Série especial de aniversário
(publicado originalmente em 8.5.2008)
Há meses eu tento escrever uma história de suspense com cartas de tarot. O Calvino escreveu um livro só com isso e ficou genial; eu nem tenho tanta pretensão, só queria uma história curtinha mesmo. Mas deparo-me sempre com dois problemas: nem eu acredito muito e nem eu entendo nada de tarot. Nadinha. O negócio é que acho as cartas muito charmosas, vejo nelas uma possibilidade literária muito grande. Sem contar que aumentaria minha popularidade escrever sobre coisas assim esotéricas —vejam só o Paulo Coelho.
Pensei talvez numa coisa assim: uma mulher de roupão de seda cai do décimo terceiro andar de um hotel no centro da cidade. Aquela comoção, os populares fazem roda para olhar, os bombeiros e o socorro chegam tarde demais, o IML é chamado. Então um rapaz repara que ela segura uma carta na mão esquerda. Num gesto meio impensado, ele pega a carta e esconde debaixo das blusas. Não sabe por quê fez isso, mas sentiu que devia, as teias invisíveis do destino o moveram. Sai andando apressado, as mãos suando de nervosismo. Dobra a primeira esquina, entra, ofegante, numa cabine telefônica e olha para a carta que tem escondida sob a jaqueta: é a rainha de copas.
Ou assim: um sujeito entra num pub. O lugar é meio escuro, quase vazio, o neon atrás do balcão pisca de tempos em tempos, no fundo toca um blues. Num dos cantos, um cara meio estranho, encapuzado, dispõe um baralho na mesa. Nosso sujeito senta no balcão e pede um uísque duplo, cowboy. Passou por um dia muito difícil, precisa de um bom trago para pensar na vida, nas teias invisíveis do destino. O barman erra no pedido e serve rum com duas pedras de gelo. Porém, quando nosso amigo levanta os olhos para reclamar, vê que o barman sumiu. Então o homem do capuz vem na sua direção e lhe entrega uma carta: é o enforcado.
Ou então: um contador solteirão resolve comemorar a aposentadoria com uma viagem no Expresso do Oriente. Numa noite, enquanto toma uma sopa no vagão restaurante, ele é abordado por um sujeito visivelmente transtornado que fala algo sobre as teias invisíveis do destino, entrega-lhe um envelope e sai, apressado. Em seguida, passa por ali um russo albino enorme, mais parece um urso polar, com uma cicatriz que vai de fora a fora no rosto, e toma o mesmo rumo. Ouve-se um estampido lá fora. Nenhum dos dois aparece de volta. Mais tarde, na sua cabine, o contador abre o envelope: dentro há uma carta de tarot, o arcano do usurpador.
E aí é que entram mais problemas: não sei como terminar nenhuma das possibilidades, suspeito que minha interpretação das cartas esteja errada e acho que nem deve existir um arcano —se é que é mesmo essa a palavra, "arcano"— do usurpador.
Melhor deixar para lá, viu?
* * *
Esse post ganhou uma releitura –muito melhor que meu texto original– que foi publicada pela Stephanie no blog dela.
8.12.09
7.12.09
Desencontros
Série especial de aniversário
(publicado originalmente em 29.3.2007)
Ela vinha descendo a rua. Avoada, pensava na vida, cabeça de mulher. Bonita, feminina, atraente, essas coisas. Inteligente, adorava arte e sabia tudo sobre café. Ia a confeitarias e reproduzia as receitas em casa no fim de semana. Gostava da cumplicidade, da troca de olhares, dos segredinhos em comum, de dançar coladinho. Fazia yoga e viajava quando podia.
Ele vinha subindo a rua. Olhava, mas não via nada, cabeça de homem. Boa pinta, bem vestido, perfume, essas coisas. Culto, gostava de literatura e entendia de vinhos. Apreciava boa comida, sabia cozinhar alguma coisa. Gostava da provocação, do flerte, do beijo no cantinho da boca, de oferecer rosas, deixar bilhetinhos. Lutava boxe e acampava quando podia.
Ela chegou na esquina. Perguntava-se onde arranjaria um homem bonito, mas não assim comum. Um cara que se interessasse pela sua vida, que visitasse sua família aos fins de semana sem fazer cara feia. Que a levasse num lugarzinho charmoso e falasse sobre música e poesia, mas também roubasse um beijo, de sopetão. Refinado, sensível, mas masculino como homens devem ser.
Ele chegou na esquina. Queria saber se um dia conseguiria uma mulher bonita, mas inteligente, de personalidade. Uma assim que gostasse das suas coisas, que lhe acompanhasse num passeio no parque com o cachorro. Que lhe provocasse e deixasse as coisas no ar, mas também sorrisse com doçura quando ele a olhasse nos olhos. Firme, decidida, mas feminina como mulheres devem ser.
