14.9.07

Manhã de esses

Sempre sossegado,
o sabiá assobia
ao nascer do sol.

12.9.07

Conto de fadas brasileiro

Era uma vez um país que vivia de brincadeira. Gostavam de uma brincadeira que só eles. E, depois do futebol, a brincadeira que eles mais gostavam era a da mentira. Era como se vivesse num eterno primeiro de abril, o país.
     A coisa toda era muito simples: ganhava quem mentisse mais. Mas não bastava só mentir, tinha de mentir e fazer os outros acreditarem. Como todo jogo, tinha lá uma meia dúzia de craques, macacos velhos já, não tremiam a voz e nem davam risada enquanto brincavam, juravam pela mãezinha que era tudo verdade.
     E, de tempos em tempos, o país se mobilizava em organizar os campeonatos. Era meio como nos jogos de colégio: concursos municipais, estaduais e um grande campeonato federal. Times eles tinham vários, e para todos os gostos, de todas as cores e com vários mascotes.
     E o povo tanto gostava da brincadeira que colocava os participantes para aparecer na tevê e no rádio, no melhor horário disponível, em todas as emissoras. E todo mundo parava de ver a novela só para ouvir, boquiaberto, as melhores mentiras do país.
     Alguns diziam:
     — Eu vou acabar com a fome neste país.
     E o povo aplaudia e ia ao delírio. E outros falavam:
     — Nenhuma criança vai ficar fora da escola.
     E o povo achava o máximo e corria e levava as crianças para ganharem beijos quando os concorrentes passeavam nas cidades.
     E, na brincadeira, se um prometia um milhão de alguma coisa, o outro corria para prometer dois e um outro ainda dizia que ele sozinho já tinha criado três. E um chamava o outro de mentiroso, mas o outro negava e jurava que isso era uma calúnia, minha Nossa Senhora. E tudo era só alegria. E o povo acreditava em tudo.
     Quando chegava a época do grande concurso, lá para outubro, o povo se perdia em meio a sorrisos e não sabia em que mentira acreditar, porque todas elas eram sedutoras. E o povo ganhava papéis e bandeiras e favores e até dentaduras porque nessa brincadeira, competir não valia nada, o que valia mesmo é ganhar.
     E então chegava o grande dia e o povo todo corria para escolher seus favoritos. O mais bonito, o mais inteligente, o mais simpático, cada um escolhia o seu. Chegaram até a criar um enorme sistema informatizado para saber o resultado no mesmo dia, tanta pressa que tinham para saber quem era o novo campeão.
     E com o resultado nas mãos, o povo corria e carregava os vencedores, entre vivas, para salinhas com secretária, ar condicionado e motorista. Porque, de tanto que o povo gostava da brincadeira, eram os vencedores que mandavam no país.
     E, de vez em quando, mesmo depois de acabado o campeonato, os esportistas apareciam na tevê e diziam alguma mentirinha, assim só para não perder a forma. Às vezes, algum acusava o outro de roubar na brincadeira e, oh!, o país parava para ver a briga dos sujeitos. Mas, no fim das contas, todo mundo se abraçava, pedia uma pizza pelo telefone e vivia feliz para sempre.

10.9.07

Diários de um sapo

Que inclusão social, que nada: ser sapo hoje em dia é estar à margem da sociedade. Os humanos, que carregam não sei por quê esse sentimento de serem os donos do mundo, projetaram as cidades somente para eles. Nada numa metrópole foi feito visando o conforto de um sapo. Nada.
     Não existem armações de óculos para o rosto sem nariz ou orelhas de um sapo. Tive de pagar para adaptar meu carro porque meus braços curtos não alcançam o volante. Levo minhas calças ao alfaiate porque as das lojas não foram feitas para nossas longas pernas elegantes. Tenho de ir a uma farmácia especial para manipular meu protetor solar para pele extra-úmida.
     Os restaurantes, além de não servirem um cardápio satisfatório, ainda têm o péssimo costume de espantar as moscas de cima dos pratos. E as madames, concentradas em facas garfos colheres taças copos e salamaleques, olham enojadas se vêem alguém usar a língua —quer coisa mais natural?— para se servir.
     Não bastasse, todo mês tenho de explicar a um inspetor sanitário que a água no meu quintal não é um criadouro de mosquito da dengue, mas o berçário dos meus girinos recém-nascidos. E isso porque não tocarei no incidente desagradável que aconteceu quando, num dia quente, resolvi refrescar a pele no chafariz da praça.
     Não se pode mais ser sapo com dignidade hoje em dia.

