(os livros e eu, cap. i )
O tempo passou e deixou a impressão de que toda tarde naquele apartamento era ensolarada e de que todo dia tínhamos bolo formigueiro saindo do forno. Minha caneca era verde, a do meu irmão do meio, azul. O mais novo ainda tomava mamadeira, mas também ganhou uma igual —marrom— quando cresceu o bastante. E éramos felizes.
Lembro da minha impaciência naquelas férias que, pareciam, não tinham mais fim. Parecia não chegar nunca o dia de estrear meu uniforme amarelo e, finalmente, aprender a ler. Minha mãe sentava-se no sofá, colocava um livro entre nós e lia, apontando paciente as ilustrações.
Livros são caros, os tempos não eram fáceis, e então tínhamos só uns poucos. Uns poucos e abençoados livrinhos que meu pai comprava com o salário sacrificado de três empregos. Uns poucos e abençoados que minha mãe não se importava de ler e reler para um menino faminto de histórias.
Às vezes uma panela no fogo ou o choro de um outro filho a obrigavam a apressar a coisa e pular uma parte ou outra. Mas não adiantava: de tanto ouvir aquelas mesmas histórias, eu já sabia cada uma delas de cor. Podia recitar de memória cada página, cada frase. Então, eu a fazia parar, voltava a página, apontava e "lia" o que ela havia esquecido. Paciência de mãe é uma coisa maravilhosa.
E talvez isso resuma meu amor aos livros: eu os lia antes de saber ler.
À noite, meu pai chegava e, no pé da cama, contava aventuras para meus irmãos e eu. E, olha, está para nascer alguém que imite melhor o urso Baloo.
* * *
Faz um tempo tive essa ideia: uma série de posts sobre os livros da minha vida. Não que interesse a alguém, mas vai que numa dessas... Segunda-feira, então, de quinze em quinze dias, será dia de livro aqui no Acepipes.
31.10.11
26.9.11
Mamões e casamento
Faz um tempo, minha esposa tomou a missão de colocar frutas no meu café da manhã.
Outro dia, uma tarde chuvosa, saí do trabalho e passei no mercado para comprar alguns mamões. Na banquinha, achei só uns poucos, e todos meio feios. Garimpei, escolhi os mais apresentáveis e acabei conseguindo três, cada um com algum defeito pequeno.
Na manhã seguinte, cortei o primeiro em dois: uma metade com umas marcas de batida na casca e a outra perfeita. Comi a parte pior –tive que jogar uma colherada no lixo– e deixei a melhor sobre o balcão da cozinha. Mesma coisa fiz na segunda manhã, com o segundo. O último que sobrou na geladeira tinha uns pontos pretos; virei-o na prateleira de um jeito que escondesse as manchas.
Pois hoje, dia do último mamão, minha mulher acordou mais cedo –normalmente eu me levanto meia hora antes– e, quando eu saí do banho, ela já tinha tomado café da manhã e cantarolava no quarto. Fui para a cozinha e estava lá meu cereal, o leite, o pão, os frios e uma metade de mamão. Na hora, lembrei dos pontinhos podres e virei o bendito para ver: imaculado. Minha esposa acabara de ficar com o pedaço ruim.
Pegando a colher, me senti meio culpado por não ter ido à cozinha antes que ela. Mas, no segundo seguinte, pensei que isso seria negar que ela também pudesse fazer algo por mim. Imagino que tenha ficado feliz por ter saído da cama mais cedo para descobrir a parte ruim do mamão e escondê-la de mim, a mesma alegria silenciosa que eu tivera nos dois dias anteriores. Porque, no fundo, um casamento é isso: oferecer ao outro sempre a melhor metade.
Outro dia, uma tarde chuvosa, saí do trabalho e passei no mercado para comprar alguns mamões. Na banquinha, achei só uns poucos, e todos meio feios. Garimpei, escolhi os mais apresentáveis e acabei conseguindo três, cada um com algum defeito pequeno.
Na manhã seguinte, cortei o primeiro em dois: uma metade com umas marcas de batida na casca e a outra perfeita. Comi a parte pior –tive que jogar uma colherada no lixo– e deixei a melhor sobre o balcão da cozinha. Mesma coisa fiz na segunda manhã, com o segundo. O último que sobrou na geladeira tinha uns pontos pretos; virei-o na prateleira de um jeito que escondesse as manchas.
