barulho oco que faz quando se pisa numa certa pedra solta do calçamento.
É tudo meu, pago com sorrisos silenciosos, olhares admirados, suspiros de satisfação. Às vezes à vista, às vezes a prestação.
Mas não é assim tão fácil, não ganhei nada assim, de mão beijada. É trabalho duro, muitos passeios, muitos torcicolos de olhar para cima, muitos esbarrões no poste porque estava olhando para outro lado... Sem contar que é difícil ser dono de tantas coisas; preciso sempre passar pelos meus pedaços de cidade para ver se tudo está indo bem.
Mas, tirando um portãozinho que foi arruinado por uma nova pintura cinza, sem graça e quase criminosa, tudo tem andado bem.
Esses dias, tenho desviado meu caminho por uns quarteirões para passar numa rua onde dez ou doze ipês amarelos coloriram o chão e o teto de um dourado que, por Deus, só vendo para saber. Estou me segurando para não tomá-los todos, de uma vez só, para mim. Acho que não resistirei, amanhã cedinho passo lá.
Sei lá quando começou; sei que é de menino. Uma vez me mudei de cidade, de estado, e tive de começar tudo do zero, foi uma barra. Agora, anos depois, já estou bem estabelecido e sigo firme no meu ofício: eu me aproprio de pedaços da cidade.
É impossível amar uma cidade inteira, o que me interessa são só uns pedacinhos. É de pedacinhos que se faz uma cidade e alguns me agradam em especial, então eu os tomo para mim.
Meu inventário é repleto de árvores: tenho, por exemplo, uma meia dúzia de paineiras, dois pessegueiros e três figueiras. Araucárias são oito, desde que uma foi derrubada semana passada, vítima de gente incomodada com os galhos caídos no quintal. Sou dono também de uma cerejeira, mas infelizmente não dela toda: são meus só os galhos do lado de cá. Tenho quase certeza de que um senhor japonês que volta e meia encontro caminhando pela praça com os braços para trás é o dono da outra parte. Mas temos convivido pacificamente.
Não chego ao ponto de tomar casas inteiras, não sou assim pretensioso. Mas sou o dono, por exemplo, do telhadinho em forma de cone na entrada de um casarão, assim como da janela rodeada de trepadeiras no segundo andar de um predinho e dos lambrequins na varanda de uma casinha de madeira. O relógio sem ponteiros na fachada de um sobrado colonial meio caindo aos pedaços: é meu.
Uma vez cheguei a ter um anjo de túmulo, um querubim magnífico de asas abertas e espada em punho que aparecia por cima do muro do cemitério, mas o acabei trocando por um metro e meio do caminho de pedras em frente da capela.
De algumas coisas eu sou dono só em certos horário do dia. Aquele trechinho da alameda só me interessa às quatro e quinze da tarde, quando a luz passa entre os galhos dos álamos e tinge a fachada da charutaria de um tom esverdeado. Já o chafariz só é meu pela manhã, quando os sabiás vão tomar banho por lá; depois pode ser de quem quiser.
Já outros bens são mais difíceis de listar. Sou o feliz proprietário do cheiro de café que se sente quando se atravessa uma certa rua numa certa altura, do raio de luz vermelho –só do vermelho– que passa pelo vitral lateral da basílica numa certa época do ano, do barulho oco que faz quando se pisa numa certa pedra solta do calçamento.
É tudo meu, pago com sorrisos silenciosos, olhares admirados, suspiros de satisfação. Às vezes à vista, às vezes a prestação.
Mas não é assim tão fácil, não ganhei nada assim, de mão beijada. É trabalho duro, muitos passeios, muitos torcicolos de olhar para cima, muitos esbarrões no poste porque estava olhando para outro lado... Sem contar que é difícil ser dono de tantas coisas; preciso sempre passar pelos meus pedaços de cidade para ver se tudo está indo bem.