6.9.07

Joe Náufrago

Admito que quase morri de susto quando dei de cara com um pirata na calçada de casa. Ele dava rum a um vira-lata, bêbado e malcheiroso feito um gambá —não o cachorro, o pirata. Mas, como ele ofereceu um sorriso franco, mostrando cordialidade e dois dentes de ouro, e ameaçou me jogar aos tubarões se eu fugisse, acabei me apresentando.
     Desde então, eu e o capitão Joe Náufrago somos amigos. E ele, velho lobo do mar, compartilha comigo sua sabedoria de quem, com seu único olho, já viu de tudo no mundo.
     — ... e então o gerente me disse que o boneco que vinha de brinde já estava esgotado.
     — Com mil demônios! E o que você fez, rapaz?
     — Nada. O que é que eu poderia fazer, ué?
     — Diabos, bastardo nenhum rouba o capitão Joe Náufrago. Eu teria incendiado a loja e enforcado o sodomita imundo nas próprias tripas. Arrr!
     — Mas veja, capitão, ele me deu duas balinhas grátis.
     — Hum, duas balinhas são oferta de se pensar... neste caso, irmãozinho, eu daria uma chance ao homem. Só incendiaria a loja.
     Ele não é lá muito tolerante, mas é um bom sujeito.

Literatura #1

Escrevendo a história do escultor, lembrei de quando levei seis meses para ler a Divina comédia, entre idas e voltas. O inferno é legal, tem ação, drama, suspense e terror; o purgatório é meia boca, até diverte em certos trechos, e o paraíso é —perdão, Senhor, juro que é só literariamente falando— um porre. Dante fez um baita anti-marketing do Reino de Deus.

30.8.07

O escultor

VI - fim
(partes anteriores: I, II, III, IV e V)

De madrugada, o padre J. acordou sobressaltado. Chegou a sentir-se aliviado quando viu que fora um pesadelo, mas logo se lembrou de que a realidade não era menos dura: ele tinha um assassino nas mãos. Na igreja, haviam cessado as batidas do martelo. O velho homem dormiu com a pergunta ressoando na cabeça: deveria quebrar o santo segredo da confissão?
     Antes do amanhecer, levantou-se, como de costume, para rezar as matinas, vestiu-se, tomou o breviário e desceu para a igreja. Antes de ajoelhar-se no altar central, o padre notou que os painéis no fundo da igreja não estavam mais cobertos com o pano: estavam prontos. Mas, embora tudo o que quisesse nos últimos meses era vê-los acabados, não quis chegar mais perto para observar, estava desgostoso.
     Voltou para a sacristia, onde preparou, sem apetite nenhum, seu café da manhã. Depois da confissão do dia anterior, o padre não sabia como encararia o homem que logo sairia pela porta do quarto de hóspedes. Mas ninguém saiu por ela, ninguém dormia naquele quarto. Todas as roupas e os pertences estavam lá, como no dia anterior, mas não o artista. Correndo como podia, o padre voltou para procurá-lo na igreja, pensou que talvez a vista o tivesse traído e o homem estivesse o tempo todo lá. Não encontrou ninguém. O escultor fugira.
     O padre J. caminhou lentamente até os grandes painéis de mármore. Eram uma imagem grandiosa. Espalhados no chão e na bancada diante deles, estavam ainda todos os instrumentos do escultor. No chão, o grande tecido branco que antes cobria as partes inacabadas.
     Ele correu os olhos pelo paraíso e o purgatório. Eram perfeitos, mas o padre não os achava mais belos, o escultor cobrara alto demais por eles, um preço que ele jamais desejaria pagar: sangue inocente. E então o inferno. A idéia do padre era uma visão terrível, mas que bem serviria como alerta aos fiéis: sejam maus e vocês virão para cá. E de fato era aterrorizante: os corpos contorciam-se, agonizavam, imploravam por um segundo que fosse de descanso.
     E então, dentre aquelas caretas de dor, um rosto saltou aos olhos do padre J. Ardendo em uma labareda, puxado por dois demônios que tentavam rasgar-lhe as carnes, estava um rosto bem familiar: o próprio escultor. O padre não pôde conter um grito de horror antes de perder os sentidos e ser acudido pelas beatas que chegavam para a missa.
     Desde então, o artista misterioso nunca mais foi visto. Não em carne e osso.