Pois hoje, dia do último mamão, minha mulher acordou mais cedo –normalmente eu me levanto meia hora antes– e, quando eu saí do banho, ela já tinha tomado café da manhã e cantarolava no quarto. Fui para a cozinha e estava lá meu cereal, o leite, o pão, os frios e uma metade de mamão. Na hora, lembrei dos pontinhos podres e virei o bendito para ver: imaculado. Minha esposa acabara de ficar com o pedaço ruim.
Pegando a colher, me senti meio culpado por não ter ido à cozinha antes que ela. Mas, no segundo seguinte, pensei que isso seria negar que ela também pudesse fazer algo por mim. Imagino que tenha ficado feliz por ter saído da cama mais cedo para descobrir a parte ruim do mamão e escondê-la de mim, a mesma alegria silenciosa que eu tivera nos dois dias anteriores. Porque, no fundo, um casamento é isso: oferecer ao outro sempre a melhor metade.
13.9.11
Voltar
E tem essa coisa de voltar. Quando era pequeno, entrava em casa e tinha a sensação de que, apesar de ter sido só um Sete de Setembro para a gente, ali dentro tinham corrido meses. Como aquelas contas de cachorro: um ano nosso equivale a sete para as poltronas e por aí vai.
Corria na frente de todos para ser o primeiro a ver a cozinha, os quartos, o banheiro. Ia olhando aquelas pétalas caídas ao redor do vaso, o relógio do micro-ondas piscando zerado, um pano de chão esturricado no varal, as pias sem nem uma gotinha de água. Como um mundo recém-descoberto.
É uma sensação que dura pouco, logo abre-se as cortinas e vai-se retomando tudo de novo. Ali está a partezinha amassada do sofá, a marca de panela quente na mesa, o lado da janela que não fecha direito.
* * *
Hoje eu vinha pensando em Deus enquanto fazia meu caminho de todos os dias. Engraçado como comento pouco sobre isso, mas é assim: penso em Deus enquanto caminho.
De longe reconheci um bem-te-vi; é fácil saber pela cabecinha listrada de preto. Mas de longe pensei que, embora sem dúvida nenhuma fosse um, bem-te-vis são maiores e mais bravos. Só quando passei a uns poucos centímetros e ele não fez menção de fugir foi que me ocorreu a ideia de que era um filhote. Já grandinho, mas um filhote.
Foi preciso que eu desse mais uns passos até me dar conta de mais: era um bem-te-vi, um filhotinho que ainda mal sabia voar, no meio de um cruzamento onde dali quinze minutos começaria o vai e vem de crianças chegando à escola.
E então voltei. Não sei de quem era o maior medo, se o meu de machucá-lo ou o dele de ser machucado, mas peguei-o nas mãos. Fechei bem a concha para que ele não caísse; pareceu não ter nada fora de ordem, talvez estivesse só cansado do primeiro voo. O coraçãozinho acelerado. Convenhamos, amiguinho, que um cruzamento não é um bom lugar para descansar. Pensei em colocá-lo dentro do bolso da jaqueta, mas também pensei que a natureza sabe fazer seu papel melhor que eu.
Ficou ali, entre os galhos floridos de uma glicínia.
* * *
Ontem à noite fui buscar água e a geladeira vazia me lembrou que hoje é dia de mercado. Desde pequeno adoro dia de mercado.
Corria na frente de todos para ser o primeiro a ver a cozinha, os quartos, o banheiro. Ia olhando aquelas pétalas caídas ao redor do vaso, o relógio do micro-ondas piscando zerado, um pano de chão esturricado no varal, as pias sem nem uma gotinha de água. Como um mundo recém-descoberto.
É uma sensação que dura pouco, logo abre-se as cortinas e vai-se retomando tudo de novo. Ali está a partezinha amassada do sofá, a marca de panela quente na mesa, o lado da janela que não fecha direito.
* * *
Hoje eu vinha pensando em Deus enquanto fazia meu caminho de todos os dias. Engraçado como comento pouco sobre isso, mas é assim: penso em Deus enquanto caminho.
De longe reconheci um bem-te-vi; é fácil saber pela cabecinha listrada de preto. Mas de longe pensei que, embora sem dúvida nenhuma fosse um, bem-te-vis são maiores e mais bravos. Só quando passei a uns poucos centímetros e ele não fez menção de fugir foi que me ocorreu a ideia de que era um filhote. Já grandinho, mas um filhote.