Mas, tirando um portãozinho que foi arruinado por uma nova pintura cinza, sem graça e quase criminosa, tudo tem andado bem.
Esses dias, tenho desviado meu caminho por uns quarteirões para passar numa rua onde dez ou doze ipês amarelos coloriram o chão e o teto de um dourado que, por Deus, só vendo para saber. Estou me segurando para não tomá-los todos, de uma vez só, para mim. Acho que não resistirei, amanhã cedinho passo lá.
20.8.10
Batatas
Um dia, não lembro quando, me servi num restaurante, um desses buffets por quilo do centro da cidade. Não lembro se foi essa a primeira vez em que estive lá. Não lembro do que peguei –meio prato de salada, uma colher de arroz, provavelmente–, só lembro das duas metades de batata.
Eu estava sozinho na mesa, de frente para uma vidraça que dava para a rua. Lá fora era um dia ensolarado, não lembro se de inverno ou verão. As pessoas faziam fila para pagar no caixa, uma menina dessas estudantes de cursinho esbarrou com a bolsa de livros em mim –o que normalmente eu levaria como ofensa pessoal–, mas eu nem tomei muito conhecimento.
Talvez eu esteja adivinhando ou inventando essas coisas mais do que lembrando realmente.
Só o que lembro com certeza, com absoluta certeza, é das duas metades de batata. Benditas batatas. Lembro, também com certeza, de ter mastigado cada pedaço delas sorrindo de uma satisfação tranquila, esperando que tão logo não acabassem.
Não saberei descrever. Tinham uma casca fina e dourada por fora, um queimadinho da assadeira quente na parte de baixo. Por dentro eram macias, úmidas.
No fundo, era batata e só. Batata e mais nada.
Quem me conhece sabe do prazer que tenho em comer. É o luxo que me permito. Não coleciono, não junto nada. Não dou a mínima para carro roupa perfume eletrônico equipamento o que quer que seja. Mas gosto de comer bem. Não muito, mas bem. E nada nunca me tocou tanto quanto aquelas duas metades de batata.
Terminei de comer e fiquei ainda um pouco na mesa. Levantei, paguei a comanda e saí. Na rua, me arrependi de não ter beijado as mãos da cozinheira.
Por anos eu voltei ao mesmo restaurante duas ou três vezes por semana depois disso, mas nunca mais almocei batatas como aquelas.
É uma história meio ridícula, um segredo meu.
Mas, sei lá, fiquei com vontade de contar isso hoje.
Eu estava sozinho na mesa, de frente para uma vidraça que dava para a rua. Lá fora era um dia ensolarado, não lembro se de inverno ou verão. As pessoas faziam fila para pagar no caixa, uma menina dessas estudantes de cursinho esbarrou com a bolsa de livros em mim –o que normalmente eu levaria como ofensa pessoal–, mas eu nem tomei muito conhecimento.
Talvez eu esteja adivinhando ou inventando essas coisas mais do que lembrando realmente.
Só o que lembro com certeza, com absoluta certeza, é das duas metades de batata. Benditas batatas. Lembro, também com certeza, de ter mastigado cada pedaço delas sorrindo de uma satisfação tranquila, esperando que tão logo não acabassem.
Não saberei descrever. Tinham uma casca fina e dourada por fora, um queimadinho da assadeira quente na parte de baixo. Por dentro eram macias, úmidas.
No fundo, era batata e só. Batata e mais nada.
Quem me conhece sabe do prazer que tenho em comer. É o luxo que me permito. Não coleciono, não junto nada. Não dou a mínima para carro roupa perfume eletrônico equipamento o que quer que seja. Mas gosto de comer bem. Não muito, mas bem. E nada nunca me tocou tanto quanto aquelas duas metades de batata.
Terminei de comer e fiquei ainda um pouco na mesa. Levantei, paguei a comanda e saí. Na rua, me arrependi de não ter beijado as mãos da cozinheira.
Por anos eu voltei ao mesmo restaurante duas ou três vezes por semana depois disso, mas nunca mais almocei batatas como aquelas.
