9.12.11

Compras de Natal

          baseado num dos cartões do sempre
          surpreendente Post Secrets

Acontece bastante, já deve ter se passado com quase todo mundo: num mercado, numa loja, num restaurante, alguém nos chama a atenção, sabe-se lá o porquê. E aí acompanhamos, de canto de olho e só por uns minutos ou até uns segundos, aquele amigo. Uma coisa silenciosa, meio clandestina. Adivinhamos um pouco da história, inventamos outro tanto, desejamos boa noite, bom descanso, que chegue bem em casa. Um tipo de afeto, uma certa curiosidade, alguma simpatia...
     Que foi bem o que aconteceu com uma moça enquanto empurrava o carrinho pelo supermercado. Já comprara um litro de leite, umas frutas e a comida do gato e agora andava pelos corredores, tentando resolver a sensação de que faltava alguma coisa.
     Entre as montanhas de panetones, ela cruzou com uma mulher de meia idade, gestos vivos e olhos cansados, cabelos precisando de um retoque. Uma mulher dessas que, de bater os olhos, sabe-se que é mãe, não só dos filhos que têm -ou talvez nem tenha-, mas de muita gente. Empurrava um carrinho cheio de brinquedos em direção dos caixas.
     Filhos? Netos? Crianças carentes, órfãos, vizinhos pobres...?
     A moça largou da sensação de faltar algo -quase nunca falta- e decidiu também ir ao caixa. Ficou ali, escondendo um sorriso e fingindo que olhava um panfleto, enquanto via passar uns carrinhos, uma boneca, um urso de pelúcia, uma locomotiva, uns jogos de montar, um disquinho de músicas natalinas.
     Depois da senha, o garoto do caixa falou indiferente que o cartão não foi autorizado. A senhora pareceu olhar para cima e pediu que tentasse no crédito. Foram uns segundos angustiantes até o segundo não.
     A senhora agradeceu e saiu da loja de mão vazias.
     Mas então a moça foi rápida; na mesma hora soube o que fazer. Sempre  sabemos, só precisa a coragem. Pediu ao caixa que passasse todos os brinquedos deixados e pagou por tudo. Correu empurrando o carrinho cheio de brinquedos até o carro onde a senhora, de olhos vermelhos, já dava a partida e bateu no vidro.
     O motor engasgou e morreu.
      Uma do lado de dentro, outra do lado de fora, começaram a chorar. A moça se descobriu também uma mãe, não só dos filhos que ainda não tinha mas de muitos outros. A mulher de meia idade abriu a porta e deu um abraço atrapalhado, demorado. Ajudaram-se a colocar tudo com cuidado no banco de trás.
     Quando conseguiu falar, a senhora agradeceu, abençoou, agradeceu, chorou, agradeceu e pediu um telefone, fazia questão de pagar assim que pudesse. E a moça, pela segunda vez, soube o que fazer: puxou um bloquinho e uma canetinha da bolsa e escreveu um número falso.
     Pediu à senhora se podia dar-lhe mais um abraço e foi embora. Só quando chegou em casa notou que esquecera seu leite, suas frutas e a comida do gato.
     E era Natal.

7 comentários:

Natalia Máximo disse...

Realmente, o PostSecret sempre surpreende. Os seus textos também - e foi esse postal que mais chamou minha atenção (:

Luana Natália disse...

Nossa, eu amei esse texto! Amei demais. Que pessoa faz o que ela fez, nos dias de hoje? Mesmo sendo Natal, acho muito improvável existir alguém com tamanha bondade.

Henrique Miné disse...

A pergunta é, e se não fosse?

Abraço!

Maria Cristina disse...

Com Natal ou sem Natal! Olhar o outro e se reconhecer só tem a ver com a sensibilidade do humano que somos! Muito bonito o texto.

Flávia Feijó disse...

Visitei seu blog por causa do post "Namore um cara que lê" e, bem, me apaixonei pelo seu texto.
Já está na lista dos links recomendados do meu blog. A propósito, segue o link do meu para caso queira retribuir a visita: www.sobretudoideias.blosgspot.com

Voltarei aqui sempre que possível!
Bjs

BA MORETTI disse...

Seus textos são daqueles que você se sente junto a história. Sabe, como se fossemos parte delas mesmo que só como mosquinhas acompanhando tudo e todos. Adorei! São ótimos!

Ana disse...

Gostei bastante! Você escreve de uma maneira simples e grandiosa.

Escreve muito bem, mesmo.

Encontrei seu blog através de uma postagem de um texto seu no face. "Namore um cara que lê" desde então, sempre que posso, leio suas postagens, que, diga-se de passagem, são repletas de humanidade, de simploriedade, de sentimentos reais expressos em palavras.