Foi preciso que eu desse mais uns passos até me dar conta de mais: era um bem-te-vi, um filhotinho que ainda mal sabia voar, no meio de um cruzamento onde dali quinze minutos começaria o vai e vem de crianças chegando à escola.
E então voltei. Não sei de quem era o maior medo, se o meu de machucá-lo ou o dele de ser machucado, mas peguei-o nas mãos. Fechei bem a concha para que ele não caísse; pareceu não ter nada fora de ordem, talvez estivesse só cansado do primeiro voo. O coraçãozinho acelerado. Convenhamos, amiguinho, que um cruzamento não é um bom lugar para descansar. Pensei em colocá-lo dentro do bolso da jaqueta, mas também pensei que a natureza sabe fazer seu papel melhor que eu.
Ficou ali, entre os galhos floridos de uma glicínia.
* * *
Ontem à noite fui buscar água e a geladeira vazia me lembrou que hoje é dia de mercado. Desde pequeno adoro dia de mercado.
26.8.11
Goiaba
E tinha o Fraga, que quando era moleque invadia quintais atrás das melhores goiabas. Louco por goiaba. Cresceu, fez carreira no banco, casou e, belo dia, foi chamado para supervisor. Mas nem tudo são flores: a vaga era para o turno da madrugada.
De começo, a esposa ficou meio arredia –dormir todo dia sem marido?–, mas o Fraga prometeu que ainda teriam um finzinho de noite juntos, que era provisório, que o Miranda do turno do dia estava para se aposentar e, veja bem, olha aqui de novo essa proposta de aumento.
A primeira semana foi complicada, a segunda correu bem melhor, na terceira o Fraga já tirou de letra. Saía de casa noite alta e voltava de manhã cedinho, a tempo de tomarem café juntos antes de a esposa ir trabalhar.
Numa quarta-feira ele chegou e, susto!, cama vazia. Ninguém no quarto, nem no closet, nem no banheiro. Desceu, então, para a cozinha e deu com um bilhete na geladeira: "Amor, fui à feira, já já chego. Te amo."
De fato, já, já chegou a mulher com um carrinho abastecido. E, surpresa boa!, de um embrulho de folhas de jornal surgiu meia dúzia de belas goiabas. Nem maduras demais nem verdes demais: do jeito certinho que ele gostava, exatamente como as da infância. O Fraga, louco por goiaba.
A partir de então, toda quarta, o Fraga chegava em casa e dava com o bilhete carinhoso. Era só o tempo de ferver a água para o café e vinham as rodinhas barulhentas do carrinho de feira. E o afortunado Fraga, que salivava só com o perfume das goiabas, pensava na sorte de se ter uma mulher assim dedicada.
Foi num dia de chuva feia que ele se sentiu mal. Só um resfriado, nada de se preocupar, mas ainda assim pessoal do setor foi solidário, fez questão de segurar as pontas para ele descansar em casa.
O Fraga voltou pensando que, com certeza que a mulher levantaria, preocupada, faria uma canja de legumes, quem sabe até largasse o serviço e ficasse em casa também; até que um resfriadinho era bem-vindo. Chegou no meio da madrugada, abriu a porta com cuidado e foi direto para a cozinha procurar algum comprimido. No que pegou, porém, na alça da geladeira, deu com um bilhete, o bendito bilhete de todas as quartas: "amorzinho, estou na feira, já já chego".
Duas da madrugada. Bilhete já na geladeira.
Subiu para o quarto e a cama estava vazia. Tudo vazio.
Duas da madrugada. Ninguém em casa.
Caiu ali, sentado na cama, coçando a cabeça. Quando, de manhã cedinho, ouviu o portão, estava ainda na mesma posição. Era a mulher, prestimosa, puxando o carrinho barulhento. A mulher, prestimosa, que passou o café, espremeu laranjas, torrou o pão e abasteceu a fruteira de goiabas perfeitas. A mulher, prestimosa, que se arrumou para trabalhar e despediu-se do marido com um beijo na testa.
Nem vestiu o pijama. Durante todo o dia, o Fraga não conseguiu dormir. Por onde ela andou? Será que toda quarta era assim? Será que o fruteiro...?
Prestes a pegar a mala para enfiar todas as roupas da esposa dentro, armar um barraco daqueles de novela, o Fraga foi fulminado por um pensamento que até então não lhe ocorrera: onde mais, meu Deus, ele acharia uma mulher que sabe escolher goiabas bem do jeito que ele gosta?