É uma história meio ridícula, um segredo meu.
Mas, sei lá, fiquei com vontade de contar isso hoje.
14.8.10
Como respirar
Pediram outro dia que eu contasse como nos conhecemos, como me apaixonei.
Não soube dizer.
É como se você estivesse sempre aqui.
Não sei dizer.
Amar você é como respirar: não sei como aprendi, não sei explicar como se faz. Um dia cheguei ao mundo e respirei, e isso é a vida. Um dia você chegou e eu te amei, e isso é a vida.
Não me interessa saber por que respiro, não me interessa saber por que amo. Só respiro e vivo. Só amo e vivo.
É como se eu tivesse aprendido você tão mansa, tão naturalmente quanto aprendi a andar ou a falar. É como se cada passo meu só tivesse me levado na sua direção, e estar numa madrugada escrevendo cartas de amor não fosse nada mais que o resultado da caminhada. Não me espanta que eu te ame.
Nos conhecemos há tantos anos –oito, nove, dez?—, não lembro ao certo como, onde, quando. A vida seguiu. Um dia abri os olhos e soube que te amava, não lembro direito. Essa história não saberei jamais contar. Só sei do dia vinte e oito de fevereiro, o dia da minha coragem, e do que temos vivido desde então. De antes, não sei dizer.
Eu não lembro mais de como era a vida antes de você. Não lembro de como eram os sábados, os domingos. Não lembro de como era dormir sem antes fazer uma prece silenciosa. Não lembro de com que olhos eu olhava para o céu estrelado.
(Sabe esses dias bem frios aqui de Curitiba quando a gente vê pela televisão alguma praia do outro lado do Brasil e parece que não consegue lembrar como é o calor, não consegue nem se imaginar de roupa de banho?)
Talvez eu não vivesse, talvez eu não tivesse sábados nem domingos, talvez eu não rezasse, talvez eu fosse cego e não enxergasse o céu. Não lembro.
Sei que amanhã é domingo, é o seu aniversário, e eu estarei com você. Sei que debaixo desse mesmo céu estrelado você dorme, talvez sonhando os mesmos sonhos que eu. Sinto o peito arfar, então sei também que respiro e que amo.
Só sei que respiro. Só sei que amo
Isso é o que me basta saber.
Tudo o que me basta saber.
Não soube dizer.
É como se você estivesse sempre aqui.
Não sei dizer.
Amar você é como respirar: não sei como aprendi, não sei explicar como se faz. Um dia cheguei ao mundo e respirei, e isso é a vida. Um dia você chegou e eu te amei, e isso é a vida.
Não me interessa saber por que respiro, não me interessa saber por que amo. Só respiro e vivo. Só amo e vivo.
É como se eu tivesse aprendido você tão mansa, tão naturalmente quanto aprendi a andar ou a falar. É como se cada passo meu só tivesse me levado na sua direção, e estar numa madrugada escrevendo cartas de amor não fosse nada mais que o resultado da caminhada. Não me espanta que eu te ame.
Nos conhecemos há tantos anos –oito, nove, dez?—, não lembro ao certo como, onde, quando. A vida seguiu. Um dia abri os olhos e soube que te amava, não lembro direito. Essa história não saberei jamais contar. Só sei do dia vinte e oito de fevereiro, o dia da minha coragem, e do que temos vivido desde então. De antes, não sei dizer.
Eu não lembro mais de como era a vida antes de você. Não lembro de como eram os sábados, os domingos. Não lembro de como era dormir sem antes fazer uma prece silenciosa. Não lembro de com que olhos eu olhava para o céu estrelado.
(Sabe esses dias bem frios aqui de Curitiba quando a gente vê pela televisão alguma praia do outro lado do Brasil e parece que não consegue lembrar como é o calor, não consegue nem se imaginar de roupa de banho?)