Ela parou para esperar os carros. Gostava do último namorado, mas acabou desiludida. As amigas ajudaram, chorou até esquecer. Ia sozinha ao cinema e sentia a falta de um ombro onde se acomodar durante o filme. Imaginava quando conheceria o homem que a faria pensar em filhos.
Ele parou para esperar os carros. Era apaixonado pela última namorada, mas ela o acabou deixando. Consolou-se, ocupou-se até esqueceu. Saía com os colegas depois do trabalho e invejava de longe a felicidade dos casais. Pensava se um dia voltaria a fazer planos ao lado de uma mulher.
Os carros pararam e ela atravessou. Olhou, preocupada, para a esquerda, para certificar-se que os carros não avançariam. Não viu o homem atrapalhado que passou ao seu lado.
Os carros pararam e ele atravessou. O celular tocou e ele atrapalhou-se procurando o aparelho no bolso. Não reparou na mulher preocupada que passou bem ao seu lado.
Ela continua duvidando que exista um homem que valha a pena. Ele continua não acreditando em alma gêmea. E vão andando por aí.
(publicado originalmente em 29.3.2007)
Ela vinha descendo a rua. Avoada, pensava na vida, cabeça de mulher. Bonita, feminina, atraente, essas coisas. Inteligente, adorava arte e sabia tudo sobre café. Ia a confeitarias e reproduzia as receitas em casa no fim de semana. Gostava da cumplicidade, da troca de olhares, dos segredinhos em comum, de dançar coladinho. Fazia yoga e viajava quando podia.
Ele vinha subindo a rua. Olhava, mas não via nada, cabeça de homem. Boa pinta, bem vestido, perfume, essas coisas. Culto, gostava de literatura e entendia de vinhos. Apreciava boa comida, sabia cozinhar alguma coisa. Gostava da provocação, do flerte, do beijo no cantinho da boca, de oferecer rosas, deixar bilhetinhos. Lutava boxe e acampava quando podia.
Ela chegou na esquina. Perguntava-se onde arranjaria um homem bonito, mas não assim comum. Um cara que se interessasse pela sua vida, que visitasse sua família aos fins de semana sem fazer cara feia. Que a levasse num lugarzinho charmoso e falasse sobre música e poesia, mas também roubasse um beijo, de sopetão. Refinado, sensível, mas masculino como homens devem ser.
Ele chegou na esquina. Queria saber se um dia conseguiria uma mulher bonita, mas inteligente, de personalidade. Uma assim que gostasse das suas coisas, que lhe acompanhasse num passeio no parque com o cachorro. Que lhe provocasse e deixasse as coisas no ar, mas também sorrisse com doçura quando ele a olhasse nos olhos. Firme, decidida, mas feminina como mulheres devem ser.
Ela parou para esperar os carros. Gostava do último namorado, mas acabou desiludida. As amigas ajudaram, chorou até esquecer. Ia sozinha ao cinema e sentia a falta de um ombro onde se acomodar durante o filme. Imaginava quando conheceria o homem que a faria pensar em filhos.
Ele parou para esperar os carros. Era apaixonado pela última namorada, mas ela o acabou deixando. Consolou-se, ocupou-se até esqueceu. Saía com os colegas depois do trabalho e invejava de longe a felicidade dos casais. Pensava se um dia voltaria a fazer planos ao lado de uma mulher.
Os carros pararam e ela atravessou. Olhou, preocupada, para a esquerda, para certificar-se que os carros não avançariam. Não viu o homem atrapalhado que passou ao seu lado.
Os carros pararam e ele atravessou. O celular tocou e ele atrapalhou-se procurando o aparelho no bolso. Não reparou na mulher preocupada que passou bem ao seu lado.
Ela continua duvidando que exista um homem que valha a pena. Ele continua não acreditando em alma gêmea. E vão andando por aí.
Sete, seis, cinco, quatro...
Contagem regressiva! Semana que vem, dia 14, o Acepipes sopra velinhas. Três anos, está virando um rapazinho já.
Como forma de comemorar –e de apresentar coisas antigas para os leitores novos–, vou publicar durante uma semana, todos os dias, os que eu julgo os melhores posts que já apareceram nessas páginas verdes. Pode ser?
Como forma de comemorar –e de apresentar coisas antigas para os leitores novos–, vou publicar durante uma semana, todos os dias, os que eu julgo os melhores posts que já apareceram nessas páginas verdes. Pode ser?
1.12.09
30.11.09
Filmes #6
Estava assistindo o filme sobre a vida do mestre zen Dogen Zenji, e lá pelas tantas ele diz: "Flores na primavera, cucos no verão, a lua no outono, neve gelada no inverno". Genial. Simplesmente genial. Fiquei pensando como ele definiria o mundo hoje, quando faz frio no verão, chove no inverno, existe furacão no Brasil e a flor de maio lá de casa está desabrochando agora.
28.11.09
Ps.
E agora eu conto pra você que deixei a carta aqui –e minhas histórias ficaram esperando– até que chegasse o próximo dia 28 e com isso ganho mais um sorriso daqueles que iluminam meus dias.
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