Caiu ali de novo, sentado na cama, coçando a cabeça. Meditou longamente. Cada um tem seus motivos, e esse pareceu um forte o bastante para o Fraga: goiabas perfeitas, toda quarta. Decidiu ficar quieto. Quando, de noite, a esposa chegou do trabalho, ele já a esperava com a janta pronta.
Só, por via das dúvidas, decidiu nunca mais voltar antes da hora nas quartas-feiras.
De começo, a esposa ficou meio arredia –dormir todo dia sem marido?–, mas o Fraga prometeu que ainda teriam um finzinho de noite juntos, que era provisório, que o Miranda do turno do dia estava para se aposentar e, veja bem, olha aqui de novo essa proposta de aumento.
A primeira semana foi complicada, a segunda correu bem melhor, na terceira o Fraga já tirou de letra. Saía de casa noite alta e voltava de manhã cedinho, a tempo de tomarem café juntos antes de a esposa ir trabalhar.
Numa quarta-feira ele chegou e, susto!, cama vazia. Ninguém no quarto, nem no closet, nem no banheiro. Desceu, então, para a cozinha e deu com um bilhete na geladeira: "Amor, fui à feira, já já chego. Te amo."
De fato, já, já chegou a mulher com um carrinho abastecido. E, surpresa boa!, de um embrulho de folhas de jornal surgiu meia dúzia de belas goiabas. Nem maduras demais nem verdes demais: do jeito certinho que ele gostava, exatamente como as da infância. O Fraga, louco por goiaba.
A partir de então, toda quarta, o Fraga chegava em casa e dava com o bilhete carinhoso. Era só o tempo de ferver a água para o café e vinham as rodinhas barulhentas do carrinho de feira. E o afortunado Fraga, que salivava só com o perfume das goiabas, pensava na sorte de se ter uma mulher assim dedicada.
Foi num dia de chuva feia que ele se sentiu mal. Só um resfriado, nada de se preocupar, mas ainda assim pessoal do setor foi solidário, fez questão de segurar as pontas para ele descansar em casa.
O Fraga voltou pensando que, com certeza que a mulher levantaria, preocupada, faria uma canja de legumes, quem sabe até largasse o serviço e ficasse em casa também; até que um resfriadinho era bem-vindo. Chegou no meio da madrugada, abriu a porta com cuidado e foi direto para a cozinha procurar algum comprimido. No que pegou, porém, na alça da geladeira, deu com um bilhete, o bendito bilhete de todas as quartas: "amorzinho, estou na feira, já já chego".
Duas da madrugada. Bilhete já na geladeira.
Subiu para o quarto e a cama estava vazia. Tudo vazio.
Duas da madrugada. Ninguém em casa.
Caiu ali, sentado na cama, coçando a cabeça. Quando, de manhã cedinho, ouviu o portão, estava ainda na mesma posição. Era a mulher, prestimosa, puxando o carrinho barulhento. A mulher, prestimosa, que passou o café, espremeu laranjas, torrou o pão e abasteceu a fruteira de goiabas perfeitas. A mulher, prestimosa, que se arrumou para trabalhar e despediu-se do marido com um beijo na testa.
Nem vestiu o pijama. Durante todo o dia, o Fraga não conseguiu dormir. Por onde ela andou? Será que toda quarta era assim? Será que o fruteiro...?
Prestes a pegar a mala para enfiar todas as roupas da esposa dentro, armar um barraco daqueles de novela, o Fraga foi fulminado por um pensamento que até então não lhe ocorrera: onde mais, meu Deus, ele acharia uma mulher que sabe escolher goiabas bem do jeito que ele gosta?
Caiu ali de novo, sentado na cama, coçando a cabeça. Meditou longamente. Cada um tem seus motivos, e esse pareceu um forte o bastante para o Fraga: goiabas perfeitas, toda quarta. Decidiu ficar quieto. Quando, de noite, a esposa chegou do trabalho, ele já a esperava com a janta pronta.
Só, por via das dúvidas, decidiu nunca mais voltar antes da hora nas quartas-feiras.
29.7.11
E as últimas são que...
- Fui convidado para fazer parte de uma mesa redonda com autores contemporâneos na Universidade de Brasília - UnB, em outubro. Já passei pela fase da surpresa, pela da alegria, pela da honra e estou entrando agora na do desespero (eu? falando sobre escrever? num evento desse?).