Talvez eu não vivesse, talvez eu não tivesse sábados nem domingos, talvez eu não rezasse, talvez eu fosse cego e não enxergasse o céu. Não lembro.
Sei que amanhã é domingo, é o seu aniversário, e eu estarei com você. Sei que debaixo desse mesmo céu estrelado você dorme, talvez sonhando os mesmos sonhos que eu. Sinto o peito arfar, então sei também que respiro e que amo.
Só sei que respiro. Só sei que amo
Isso é o que me basta saber.
Tudo o que me basta saber.
27.7.10
Avôs
Desencontramos.
Quando cheguei ao mundo, meus dois avôs já não estavam mais aqui. Coisa de poucos meses. Vô Amaro levado por um infarto fulminante, num episódio particularmente trágico; vô Agenor, por um câncer implacável que o derrubou em poucas semanas. Um seguido do outro. Desencontramos, foi isso.
Meu pai foi –e continua sendo, e Deus permita que seja por muito tempo– o melhor pai que se possa imaginar. Cumpriu em tudo o papel de pai, de amigo, de companheiro, de contador de histórias, de jogador de futebol, de mecânico de bicicletas, de engenheiro de pipas, de biólogo de zoológico. De herói. Mas um papel ele não pôde cumprir, porque não era dele.
Vô Agenor garçom, vô Amaro sapateiro. É quase tudo o que sei sobre eles: os nomes, profissões e uma meia dúzia de outras coisas. Por mais ridículo que pareça, às vezes fico conversando sozinho, contando a mim mesmo essas histórias, inventando algumas outras, como se fosse um menino de oito anos.
Falta vô Amaro aqui para esclarecer a saga da família em Minas Gerais e confirmar os causos do João Marra. Falta vô Agenor para contar a vida de colono no Paraná e repetir mil vezes como foi servir um martini ao Frank Sinatra. Como conheceram minhas avós, como as roubaram de casa. Como viveram os anos de dificuldade, como foram parar em São Paulo.
Quanto a mim, gostaria de mostrar que ando com a voz até que boa para acompanhar uma moda de viola, que consigo distinguir o canto de um ou outro passarinho. Gostaria de aprender a colher café, a pescar, a dançar bolero. Gostaria de acompanhar à barbearia, de sentar à calçada num fim de tarde. Gostaria de apresentar aos dois minha namorada, de dizer que agora ela é noiva, de ter anunciado a data do casamento, de vê-los no altar quando entrar na igreja. E, Deus, como eu gostaria de colocar um bisneto nos braços deles.
Sou uma árvore meio capenga, porque me falta um pedaço de raiz.
De todas, acho que essa é minha maior mágoa, por ser a única que não tem, e não terá jamais, remédio. Não tenho o consolo de alguma lembrança. Não tenho com que tampar, ou esconder um pouco que seja, esse buraco na alma. Tenho uma avó também já falecida, mas dela tenho o consolo dos anos de memórias, da convivência, do último encontro. De meus avôs não tenho absolutamente nada, nem mesmo o choro da perda.
Faz um tempo, mandei emoldurar uma gravura que ganhei de um amigo. Entrei numa loja dessas antigas no centro velho e dei com um senhor desses respeitáveis, de terno cinza, olhos fundos e boina de lã. Soube que não poderia deixar o serviço em melhores mãos. Ao fechar a porta de vidro, vi no fundo da oficina um garoto que batia pregos com um martelinho e tive de engolir o choro.
Deus sabe o quanto eu queria ter sentado ao lado do vô Amaro na sapataria, engraxando sapatos. Deus sabe o quanto eu queria ter andado ao lado do vô Agenor no restaurante, carregando pratos. Talvez por isso eu tenha indagado por anos a fio minhas avós em busca de pedaços de passado. Talvez por isso eu me pegue às vezes, sozinho em casa, olhando escondido o canivete que minha mãe guarda na gaveta e o par de botas que meu pai tem no armário.
Porque a vida quis assim: a maior saudade que eu carrego é de dois homens que jamais conheci.