- Segundo o blog do Gustavo Soares, é mais difícil namorar uma garota que lê o Acepipes.
- Já o Bruno, do Sanduba de Queijo, escreveu uma resenha bacana e indicou um texto que eu escrevi sobre minha viagem ao lago Titicaca, na Bolívia.
- O post do cara que lê foi o que mais rendeu visitas, tweets e retweets, polegares no Facebook e no GoogleReader e tudo mais (agora, para que eu não passe por mentiroso, só espero que esse cara exista em algum lugar por aí....).
- Chegou o dia que eu temia: alguém –meu próprio pai– me perguntou pessoalmente como se pronuncia "Zwkrshjistão" e descobriu que eu nunca tinha pensado nisso. Eu sou um fiasco.
- Uma historinha aqui do Acepipes está virando animação. Mas isso eu só posso contar mais para a frente...
- Obrigado, obrigado e obrigado. Sempre.
- Segundo o blog do Gustavo Soares, é mais difícil namorar uma garota que lê o Acepipes.
- Já o Bruno, do Sanduba de Queijo, escreveu uma resenha bacana e indicou um texto que eu escrevi sobre minha viagem ao lago Titicaca, na Bolívia.
- O post do cara que lê foi o que mais rendeu visitas, tweets e retweets, polegares no Facebook e no GoogleReader e tudo mais (agora, para que eu não passe por mentiroso, só espero que esse cara exista em algum lugar por aí....).
- Chegou o dia que eu temia: alguém –meu próprio pai– me perguntou pessoalmente como se pronuncia "Zwkrshjistão" e descobriu que eu nunca tinha pensado nisso. Eu sou um fiasco.
- Uma historinha aqui do Acepipes está virando animação. Mas isso eu só posso contar mais para a frente...
- Obrigado, obrigado e obrigado. Sempre.
27.7.11
A parábola dos porcos
Assim que ele, segurando a respiração, não pôde ouvir mais nada além da coruja no pomar, o menino segurou firme a lanterna e saltou, já de tênis e tudo, de baixo das cobertas. Esqueceu da tábua solta do assoalho e, quando a madeira rangeu alto, ficou ali paralisado, pensando que tinha botado tudo a perder. Mas não: o avô já roncou logo em seguida. Ufa, à missão.
A missão era nobre, valia o perigo de uma aventura na madrugada –para quem dorme à oito, qualquer dez horas já é madrugada. O menino respirou fundo, girou a maçaneta e saiu correndo de uma vez só, sem olhar para cima –não precisava; nessa noite não havia morcegos nas tábuas do telhado da varanda.
Eram agora as férias de inverno. Uns dias antes, o pai e a mãe o haviam deixado –junto com a mochila, a lanterna, o telescópio e uma pilha de revistas– no sítio do avô. A irmã teve que ficar na cidade, de recuperação em português.
A coruja girou a cabeça, curiosa, quando viu a sombra passar pelo galpão, contornar a jaqueira –não é bom passar por baixo dos galhos; vai que uma bomba dessas cai na cabeça?–, e seguir na ponta dos pés em direção do chiqueiro. A lanterna ficou desligada mesmo: era noite de lua cheia. E que lua!
A porca esparramava-se de lado, os porquinhos aconchegavam-se uns em cima dos outros. O avô dizia que porco é bicho esperto, sabe quando a gente chega com comida na mão e quando chega com a faca escondida debaixo da camisa. Mas o menino chegava com coisa melhor e, por isso, nenhum reclamou quando ele, chegando de mansinho, agachou rente ao cercado.
Foi ganhando confiança, acariciou primeiro a mãe e depois os filhotes. Esticou os braços no meio das ripas e pegou um dos sete. Subiu o porquinho até em cima da cerquinha e notou, com alívio, que ele não se agitava. E então carregou-o no colo até o meio do terreiro.
Na roça, onde não há postes que apaguem as estrelas, o céu cintilava cheio de luzinhas:
— Olha só como é bonito. Tá vendo aquelas bem ali? É o Cruzeiro do Sul, eu aprendi na escola que é só saber achar ele no céu que a gente nunca vai se perder.
Ficaram os dois ali, um momento meio solene, meio engraçado: um menino com os braços esticados, um porquinho suspenso lá em cima.
— Aquela grande ali é a lua. Meu vô assistiu uma vez na televisão uns homens que viajaram até lá.
O garoto repetiu com cada um dos filhotes –a mãe era pesada demais, mas quem sabe quando ele crescesse e ficasse mais forte?– o mesmo ritual. Mostrou a todos o Cruzeiro do Sul –pouco provável que um deles se aventure muito mais longe do que a cerca atrás do chiqueiro, mas enfim–, a lua cheia, as galáxias e até um avião que passava.
É que, mais cedo, segurando um pedaço de broa de milho numa mão e uma revista dessas de curiosidades na outra, o menino descobrira que os porcos não conseguem olhar para cima. Foi um momento de revelação. Os porcos não podem ver o céu, e lhe pareceu injusto que alguém viva –e justo no campo, onde não há postes que apaguem as estrelas– sem nunca ver o céu. Daí a missão nobre, daí ele estar no meio do terreiro, com os braços cansados de segurar filhotes acima da cabeça.
Talvez, na ingenuidade, ele nem tenha notado a indiferença dos porquinhos. Arrisco dizer que os bichinhos não deram grande importância, talvez nem se lembrem.
Mas para o menino fez toda a diferença.
A missão era nobre, valia o perigo de uma aventura na madrugada –para quem dorme à oito, qualquer dez horas já é madrugada. O menino respirou fundo, girou a maçaneta e saiu correndo de uma vez só, sem olhar para cima –não precisava; nessa noite não havia morcegos nas tábuas do telhado da varanda.
Eram agora as férias de inverno. Uns dias antes, o pai e a mãe o haviam deixado –junto com a mochila, a lanterna, o telescópio e uma pilha de revistas– no sítio do avô. A irmã teve que ficar na cidade, de recuperação em português.
A coruja girou a cabeça, curiosa, quando viu a sombra passar pelo galpão, contornar a jaqueira –não é bom passar por baixo dos galhos; vai que uma bomba dessas cai na cabeça?–, e seguir na ponta dos pés em direção do chiqueiro. A lanterna ficou desligada mesmo: era noite de lua cheia. E que lua!
A porca esparramava-se de lado, os porquinhos aconchegavam-se uns em cima dos outros. O avô dizia que porco é bicho esperto, sabe quando a gente chega com comida na mão e quando chega com a faca escondida debaixo da camisa. Mas o menino chegava com coisa melhor e, por isso, nenhum reclamou quando ele, chegando de mansinho, agachou rente ao cercado.
Foi ganhando confiança, acariciou primeiro a mãe e depois os filhotes. Esticou os braços no meio das ripas e pegou um dos sete. Subiu o porquinho até em cima da cerquinha e notou, com alívio, que ele não se agitava. E então carregou-o no colo até o meio do terreiro.
Na roça, onde não há postes que apaguem as estrelas, o céu cintilava cheio de luzinhas:
— Olha só como é bonito. Tá vendo aquelas bem ali? É o Cruzeiro do Sul, eu aprendi na escola que é só saber achar ele no céu que a gente nunca vai se perder.
Ficaram os dois ali, um momento meio solene, meio engraçado: um menino com os braços esticados, um porquinho suspenso lá em cima.
— Aquela grande ali é a lua. Meu vô assistiu uma vez na televisão uns homens que viajaram até lá.
O garoto repetiu com cada um dos filhotes –a mãe era pesada demais, mas quem sabe quando ele crescesse e ficasse mais forte?– o mesmo ritual. Mostrou a todos o Cruzeiro do Sul –pouco provável que um deles se aventure muito mais longe do que a cerca atrás do chiqueiro, mas enfim–, a lua cheia, as galáxias e até um avião que passava.
É que, mais cedo, segurando um pedaço de broa de milho numa mão e uma revista dessas de curiosidades na outra, o menino descobrira que os porcos não conseguem olhar para cima. Foi um momento de revelação. Os porcos não podem ver o céu, e lhe pareceu injusto que alguém viva –e justo no campo, onde não há postes que apaguem as estrelas– sem nunca ver o céu. Daí a missão nobre, daí ele estar no meio do terreiro, com os braços cansados de segurar filhotes acima da cabeça.
Talvez, na ingenuidade, ele nem tenha notado a indiferença dos porquinhos. Arrisco dizer que os bichinhos não deram grande importância, talvez nem se lembrem.
Mas para o menino fez toda a diferença.
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