* * *
E por isso eu queria dedicar este post ao sr. Newton Maiewski, avô da minha noiva, que todo fim de semana abre o portão para que eu chegue com a moto, empresta o jornal e conta as últimas do futebol e da política.
Quando cheguei ao mundo, meus dois avôs já não estavam mais aqui. Coisa de poucos meses. Vô Amaro levado por um infarto fulminante, num episódio particularmente trágico; vô Agenor, por um câncer implacável que o derrubou em poucas semanas. Um seguido do outro. Desencontramos, foi isso.
Meu pai foi –e continua sendo, e Deus permita que seja por muito tempo– o melhor pai que se possa imaginar. Cumpriu em tudo o papel de pai, de amigo, de companheiro, de contador de histórias, de jogador de futebol, de mecânico de bicicletas, de engenheiro de pipas, de biólogo de zoológico. De herói. Mas um papel ele não pôde cumprir, porque não era dele.
Vô Agenor garçom, vô Amaro sapateiro. É quase tudo o que sei sobre eles: os nomes, profissões e uma meia dúzia de outras coisas. Por mais ridículo que pareça, às vezes fico conversando sozinho, contando a mim mesmo essas histórias, inventando algumas outras, como se fosse um menino de oito anos.
Falta vô Amaro aqui para esclarecer a saga da família em Minas Gerais e confirmar os causos do João Marra. Falta vô Agenor para contar a vida de colono no Paraná e repetir mil vezes como foi servir um martini ao Frank Sinatra. Como conheceram minhas avós, como as roubaram de casa. Como viveram os anos de dificuldade, como foram parar em São Paulo.
Quanto a mim, gostaria de mostrar que ando com a voz até que boa para acompanhar uma moda de viola, que consigo distinguir o canto de um ou outro passarinho. Gostaria de aprender a colher café, a pescar, a dançar bolero. Gostaria de acompanhar à barbearia, de sentar à calçada num fim de tarde. Gostaria de apresentar aos dois minha namorada, de dizer que agora ela é noiva, de ter anunciado a data do casamento, de vê-los no altar quando entrar na igreja. E, Deus, como eu gostaria de colocar um bisneto nos braços deles.
Sou uma árvore meio capenga, porque me falta um pedaço de raiz.
De todas, acho que essa é minha maior mágoa, por ser a única que não tem, e não terá jamais, remédio. Não tenho o consolo de alguma lembrança. Não tenho com que tampar, ou esconder um pouco que seja, esse buraco na alma. Tenho uma avó também já falecida, mas dela tenho o consolo dos anos de memórias, da convivência, do último encontro. De meus avôs não tenho absolutamente nada, nem mesmo o choro da perda.
Faz um tempo, mandei emoldurar uma gravura que ganhei de um amigo. Entrei numa loja dessas antigas no centro velho e dei com um senhor desses respeitáveis, de terno cinza, olhos fundos e boina de lã. Soube que não poderia deixar o serviço em melhores mãos. Ao fechar a porta de vidro, vi no fundo da oficina um garoto que batia pregos com um martelinho e tive de engolir o choro.
Deus sabe o quanto eu queria ter sentado ao lado do vô Amaro na sapataria, engraxando sapatos. Deus sabe o quanto eu queria ter andado ao lado do vô Agenor no restaurante, carregando pratos. Talvez por isso eu tenha indagado por anos a fio minhas avós em busca de pedaços de passado. Talvez por isso eu me pegue às vezes, sozinho em casa, olhando escondido o canivete que minha mãe guarda na gaveta e o par de botas que meu pai tem no armário.
Porque a vida quis assim: a maior saudade que eu carrego é de dois homens que jamais conheci.
* * *
E por isso eu queria dedicar este post ao sr. Newton Maiewski, avô da minha noiva, que todo fim de semana abre o portão para que eu chegue com a moto, empresta o jornal e conta as últimas do futebol e da política.
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